Fortaleza, uma cidade em TrAnSfOrMaÇãO!!!


Blog sobre essa linda cidade, com suas praias maravilhosas, seu povo acolhedor e seus bairros históricos.


segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Postais antigos IV

Postal Casa Sloper, em 1945
Postal da Avenida do Palácio


Praça do Ferreira - Postal dos anos 30


Postal de 1968 - Cidade da Criança


Postal do Palace Hotel


Rua Sena Madureira

Raro postal da véspera de Natal, em 1920, Majestic Palace


Rua Barão do Rio Branco, antiga Rua Formosa, postal de 1925



Praça General Tibúrcio - postal de 1912


Praça General Tibúrcio, raro postal editado em 1900

Praça General Tibúrcio, dos Leões, séc. XX

Posto Peixoto


Postal de 1918 do Solar Carvalho Mota

Postal Sobrado de Joaquim da Cunha Melo (Barao da Ibiapaba)

Postal raro, Passeio Público, 1907


Postal raro do Passeio Público


Outro postal raro do Passeio Público

sábado, 28 de novembro de 2009

Edifício São Pedro - Antigo Iracema Plaza Hotel



Praia de Iracema e o balneário 'Iracema Plaza', a primeira edificação da orla 1958

'O portão de ferro carrega um cadeado proibindo a entrada de desconhecidos. Em formato de navio, o edifício São Pedro, situado na Praia de Iracema, ancora-se sobre uma sorveteria, uma agência dos correios, uma consultoria imobiliária, um centro de estética e uma Lan house. Nos arredores, a Igreja São Pedro e uma tabacaria. '



Iracema Plaza Hotel, inaugurado em 1950-1951

O edifício São Pedro faz parte da lista de equipamentos tombados em caráter provisório pela Prefeitura Municipal de Fortaleza, em janeiro de 2006. No entanto, o síndico do prédio e proprietário majoritário, Alexandre Philomenos Gomes, afirma nunca ter recebido alguma notificação do município sobre o tombamento do prédio e por isso preferiu não falar. “Tive conhecimento desse assunto por meio da imprensa. Mas nunca os residentes do prédio foram notificados. Só posso me pronunciar a respeito do tombamento, quando eu souber de fato qual o interesse da prefeitura neste prédio”, finaliza.

O Iracema Plaza Hotel foi a primeira edificação da orla, digamos assim, apesar de estar a poucos metros do mar e mesmo não sendo à beira-mar, que foi rasgada somente em 1963.
Porém, o prédio foi inaugurado em 1951, inspirado em hotéis de Miami.
Lá funcionava um restaurante famoso, de nome 'Panela', que recebeu ao longo daquele século, várias personalidades.
Hoje é um prédio residencial de nome São Pedro e não "San Pedro", já que este é outro ex hotel, onde funciona o Crea-CE.

História


 
Exótico Iracema Plaza Hotel - Edifício São Pedro na Iracema anos 50
Pertencente à família Philomeno Gomes, o edifício São Pedro também chamado de “Copacabana Palace” da capital cearense. O edifício de arquitetura inspirada nos hotéis luxuosos de Miami Beach, nos Estados Unidos, foi construído em 1951 para ser o primeiro prédio da orla. Com formato de navio, foi idealizado para desenvolver atividades de hotel, condomínio residencial e comercial em meio às casas e o areal da Praia de Iracema.


Foto do Documentário Lastro – Memórias do Edifício São Pedro de Rebeca Prado

 Foto do Documentário Lastro – Memórias do Edifício São Pedro de Rebeca Prado

 Foto do Documentário Lastro – Memórias do Edifício São Pedro de Rebeca Prado

 Foto do Documentário Lastro – Memórias do Edifício São Pedro de Rebeca Prado
  
Só no hotel são mais de 100 apartamentos com salões de convenções, estar, coffee shop e barbearia. São 12 mil metros de área construída, apartamentos com 200 metros quadrados. Vê-se da janela uma das imagens mais bonitas de Fortaleza: a Praia de Iracema

O Prédio abrigava um hotel que era sinônimo de requinte.

A arquitetura é, no mínimo exótica, ou indefinida. De longe chega a lembrar um navio, com os seus cinco pavimentos pintados de branco, hoje desbotados pela degradação do tempo e ausência de manutenção. A verdade é que o Iracema Plaza Hotel, localizado na Praia de Iracema, não somente encerrou melancolicamente seu ciclo de pompa e luxo, como o antigo prédio tem ainda um futuro incerto.



Foto do final dos anos 50 começo dos anos 60


Foi o primeiro hotel instalado na orla marítima. O Iracema Plaza Hotel foi também capaz de mudar o hábito do fortalezense, fazendo com que sentisse prazer em almoçar ou jantar fora, num restaurante de primeira categoria. Era o tempo do Panela, funcionando na parte de baixo do hotel, e que oferecia tanto uma culinária internacional como também regional. Não obstante todo o passado de glória, o antigo hotel foi desativado desde o final da década de 70 e hoje seus compartimentos laterais e o térreo foram transformados em residências ou estabelecimentos comerciais.

Foto da década de 50

Ex-Iracema Plaza Hotel, hoje edifício São Pedro, inaugurado em meados de 1951, em Iracema. Foto de 1960

A síndica Júlia Philomeno evita falar na venda do imóvel, até porque ele está dividido entre mais de 14 proprietários, alguns desses morando em pequenos apartamentos ou quitinetes, com dificuldades, em alguns casos, até para se reunirem a fim de bancarem uma reforma no prédio.


Beira-mar 1976 - O exótico prédio São Pedro, nessa foto chamado ainda de Iracema Plaza

O que estamos aguardando é uma tomada de decisão, porque o prédio, de fato, precisa ser recuperado”, afirma Júlia Philomeno. Para ela, de todo o conjunto da edificação o que mais importou foi a construção do hotel, na década de 50.

O prédio, conforme conta Júlia, não foi concebido inicialmente para abrigar um hotel. Essa transformação decorreu de um encontro realizado em Fortaleza, de iniciativa da junta comercial, que não contava na época com uma rede hoteleira capaz de atender a demanda.

Foto de 1999


A improvisação foi plena de êxito e o hotel chegou a ser um referencial para a cidade, abrindo até o corredor para a Avenida Beira Mar, onde hoje estão instalados os principais hotéis da cidade. Era também nesse local onde a chamada alta sociedade de Fortaleza reunia-se, principalmente em torno do restaurante Panela, sinônimo de requinte e sofisticação na Fortaleza daquela época.

O jornalista e colunista social José Rangel lembra do ambiente agradável proporcionado pelas instalações do hotel e o esmero da cozinha no Panela, numa época em que os restaurantes ficavam restritos aos clubes, como o Ideal, Náutico e Country Club.




José Rangel lamenta tanto o fechamento do hotel, quanto a degradação do prédio, que, para ele, deve ser preservado a qualquer custo, em nome da memória histórica de Fortaleza, onde o patrimônio não é levado na devida conta. “Trata-se de um prédio importante para a cidade, tanto pela particularidade de sua arquitetura - que proporcionava uma ampla visão do litoral e do bairro de Iracema - quanto pela sua importância, em ter aberto a rota para a Avenida Beira Mar”, ressalta.

Com certeza o prédio é patrimônio Histórico da Cidade!



Localização: rua Ararius, n° 9 - Praia de Iracema
Ali funcionou o Hotel Iracema Plaza com a entrada no lado norte, dando para a praia e no lado oeste, entrada para os apartamentos. Foi inaugurado na década de 1950, e ficou inacabado (o último andar) durante algum tempo. 


Iracema Plaza Hotel em notícias:










Documentário Lastro – Memórias do Edifício São Pedro de Rebeca Prado:




Fonte: Diário do Nordeste, artigo publicado nos anos 90, Elzine Carneiro de Souza, Portal da História do Ceará e pesquisas na internet

Praia do Peixe - As diversas fases da Praia de Iracema


Ao fazer o post anterior sobre a Praia Formosa, eu lembrei da Praia do Peixe e fui pesquisar na internet e achei um vasto material que vou compartilhar com vocês. :)



Fotografia colorida à mão

No desejo de descobrir diferentes ambientes para o desenvolvimento de novos hábitos e prazeres diversos, no início do século XX surge o interesse pelo mar por parte da elite. É nesse contexto que na década de 1920 passa a existir a Praia do Peixe. Para a compreensão do surgimento e evolução do bairro, se faz necessário entender as fases vivenciadas pelo objeto através dos fatos históricos que marcaram a história do lugar.


As antigas casinhas de pescadores na Praia do Peixe - Nirez

De Praia do Peixe à Praia de Iracema

Embalagem do Sabonete Iracema, do ano de 1928, um dos muitos produtos que então eram designados com o nome da personagem de José de Alencar. Fonte: Arquivo Nirez


Não se pode falar da Praia de Iracema sem voltar ao passado e mencionar a sua imagem incorporada à memória e ao cotidiano da cidade, dividida entre o mar e o sertão, fazendo com que aproximadamente três séculos após a sua colonização viesse a manter vínculos urbanos mais sólidos com o litoral.
Com a chegada do século XIX veio à redescoberta do mar, tendo como fator propulsor um novo direcionamento econômico que sobreveio ao Ceará. O Estado, por sua vez, devido à exigência do mercado internacional, condicionou a economia cearense a trocar o charque pelo algodão e porque não dizer o sertão pela capital. Assim, em um sentido inverso ao percebido até então, Fortaleza, uma cidade litorânea, ao redescobrir o mar, continuava interiorana, ou seja, extremamente ligada ao sertão. A partir desse momento, a elite procurou novos espaços, surgindo um interesse discreto pelo litoral que não passava de um lugar voltado para os desafortunados. 


A tranquilidade da Praia de Iracema - Arquivo Nirez 

O ciclo do algodão gerou um novo olhar sobre Fortaleza, um olhar, diga-se de passagem, tão atraente que a cidade, passou de uma população estimada em 3.000 habitantes em 1800, para 16.000 habitantes em 1863 e a 21.372 em 1872. Tudo isso pelos incentivos decorrentes do “ouro branco”, o algodão, que determinou a economia do século XIX, bem como elevou Fortaleza de oitava para a posição de segunda cidade do Ceará. As preocupações em melhorar Fortaleza como cidade comercial passou a existir a partir de então, afinal, com a cultura algodoeira unida aos demais produtos de produção do Estado, houve a necessidade de melhores instalações portuárias e foi nessa condição que surgiu na costa Fortalezense, após algumas tentativas frustradas, a construção de um quebra-mar ligando à praia por meio de um viaduto. Com o insucesso do projeto devido ao assoreamento formou-se uma espécie de bacia parada de água chamada pela população de Poço da Draga.


O Poço da Draga em 1932

Finalmente, em 1906, Fortaleza viu surgir na Praia do Peixe um viaduto de construção da Ceará Harbour Corporation Ltda, o Viaduto Moreira da Rocha. Segundo Sousa (1999), a construção surgiu da necessidade de um porto na cidade. É bem verdade que na antiga Praia Formosa, ao lado da Praia do Peixe, já havia o estaleiro, onde funcionava um porto, porém, devido às condições de trabalho extremamente precárias, houve a necessidade de um novo que foi modificado em 1928 pelo Departamento Nacional de Obras Contra Seca (DNOCS), até que 1930 um trecho desabou deixando de ser utilizado. As construções portuárias viabilizaram a existência de um suporte comercial para favorecer as relações portuárias, logo não demorou para surgirem armazéns e Alfândega na área entre a praia e o centro da cidade consolidando a ocupação comercial das proximidades da praia conforme observa-se na foto, ao mostrar o areal da Praia do Peixe em 1910:

Areial da Praia do Peixe 1910

Evidencia-se que com o desenvolvimento comercial e o acúmulo de capital, acentua-se o processo de segregação social e na cidade passam a existir bairros somente para ricos, bairros para remediados, pobres e extremamente pobres.

Postal histórico, 1931, Praia de Iracema - Loja Chrysanthemo

Seguindo essa cronologia, pode-se afirmar que o início do século XX foi marcado, sobretudo, pela valorização do mar. Foi um momento em que a elite, oriunda do sertão, passou a se localizar principalmente no centro de Fortaleza e, ao ser contagiada pelo modismo das práticas marítimas desenvolvidas na Europa, almejou se inteirar com um espaço pouco percebido da cidade. Logo, não demorou muito para a praia dos pescadores se transformar em lugar importante, reduto das práticas marítimas modernas, como o banho de mar e as caminhadas, assim como se consolidar como um dos lugares mais procurados para o veraneio.

Praia de Iracema na década 1940


A interessante denominação de Praia do Peixe, veio da simbologia da venda diária do peixe fresco que era trazido pelos pescadores que dava ao lugar a imagem popular de “pinga, jogo de caipira e facada de pescador”. Quem passava pela praia numa época como aquela via um cenário completamente diferente do que é hoje. Era o mar repleto de jangadas e a praia lotada de casas de palha, residências dos pescadores, como se observa nas primeiras fotos da postagem. 


Praia do Peixe, início da década de 1920 com panorâmica ao fundo do
Viaduto Moreira da Rocha


A urbanização propriamente dita começou somente a partir de 1920 de forma lenta e gradual, afinal para as classes abastadas se fixarem no novo espaço pretendido o mesmo deveria perder a sua aparência de insignificância. De acordo com Dantas (2002, p.39), o litoral era tido “[...] como lugar de habitação das classes pobres da sociedade fortalezense”.
A primeira mudança almejada segundo a revista da época Ceará Ilustrado, foi o nome: Praia do Peixe!
Uma fila de casas alpendradas, à beira dos verdes mares bravios, orlando aquela extensão em que a “praia beija a vaga e em que a vaga beija o mar”, aquele recanto, aquela marinha cearense, perde muito de sua beleza com esse nome de Praia do Peixe, nome que exala tanta maresia e tão intenso fartum de vísceras de garôpa expostas ao sol, a vista cobiçosa dos urubus malandros. Foi, por isso, muito feliz a ideia daqueles moços- ideia abraçada de pronto pelas famílias que habitam a Praia do Peixe de atirar-se fora, lá para longe, esse nome tão prosaico e que parece dizer uma tolice – que as demais praias não tem peixe.
Praia de Iracema sim! Praia de Iracema, da “virgem que tinha os lábios de mel e os cabelos mais negros que as asas da graúna”... Vença a ideia feliz! Ceará Ilustrado
(CEARÁ ILUSTRADO, 1925a, p. 217).

1937 Postal raro Praia de Iracema

A ideia da mudança do nome surgiu a partir da iniciativa da cronista social Adília de Albuquerque Morais (Veja fotos dessa época) em sugerir a construção de um monumento do escritor cearense José de Alencar na beira-mar. De agrado do público e da imprensa foram rápidas as solicitações formais para que o nome da praia fosse mudado (CEARÁ ILUSTRADO, 1925a).
Portanto, foi provavelmente inspirada na musa do escritor cearense José de Alencar que a Praia do Peixe se tornou Iracema. Uma Iracema bela como a descrita no romance que se revestiu de belos trajes; afinal o odor forte das “vísceras de garôpa expostas ao sol”, deram espaço a uma Iracema asséptica e elegante. De acordo com o Guia Cultural (ESCÓSSIA, 2000), isso ocorreu em 1925 quando o bairro passou a se chamar oficialmente de Iracema e suas ruas ganharam nomes de tribos indígenas, recebendo inclusive a extensão da linha do bonde.

Fachada de Bangalôs da Praia de Iracema na década de 1940


Os moradores do aprazível bairro da “Praia do Peixe” vão erigir nas brancas areias afagadas pelos “verdes mares” uma estátua de Iracema. Já deve estar nas mãos do Sr. Dr. Prefeito Municipal um abaixo assinado, solicitando um decreto que mude a denominação imprópria e vulgar por que é conhecido aquele encantador trecho de Fortaleza para a de “Praia de Iracema”. Nada mais justo do que a inspiração dos suplicantes e, estamos certos, de que o Sr. Dr. Godofredo Maciel irá ao encontro dos desejos de seus munícipes.
Praia de Iracema. É esse o nome que se procura dar ao antigo bairro Praia do Peixe. Não há dúvida que a ideia é simpática, por se tratar da heroína do romance de José de Alencar – Iracema, a virgem dos lábios de mel – símbolo de ternura e amor das filhas da terra do sol. (CEARÁ ILUSTRADO, 1925, pág. 15; 275).

 Beira Mar da Praia de Iracema, 1930 
Fonte: Arquivo Nirez

Diante do interesse da classe abastada pelo mar são intensificadas mudanças na Praia do Peixe com vista a adaptá-la aos novos gostos. A beira-mar começa a receber construções de casas alpendradas apregoando um novo estilo residencial não comum na cidade de Fortaleza.

Praia de Iracema, 1920 - Arquivo Gerard Boris

Durante todo o século XIX o tipo de casa da área urbana de Fortaleza era voltado para o estilo de lotes profundos e estreitos, mudando por volta de 1930 quando a nova legislação urbana passou a exigir recuos laterais.


 O embarque e desembarque era feito por alvarengas

Diante da diferente proposta de ocupação, o panorama da praia muda e os casebres bem como os pescadores, seus antigos proprietários, migram para outras áreas. Percebe-se com isso a existência de um processo de expulsão que passa a ocorrer, abrindo definitivamente espaço para os novos residentes. Foi nessa política de expansão que em 1913, Fortaleza viu os bondes elétricos substituírem os bondes puxados a burro.

Rua dos Tabajaras, corredor turístico da Praia de Iracema

A Rua dos Tabajaras transformou-se no lugar principal do bairro, não era à toa a chegada dos investimentos econômicos, culturais e residenciais; como a “Vila Morena”, considerada a primeira residência de grande porte da orla, construída com material oriundo da Europa, sendo inclusive a primeira residência da cidade a possuir piscina (SOUSA, 1999).

Ainda em 1920, a praia de Iracema recebeu a construção da Ponte dos Ingleses, que objetivou viabilizar ações portuárias. Porém, a utilidade da construção foi muito mais social que econômica, pois, ainda durante o seu andamento, o projeto foi abandonado e o povo da cidade aproveitou a beleza do lugar para transformá-la em ponto de encontro, principalmente para apreciar o pôr do sol que, segundo relatos, era a melhor programação do final da tarde (SOUSA, 1999). 
Durante esse período verificou-se o estabelecimento de várias formas de sociabilidade. Muitas pessoas passaram a conviver com o novo espaço estabelecendo relações de posse no uso da Praia, levando ao surgimento de rivalidade entre as classes ricas e pobres por questões até mesmo de ordem recreativa. Isso pôde ser observado com a delimitação na Praia de uma área para pobres e outra para as “pessoas de bem”, ou seja, os ricos, pois para estas pessoas, “[...] a presença de pobres, tanto nas praias como nas festas públicas, constituía falta de zelo e irresponsabilidade do governo” (JUCÁ 1996 apud DANTAS, 2002, p. 54).

Em 1925, a revista Ceará Ilustrado publicou uma matéria, mostrando o estilo de vida social da Praia e evidenciando a transformação ocorrida entre o que foi a Praia do Peixe e a nova Praia de Iracema. Parece que, com a mudança do feio nome de Praia do Peixe, a mais formosa marinha cearense, encanto da nossa sociedade elegante, está adquirindo um desusado movimento nestes últimos dias. Ranchos de namorados felizes e sorridentes confundem os seus arrulhos com o marulho das ondas; automóveis buzinam; ouvem-se risadas e canções, consta mesmo que alguns poetas indígenas tencionam abrir nesta revista um concurso de sonetos sobre as maravilhosas perspectivas que aquela praia nos sugestiona (CEARÁ ILUSTRADO, 1925b, p. 228).

No início da década de 1930 foi construída a Igreja de São Pedro, construção de iniciativa de senhoras católicas com a ajuda da população, que teve como padroeiro o santo dos pescadores - São Pedro. A Igreja representava a alta sociedade católica presente na Praia de Iracema, pois as missas eram frequentadas pelas famílias ricas de Fortaleza como “[...] Jereissati, Ary, Bachá, Dummar, Nassar, Otoch, Romcy, [...]” dentre outras (FAHEINA, 2003, p.5).

Igreja de São Pedro
Fonte: Sousa 1999

No início da década de 1940, a Praia de Iracema começa a viver sua fase de consagração como sendo o lugar de maior importância da cidade. É a partir de então que o interesse pelo mar deixa de ser contemplativo e passa a se configurar como prática daqueles que trocam a Praça do Ferreira e o seu entorno pelo novo atrativo da cidade. Nesse período a Praia de Iracema se consolida como espaço de balneabilidade, se transformando em produto de consumo para a sociedade, usada para banhos de mar e caminhadas na faixa de areia nas manhãs e nas noites enluaradas.

O banho de mar, até então visto apenas como tratamento médico, começava a se transformar opção de lazer, especialmente para os homens. Mulheres só de manhã cedo, ou aos domingos [...]” (ESCÓSSIA, 2000, p.35).

Devido a essa realidade, surgem vários balneários, entre eles o mais famoso data de março de 1944, cujo proprietário, Zairton Ferreira Lopes – o “Gruta” - veio a se tornar uma figura conhecida na época em virtude do seu temperamento forte e do seu ar de ermitão, fenótipo este que restava complementado pela presença de uma longa barba.
Ao observar a maré baixa, o proprietário do local enchia a praia de mesas e cadeiras para receber o público que chegava de bonde. No balneário se alugavam roupas de banho e ainda havia armários para guardar os pertences dos visitantes.
Durante a 2ª Guerra Mundial, com a proibição da venda de bebida alcoólica a partir de determinados horários, o “Gruta” costumava servir aguardente em recipientes de louça para burlar a fiscalização (O POVO, 20 03, p.7).

Antigo Porto anos 30

Até o final da metade da década de 1940, a Praia de Iracema conseguiu alinhar-se ao gosto exigente da sociedade elegante de Fortaleza. O bairro tomou ares de estação balneária e se consolidou como produto de consumo da elite local vivendo sua fase áurea, apelidada pelos boêmios e apaixonados de “Praia dos Amores”. Na revista Bataclan (1926, p. 227) Iracema já era descrita como o “supremo encanto de Fortaleza”.

Antigo Porto

O bairro começava a romper suas barreiras limítrofes e crescia no sentido sul e oeste, em direção ao centro. Apesar dos pescadores terem mudado de habitação pelo perfil imposto a praia, ainda continuavam a desenvolver relações de trabalho buscando o sustento de suas famílias através da pesca. É por essa razão que mesmo com o aformoseamento e consagração dos balneários, as jangadas continuavam a emoldurar o cenário da praia coexistindo relações de moradia, trabalho e lazer. Esse fato é reforçado por Schramm (2001), ao mencionar os campeonatos de jangadas que aconteciam aos domingos oferecendo entretenimento aos visitantes.
Nota-se que desde a criação da praia de Iracema as pessoas interessadas no objeto, passaram a desenvolver atividade de lazer e entretenimento com o espaço. Isso é percebido com os vínculos de veraneio estabelecidos a partir da construção dos primeiros bangalôs; dos passeios de bondes e encontros românticos para assistir o pôr do sol; as festas no cassino dos americanos; o banho de mar; a missa na igreja de São Pedro e os campeonatos de jangada.

Postal anos 30

No entanto, a valorização da Praia de Iracema em relação aos passeios, os banhos de mar e às festas nos clubes foi de certa forma de curta duração exatamente devido ao processo erosivo gerando pela construção do Porto do Mucuripe que, no final de 1940, fez com que as classes abastadas mudassem de endereço. Parte da Praia foi erodida e foram construídos quebra-mares para defender as casas que sobraram do ímpeto do mar. A dinâmica marinha foi comprometida por não existir o deslocamento natural dos sedimentos que vinham do sentido leste-oeste, ou seja, da Praia do Futuro em direção a Praia de Iracema, gerando com isso o avanço do mar.
Dessa forma, a Praia de Iracema, deixou de ser alimentada e situando-se fora da sombra de abrigo do quebra-mar passou a ser violentamente atingida pelas correntes da costa, quando estas retornam sua velocidade original. O objetivo das obras na Praia de Iracema é protegê-la no sentido de que a onda tenha a sua força atenuada antes da arrebentação. 


Destruição das casas da Praia de Iracema no final da década de 1940
Fonte: Arquivo Nirez


A panorâmica da Praia, além da destruição aparente, passou a expor aos seus visitantes uma piscina que se formou em plena beira-mar devido a construção das barreiras de pedras estabelecidas para defender as residências.

Piscina formada com o avanço das marés na Praia
de Iracema – década de 1960
Fonte: Arquivo Nirez


Dessa forma, os moradores viram surgir, mesmo de forma não projetada, um outro lugar para banho que, diante do caos apresentado, serviu como distração para aqueles que tinham por hábito o banho de mar (FURLANI, 2001, p. 4).

A partir de então, o que se observava era um paredão de pedras que se estendia do Mucuripe à Praia de Iracema, resultando em comentários no sentido de que pouca coisa havia se salvado da Praia mais bela do Brasil. “Resta agora aos cearenses, amantes do sol e da liberdade, apelar para o Mucuripe, com a sua enseada mansa como um lago, fazendo dali uma nova Praia de Iracema” (AUGUSTO, 1946b, p.3).


  Postal anos 30

Não foi imediata a saída dos moradores da Praia de Iracema para outros bairros. Havia certa resistência sentimental e porque não dizer um orgulho em relação a área mais “chic” da cidade, ainda surgiam aqueles que queriam morar na tradicional Praia de Iracema. A exemplo disso foi a construção pertencente à família Philomeno Gomes, o edifício São Pedro (assunto para outra postagem) também chamado de “Copacabana Palace” da capital cearense.

Postal de 1946

O fato é que após a voragem do mar e o prenúncio do desenvolvimento, o bairro de Iracema tornou-se pacato e sem maior expressividade. Mesmo assim, ainda contava com a presença de algumas famílias tradicionais que pelo apego sentimental ainda insistiam em residir no Bairro.

Calçadão da Praia de Iracema



Fonte - Elsine Carneiro de Souza e pesquisa de internet