Fortaleza Nobre | Resgatando a Fortaleza antiga : Maracatu Az de Ouro
Fortaleza, uma cidade em TrAnSfOrMaÇãO!!!


Blog sobre essa linda cidade, com suas praias maravilhosas, seu povo acolhedor e seus bairros históricos.
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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Marchinhas - O som dos eternos carnavais


Carnaval da Saudade - Arquivo João Otávio Lobo Neto

Das ingênuas e criativas marchinhas dos anos 30, 40, 50 e 60 às ruidosas músicas da “axé-music”, muitas águas rolaram no Carnaval. A alegria do desfile de de rua e o glamour dos bailes carnavalescos dos clubes elegantes de Fortaleza, nas décadas de 50 e 60, fazem parte apenas da lembrança dos mais nostálgicos. São tempos praticamente esquecidos, que só despertam, na maioria das vezes, o interesse de alguns pesquisadores de nossa história. Os jovens - que hoje se agitam com as “bandas” de barulhentos trios elétricos que ressoam em altos decibéis melodias com letras “sem pé nem cabeça” - nem imaginam como era divertido os carnavais dos confetes e serpentinas, dos pierrots e das colombinas apaixonados.

Lauro Maia e Luiz Assunção foram os pioneiros no cancioneiro carnavalesco do Ceará. Suas canções animaram foliões das escolas e blocos, como o “Cordão das Coca-Colas”, “Prova de Fogo”, “Alfaiates Veteranos”, “Garotos do Frevo”, “Zombando da Lua”, “Escola de Samba Lauro Maia” (depois rebatizada de Escola Luiz Assunção). As músicas de Lauro Maia se consagraram nas vozes de Orlando Silva e dos grupos “4 Azes & 1 Coringa” e “Vocalistas Tropicais” e se tornaram sucessos nacionais.

Carmem Miranda, Lamartine Babo, Emilinha Borba, Virginia Lane, Orlando Silva, Francisco Alves, Ary Barroso, João de Barro, Mário Lago, Dalva de Oliveira, Jackson do Pandeiro, entre outros nomes da MPB que emprestaram seus talentos a famosos “hits” da música carnavalesca: “Daqui Não Saio”, “Alá-Lá-Ô”, “Cidade Maravilhosa”, “As Pastorinhas”, “O Teu Cabelo Não Nega”, “Taí”, “Saca-Rolha”, “Mamãe, Eu Quero”, “Bandeira Branca”, “Pierrot Apaixonado”. Essas marchinhas se eternizaram ao longo dos tempos e continuam até hoje integrando o repertório musical de bailes que sobrevivem ao modismo das micaretas. Exemplo disso é o Carvanal da Saudade, um autêntico revival dos carnavais que ficaram apenas na lembrança...
     Marcos Saudade

Bloco Zombando da Lua - Arquivo Nirez

Qual a importância de Lauro Maia e Luiz Assunção na música cearense e nacional?

     Os dois são importantes, dentro das características de cada um. Lauro Maia, nascido e criado no Benfica, certamente levou mais longe o nome do Ceará porque aproveitou o sucesso de suas composições através de nomes como Orlando Silva, 4 Azes & 1 Coringa, Ciro Monteiro e Vocalistas Tropicais, entre outros. Ao fixar residência no Rio, participou ativamente do Movimento Artístico na década de 1940, sendo inclusive o responsável pelo surgimento do Baião, ao apresentar Luiz Gonzaga a seu cunhado Humberto Teixeira. Luiz Assunção foi um maranhense que se tornou cearense devido a sua grande identificação com a vida da cidade, ele inclusive foi homenageado quando Lauro Maia foi morar no Rio, puseram o nome dele na Escola de Samba Lauro Maia e um grande número de pessoas que conhece a história de nosso carnaval lembra com muita saudade dos grandes desfiles e da música maravilhosa que soava na orquestra da Escola de Samba Luiz Assunção.

     Que contribuição deram ao carnaval cearense?

     Uma contribuição enorme. Antes deles não havia compositores populares criando músicas para as agremiações. Foi Lauro Maia quem iniciou esse ciclo criativo em nossa história carnavalesca. Tanto ele como Luiz Assunção têm até hoje músicas lembradas e que foram compostas para o carnaval de rua, para a Escola de Samba Lauro Maia, depois Luiz Assunção, para a Escola de Samba (hoje Bloco) Prova de Fogo e outros blocos, como O Que Fóe, Galinha, do genial Doutor Bié. O Lauro inclusive foi o primeiro compositor a utilizar o ritmo do nosso Maracatu fora do carnaval, na música Orixá, que tinha versos de Jorge Aires.

     Como foi resgatar a vida e obra de Lauro Maia em livro e disco?

     Sinceramente, este foi um dos projetos mais importantes de toda a minha vida. Primeiro, pela grandiosidade da biografia do Lauro, depois pela beleza e atualidade de sua música e também pela parceria com o pesquisador Miguel Ângelo de Azevedo, o Nirez. Outra coisa importante deste trabalho foi contar com a participação de todos os artistas que interpretaram músicas de Lauro Maia, é realmente um presente ter Teti, Ednardo, Rodger, Lúcio Ricardo, Fagner, Evaldo Gouveia, Falcão, Ayla Maria, Fernando Néri, César Barreto, David Duarte, Aparecida Silvino... É um disco que me agrada sempre, eu escuto cada vez com mais prazer. Tem um time de músicos de primeira e é todo mundo daqui mesmo.

     O que poderia ser feito para resgatar o carnaval de Fortaleza?

      Deveria haver um maior incentivo por parte da Prefeitura de Fortaleza. Afinal estamos falando de uma festa pública, inserida no calendário de eventos da cidade. Para o nosso carnaval de rua se tornar atrativo do ponto de vista do investimento privado, precisa haver um trabalho muito forte junto às agremiações, é preciso chamar os artistas para participar compondo, cantando, tocando, desenhando, somando com o imenso mundo de gente que trabalha há tantos anos pelo carnaval e tem muito amor pelo que faz. O nosso trabalho à frente da Federação de Blocos Carnavalescos tem sido recuperar a dignidade do carnaval de rua, reinseri-lo na rota dos grandes eventos.

Calé Alencar
Maracatu Az de Ouro em 1950 - Arquivo Nirez

Quais foram os mais expressivos compositores cearenses de músicas carnavalescas?

     Os mais expressivos compositores de músicas carnavalescas no Ceará foram Euclides Silva Novo, Mozart Brandão, Caetano Acioly, Luiz Assunção, Paulo Neves, Lauro Maia, Irapuan Lima, Mário Filho, Edigar de Alencar, Waldemar Gomes e Milton Santos.

     Que marchinhas mais famosas marcaram os bailes carnavalescos do passado?

     As marchinhas foram importantes no cenário carnavalesco cearense, mas também os sambas figuraram como sucesso.Tivemos "Tabajara", marcha (Silva Novo - Caetano Acioly) 1930; "Adeus, Praia de Iracema", samba (Luiz Assunção) 1954; "Falta de luz", marcha (Irapuan Lima - Mário Filho) 1955; "Dona Fredegunda", marcha (Mário Filho - Milton Santos) 1958; "Meu bem", samba (J. Guimarães - Milton Santos) 1958; etc.

     Que blocos e escolas brilhavam nos carnavais de rua de Fortaleza do passado?

     Os blocos que brilharam no passado foram "Maracatu Ás de Ouro", "Maracatu Rei de Espadas", "Garotos do Frevo", "Escola de Samba Lauro Maia", "Zombando da Lua", "Escola de Samba Luiz Assunção", "Cordão das Coca-Colas", "Alfaiates Veteranos", "Prova de Fogo", etc.

     Como avalia as festas carnavalescas da atualidade?

     O carnaval teve várias fases, a primeira apesar de ser chamada de carnaval era o ENTRUDO, que reinou até início do século XX, onde se dançava valsas vienenses entre outras coisas; a segunda foi a fase de ouro das marchinhas, dos grandes compositores e intérpretes, das grandes músicas e letras e que durou até meados da década de 60; e a atual fase, dividida entre o espetáculo turístico já superado das escolas de samba do Rio de Janeiro e a música atual de maio-de-ano lançada pela Bahia que descaracterizou o carnaval tornando-o muito mais de fora de época que de próprio período. Já não existem músicas feitas para a festa porque a festa já não existe.

Miguel Ângelo de Azevedo (Nirez)
Escola de Samba Luiz Assunção em 1969
Foto da Exposição Luiz Assunção - Samba de Carnaval

Quais foram as fases marcantes da produção musical feita para o carnaval?

     As décadas de 30,40 e 50. Principalmente a de 30, apropriadamente chamada de “Fase de Ouro”. A partir da cartelização da economia mundial e a consequente dolarização econômica dos países dependentes da América do Norte, como o próprio México (seu vizinho), o Brasil, Argentina, França, Itália, Portugal e os demais que compõem o Terceiro Mundo, o regionalismo foi para o “bebeléu”. Entregar-se de corpo e alma às coisas e costumes da América do Norte passou a ser sinônimo de progresso. O nacionalismo passou a ser pichado como retrógrado, coisa do passado, etc... Tudo aconteceu depois da Segunda Guerra Mundial (1945).

     Quais os mais famosos “hits” carnavalescos?

     Dos anos 30: “Prá Você Gostar de Mim” (Taí), marcha-canção de Joubert de Carvalho, gravada por Carmem Miranda em 1930; “O Teu Cabelo Não Nega”, adaptação de Lamartine Babo, gravada por Castro Barbosa, em 1932; “Linda Morena”, de Lamartine Babo , de 1933, “Cidade Maravilhosa”, de André Filho, gravada por Aurora Miranda (irmã de Carmem Miranda), em 1935; “Pierrot Apaixondo”, de Heitor dos Prazeres e Noel Rosa, 1936; “Mamãe, Eu Quero”, de Jararaca, 1937; “As Pastorinhas”, João de Barro e Noel Rosa, de 1936 e regravada por Sílvio Caldas para o carnaval de 1938; “A Jardineira”, de Benedito Lacerda e de Humberto Porto, gravada por Orlando Silva em 1939. 
Dos anos 40: “Dama das Camélias”, de João de Barro e Alberto Ribeiro, gravado por Francisco Alves em 1940; “Alá-Lá-Ô”, de Antônio Nássara e Haroldo Lobo, gravada por Carlos Galhardo, em 1941; “Aí, Que Saudades da Amélia”, de Ataulfo Alves e Mário Lago, 1942; “Nós, Os Carecas”, de Roberto Roberti e Arlindo Jr. gravada por Anjos dos Inferno, 1942; “Está Chegando a Hora”, de Henricão e Rubens Campos, gravado por Carmem Costa, 1942; “Atire a Primeira Pedra”, de Ataulfo Alves e Mário Lago, gravado por Orlando Silva, em 1944; “Cordão dos Puxa-Sacos”, gravado pelos Anjos do Inferno, em 1946; “A Marcha do Balanceio”, de Lauro Maia e Humberto Teixeira, 1946; “É Com Esse Que Vou”, de Pedro Caetano, gravado por 4 Azes e 1 Coringa, 1948; “Chiquita Bacana”, de João de Barro e Alberto Ribeiro, gravada por Emilinha Borba, 1949; “General da Banda”, de Sátiro de Melo, José Alcides e Tancredo Silva, gravada por Blecaute. 
Dos anos 50: “Daqui não saio”, de Paquito e Romeu Gentil, gravada pelos Vocalistas Tropicais, 1950 -“Serpetina”, de Haroldo Lobo e David Nasser, gravada por Nelson Gonçalves, em 1950;“Tomara que choro”, de Paquito e Romeu Gentil, pelos Vocalistas Tropicais e Emilinha Borba, em 1951; “Lata D’Água”, de Luiz Antonio e Jota Júnior, gravado por Marlene, em 1952; 

Foto da Exposição Luiz Assunção - Samba de Carnaval
Centro Dragão o Mar de Arte e cultura

Sassaricando”, de Luiz Antonio e Zé Mário, gravada por Virginia Lane; “Saca-Rôlha, de Zé da Silda.; “Maria Escandalosa”, de Klecius Caldas e Armando Cavalcanti, 1955; “Vai, Com Jeito Vai”, de João de Barro, gravada por Emilinha Borba, 1957;“Boi da Cara Preta”, de Paquito/Romeu Gentil/Jackson do Pandeiro, 1959.
Dos anos 60: “Me Dá um Dinheiro Aí” , gravada por Moacior Franco, 1960; “Indio Quer Apito”, de Haroldo Lobo e Milton de Oliveira, em 1961;“A Lua é dos Namorados”, gravada por Ângela Maria, 1961.“Cabeleira do Zezé”, de João Roberto Kelly e Roberto Faissal. 1964; “Máscara Negra”, de Hildelbrando Pereira Mattos e Zé Ketti, 1967; “Bandeira Branca”, de Max Nunes e Laércio Alves, gravada por Dalva de Oliveira, 1970.

Christiano Câmara



Crédito: Diário do Nordeste

domingo, 10 de fevereiro de 2013

O Carnaval no centro da cidade


Preparação para o Corso na Avenida Dom Manuel na década de 60. Carlos Juaçaba

A rua é larga e a calçada é pra lá de larga. A gente vê árvore, vê os pássaros... O vento faz a árvore chorar. E algum chuvisco que vinha de atrevido, não nos pegava porque as árvores protegiam. O Carnaval é Duque de Caxias, se mudar o Carnaval daquele trecho acabou.*

No trecho destacado da entrevista, percebemos o modo como o compositor Luiz Assunção liga os festejos carnavalescos ao Centro da cidade de Fortalezaressaltando aquele espaço como locus imprescindível para a permanência ativa do carnaval. A Av. Duque de Caxias, uma das artérias mais importantes do Centro de Fortaleza, serviu como passarela para o Carnaval durante muito tempo. Os desfiles tinham a sua concentração muitas vezes no Passeio Público, percorriam algumas ruas do centro até chegarem nas arquibancadas montadas na Avenida Duque de Caxias. 


A Avenida Duque de Caxias - Arquivo Nirez

O Carnaval se insere nas práticas culturais da cidade como um fenômeno essencialmente urbano. No caso de Fortaleza  foi o  centro da cidade, desde o século XIX, onde se brincou o Carnaval de rua. Ao buscar uma compreensão das festas carnavalescas ocorridas no Ceará, no período, percebo uma série de disputas em torno dos lugares de festejos tradicionais. Por muitas vezes esses locais foram sendo modificados. A partir da década de 1990 os desfiles foram levados para a Domingos Olímpio. Hoje esse é o local oficial dos desfiles de Blocos, Maracatus e Escolas de Samba em Fortaleza.


Foto da Exposição Luiz Assunção - Samba de Carnaval

Desde o início do século XX os modos de habitar, as atividades de comércio e lazer sofrem significativos processos de modernização,  ocorrendo assim um processo cada vez maior de descentralização.  Em diferentes temporalidades, a Prefeitura de Fortaleza interfere,  na realização do carnaval, construindo significados modernizantes na festa. De outro lado os blocos, cordões, maracatus e os próprios foliões tentam se adequar a essas novas configurações das festas. As ruas, novas avenidas, praças e vias, com  as suas  mudanças, exerciam influências sobre a configuração dos folguedos ocorridos no período.


Foto da Exposição Luiz Assunção - Samba de Carnaval

Nas diversas leituras feitas sobre o Carnaval de Fortaleza, percebo que o Centro da Cidade foi o palco principal daquela festa durante muitos anos. Mesmo com o crescimento do Carnaval dos Clubes, que foi recorrente durante as décadas de 30, 40 e 50, as ruas do centro continuaram sendo palco para os festejos. Na cidade, desde o início do século XX os folguedos eram festejado nas ruas e nos clubes. As tensões em torno dos festejos podem ser percebidas nas críticas da imprensa local, colocado em segundo plano pelos jornais, o chamado “carnaval de rua” acontecia no Centro de Fortaleza com uma significativa participação da população.
Ao observarmos o centro de Fortaleza hoje, vemos que em alguns poucos casos ele se enquadra no Calendário Festivo da cidade. Poucas são as manifestações culturais festivas que tem esse espaço da cidade como local principal**.  Diferente do que era observado durante grande parte do século XX quando as ruas centrais, juntamente com suas praças eram os locais onde se festejavam as festas carnavalescas.



Diversos trabalhos de historiadores, sociólogos e antropólogos nos mostram um panorama diferente em relação à existência de um carnaval em Fortaleza ao longo do Século XX. Carlos Henrique Moura Barbosa em seu trabalho de pesquisa mostra uma cidade bastante envolvida com os festejos carnavalescos nas décadas de 1920 e 1930. 
Festas que ocorriam nas ruas e nos clubes da cidade. Em seu trabalho o autor traça um 
perfil dos sujeitos que praticavam os festejos carnavalescos na cidade e destaca o centro 
de Fortaleza, na década de 1920, como um dos principais locais de festejo:

"A Praça do Ferreira, durante os dias de carnaval, era o ponto de concentração dos mais diferentes foliões. Essa praça, nas horas dedicadas a Momo, constituía-se em um espaço onde os brincantes iam para ver e para ser vistos. Ao atentar para esse logradouro, enxergam-se os diferentes carnavais presentes nos diferentes espaços da cidade e, também, as interações que ocorriam na praça entre os mais diferentes sujeitos."(BARBOSA, 2011, p. 46)

Concentração na Praça do Ferreira, todos esperando o Corso carnavalesco.

Durante o todo o século XX ocorrem diversas modificações e transformações nos modos de se brincar o carnaval de Rua em Fortaleza. No período analisado pelo pesquisador Carlos Henrique (A decadência de Momo ou outros carnavais?), e ainda em algumas décadas depois, o período momino,  era festejado nas ruas e praças do centro da cidade. Nesse momento trabalhado pelo autor, já se percebe a presença de uma população menos favorecida no carnaval, o que foi se intensificando durante os as décadas seguintes.
Além do patrimônio material, as ruas são constituídas por um conjunto patrimonial imaterial que com suas passeatas, feiras, festas e carnavais formam  a identidade de uma cidade. E é através do estudo dessas festas que se pode entender o patrimônio cultural como um espaço de memória. Dessa forma é necessária atenção aos modos de diversão coletiva e como os fortalezenses  buscam novas formas de lazer e sociabilidade, organizando assim  o seu carnaval. É necessária também atenção às modificações ocorridas nos locais dos desfiles organizados pela Prefeitura Municipal
Ao fim dos anos 60 o carnaval organizado pela prefeitura estava sendo realizados quase 
todos os anos na Avenida Duque de Caxias, no centro da cidade. 

Praça do Ferreira em 2010: o "Concentra mais não sai" é um dos mais tradicionais blocos de Fortaleza - Arquivo Diário do Nordeste

O carnaval era vivenciado no centro da cidade. O itinerário que os Blocos, Escolas de Samba, Ranchos e Maracatus faziam, tendo a Praça do Ferreira como o seu ponto de saída e de chegada, mostram o centro povoado com os festejos. Essa forma do desfile, com o corso alternando o seu percurso entre ruas largas, ruas estreitas e praças nos dão uma impressão de uma proximidade maior da população, permitindo uma maior interação e contato com as agremiações que desfilavam. 

Folia em frente a Coluna da Hora - 2011
Arquivo Diário do Nordeste

Atentamos agora para um novo momento, principalmente o início da década de 1970, em que o espaço do carnaval fortalezense vem sendo experimentado por diversos sujeitos. Os brincantes dos folguedos fazem parte dos mais diversos extratos sociais, que mesmo sem serem bem vistos ocupavam os espaços, buscando o seu lugar no meio das brincadeiras do carnaval. Em algumas oportunidades os jornais mostravam preocupação com as mudanças e como os foliões iriam ter acesso aos festejos. Como em 1975, quando a Tribuna do Ceará traz o seguinte texto:
"Mais longínqua ainda a época em que as vias públicas eram ornamentadas a capricho..., a Praça do Ferreira era o coração da folia, qual sempre foi o da cidade.  Sem nos atermos a maiores indagações, poderíamos lembrar, inclusive, que o afastamento dos locais dos desfiles, que dantes eram nas ruas centrais, cooperou efetivamente para amortecer o ímpeto de muita gente. 
Dificilmente um habitante de Antônio Bezerra, por exemplo, se entusiasma com a perspectiva de atravessar a cidade lado a lado para ir brincar hoje, na Aguanambi
Dir-se-á que o fato não é relevante. Entretanto não deixa de ter sua importância. Mesmo nestes tempos difíceis, uma coisa é alguém ir assistir a um corso na Senador Pompeu ou na Duque de Caxias e outra é deslocar-se para pontos distantes, obrigado a tomar mais de um ônibus numa cidade precariamente servida como a nossa." (Coluna Coisas do Carnaval, publicada em 12 de fevereiro de 1975).

O Bloco Matou a Pau...ta! é formado por jornalistas cearenses - 2011
Arquivo Diário do Nordeste

Em 1976, tem destaque nos jornais a proibição do Presidente da Federação dos Blocos quanto a saída nas ruas da Charanga do Gumercindo(Notícia publicada em 13 de fevereiro de 1976. De acordo com o jornal essa charanga saía há mais de 10 anos no carnaval de Fortaleza, e tinha por característica não possuir filiação com nenhum bloco, escola de samba ou maracatu)Segundo o jornal o Presidente alegou que “os componentes da charanga costumavam brigar com os demais componentes de blocos carnavalescos, além de criarem confusões com foliões dos chamados bloco dos sujos”

Na foto, a Charanga do Gumercindo fazendo festa no PV. Na foto, integrantes com instrumentos musicais. Bem ao centro, de chapéu e bigode, Gumercindo Gondim recebe o abraço do sorridente Jaime. (Acervo de Elcias Ferreira).

A retirada dessa “Charanga do Gumercindo” dos desfiles, mostra a forma como eram as disputas em  torno dos locais de desfile. Esse espaço destinado às Escolas de Samba, Maracatus, Cordões e Ranchos recebia também os sujos, que não estavam ligados a nenhuma agremiação. Para as autoridades o papel da população era somente o de assistir aos desfiles. A Charanga transitava nesse espaço destinado ao desfile, também sem estar ligada a nenhuma agremiação, convidando a população para a avenida.  Para Silva (2008, p. 29) “a incorporação dos segmentos populares implicou para as elites pensar esses campos culturais, a partir de uma única dimensão”. O modo pensado pelas elites era o de submeter os folguedos populares aos seus valores, buscando a aceitação de um modelo único de carnaval. Para Silva (2008, p. 30) esse processo ocorre em cidades como São Paulo, se completando na década de 1960.

Festa comumente alçada a símbolo nacional, o carnaval desperta as mais variadas lembranças e sentimentos. As memórias sobre a festa carnavalesca são tão múltiplas quanto as suas formas de ser festejada. O Carnaval Brasileiro está longe de ter uma unidade em sua forma e concepção. Nas diversas regiões, estados ou cidades brasileiras encontramos diferentes formas de se festejar o período momino. Assim encontramos nos festejos os mais diversos espectadores, brincantes, foliões e trabalhadores. Atualmente, para muitos moradores a cidade de Fortaleza o que caracteriza o Carnaval são os desfiles de maracatus na Avenida Domingos Olímpio, fazendo parecer que na cidade não há carnaval de rua. 

Maracatu Az de Ouro em desfile de 1950 - Arquivo Nirez

Outro discurso corrente é que o carnaval, em nosso estado, acontece somente nas cidades do interior, principalmente nas praias. Identificamos também a ideia de que Fortaleza, no carnaval, é um ótimo local para o descanso, atraindo assim pessoas que não gostam de muita folia.

O carnaval passa por momentos de nascimentos e renascimentos. Em alguns momentos ele parece mais forte e em outros parece nem existir. O que determina essa ideia que se tem sobre os festejos são as batalhas pela memória que se travam na sociedade. A manipulação desse processo de lembrar e esquecer, será determinante na luta pelo poder sobre a festa.(FERREIRA, 2005, pág 298).

Bloco Zombando da Lua - Arquivo Nirez

Assim, é pertinente interpretar o que significava para os brincantes do carnaval estar participando dessa festa no século XX. Estamos em contato com uma Fortaleza que está se modernizando,  e o centro, aos poucos, vai deixando de ser seu principal local de moradia. O carnaval precisa ser entendido como espaço de lazer e como uma prática de sociabilidade dessa população. Sujeitos que tinham no período momino também uma forma de se mostrar nas ruas e buscar nesses locais sua forma de festejar, articulando temporalidades e espacialidades. Buscando assim o seu lugar no carnaval e na cidade que se modifica. 

*O trecho foi retirado de uma entrevista cedida à Rádio Universitária FM, feita no ano de 1982, para o Programa Coisas Nossas. Nela, Luiz Assunção fala, além de outros assuntos, de suas impressões sobre o carnaval de Fortaleza daquele ano (1982). Luiz Assunção, além de trabalhar em Rádios da Cidade, como a Ceará Rádio Clube, foi compositor de vários sambas, marchas, valsas e baiões. Além disso, tem um papel importante no Carnaval Cearense. Foi componente da Escola de Samba Lauro Maia, que desfilava nos carnavais da Cidade. Em 1945 emprestou o seu nome para a Escola de Samba Lauro Maia, que nesse ano passa a se chamar Luiz Assunção. Com essa denominação a Escola de Samba veio a ser campeã do Carnaval nos anos de 1946 a 1949.




**Blocos de pré-carnaval ainda conseguem levar grande público à Praça do Ferreira, por exemplo o Concentra Mas não sai” que consegue um público de vinte mil pessoas.






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O Carnaval no centro da cidade: Mudanças e Permanências no local da festa em Fortaleza.
Tiago Cavalcante Porto

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Quem passou no carnaval que passou



Passou o carnaval que passou e passou o Bloco das Baianas, rapazes de pernas cabeludas, saias de chitão, batas e turbantes de panos brancos, argolas nas orelhas, colares de contas multicores e maquilagens ridículas.


O cordão das "coca-colas" - Arquivo Nirez

Passou o Carnaval que passou e passou o Cordão das Coca-colas, de rapazes tão animados, risos rasgados nos lábios de batom Naná e semblantes de festa, com bigode e tudo. Eles parodiavam um recente fenômeno local, originado pela Segunda Guerra Mundial.

Estandarte do Maracatu Estrela Brilhante em 1953 - Acervo do blog Ong-Solar

Maracatu Estrela Brilhante em 1953 - Foto Nação Fortaleza


Passou o Carnaval que passou e eu vi passar, com os olhos da saudade, o Maracatu Estrela Brilhante e o Maracatu Rancho de Iracema e o Maracatu Az de Espadas e o Maracatu Az de Ouro e o Maracatu Rei de Paus. E fiquei eletrizado por aquele ritmo soturno e cadenciado marcado pelos ferros dos triângulos e as batidas surdas dos bumbos e tambores. E segui sua rainha, imponente e garbosa, altiva, magnífica e com ela fui, pela Senador Pompeu, pela Duque de Caxias, pela Floriano Peixoto, até a Praça do Ferreira onde, ao pé da Coluna da Hora, o meu sonho acabou: o maracatu esvaiu-se, com seus membros retornando à insignificância de suas próprias e pobres vidas. Sumira o alvo sorriso no rosto negro da rainha,  o ritmo emudeceu, os penachos foram atirados ao chão de mosaicos frios. Era como se uma rara peça de biscuit caísse e se fragmentasse em mil padacinhos.


Impossível acreditar que essa era a rua Senador Pompeu de antigamente. Fartamente arborizada com fícus-benjamins podados em forma de meia esferas, era tranquila e bucólica, com suas moradias conjugadas. Na pavimentação de concreto passava o Carnaval. Quando Fortaleza tinha carnaval.

Como sofri com aquela perda...

Passou o Carnaval que passou e senti o cheiro do "cloretil" que ardeu nos meus olhos de menino curioso, que não quis usar os coloridos "óculos" de cartolina e celofane que os garotos da rua faziam para vender...

Raridade, frasco de lança-perfume Rodouro (Rhodia), provavelmente anos 60.

O lança-perfume era comum nessa época. Podemos visualizar alguns foliões segurando o frasquinho nesse Baile de Carnaval do Ideal Clube. Foto da década de 30/40. Acervo de Marcelo Bonavides de Castro
Passou o Carnaval que passou e o concreto da rua Senador Pompeu ficou coloridinho de confete e as serpentinas tremelicavam sobre o verde dos fícus-benjamins. E passou o Zé Pereira que a ninguém faz mal. E passou um castelo medieval feito de "pedras" de papelão e areia prateada, com suas ameias e torreões e o mulherio da Fascinação, de guarda...

Passou o Carnaval que passou e quem passou foi o Mazine e sua famosa "vedete" de lantejoulas douradas sobre o maiô preto, meias de rendão negro, tentando esconder os músculos das pernas peludas e o grotesco dos óculos "fundo de garrafa", disfarçados pela máscara do Zorro com "chorão" e tudo.
E os sapatões à Carmen Miranda...


Passou o Carnaval que passou e passou Airtinho, na exuberância da sua juventude, "puxando" as Meninas do Barulho, que já passaram...

Prédio do Clube Iracema - Arquivo Assis de Lima
E passaram damas chiques e cavalheiros elegantes para o baile do Clube Iracema, que já passou e gente circunspecta, para o Clube dos Diários, no Palacete Guarany...

Clube dos Diários funcionando no Palácio Guarany
Passou o Carnaval que passou e passou gente do povo, para as batalhas de confete. E passou gente animada no corso de automóveis, na Duque de Caxias...

Vi o Carnaval da Vitória. E vi semblantes iluminados, na euforia do fim da guerra que já passara. E todos sorriam. E todos cantavam. E as serpentinas eram mais coloridas e os confetes eram mais fartos. E moças lindas e rapazes atléticos e garbosos, sentados sobre suas amplas capas, nos capôs dos Packards, Buicks, Fords, Oldsmobiles, Hudsons, Jeeps. E vi sorrisos nos rostos descontraídos e mãos para o alto, ostentando os Rodouro que perfumavam a folia...

Imagem meramente ilustrativa
E passaram pierrôs e passaram colombinas. E, espreitando na esquina da Broadway, arlequins choravam. Oh, jardineira, por que estás tão triste? Por que o sol estava quente e queimou a nossa cara?...


E passou um homem bigodudo, vestido de mulher, com os peitos de quengas. E passou um grupo de papangus. E passou Zé Tatá (foto ao lado), com sua baiana paquidérmica. E passou Beatriz, com sua gigantesca princesa do maracatu. E passou o Rei Momo, primeiro e único, com sua Rainha do Carnaval, que era moça de família, coisa que também já passou. E a sala do trono era um jipe Land Rover, que não passa mais...

Passou o Carnaval que passou e passou a mais exótica escola de samba do mundo, a Luiz Assunção, que estava mais para banda marcial do que para G.R.E.S. Mas, ninguém reclamava, pois o padrão Globo de qualidade ainda não existia, nem o gênio Joãozinho Trinta havia conseguido decifrar as "mensagens fenianas" da Pedra da Gávea. Por isso, no palanque da PRE-9, João Ramos (que também já passou) pedia aplausos calorosos para a Escola de Samba Luiz Assunção, com seu impecável "pelotão" de músicos ( a escola compreendia apenas os músicos) vestidos à militar, com dólmãs e quepes. Imponentes e garbosos, pareciam os autênticos generais da banda, os instrumentos de sopro refletindo o sol daquelas tardes de fevereiro: "Adeus Praia de Iracema/Praia dos Amores que o mar carregou..."

Arte sobre foto do sambista Luiz Assunção, pertencente ao arquivo Nirez 
Arte: Felipe Goes
Passou o Carnaval que passou e passou a Turma do Camarão e passou a Turma Bamba e passaram os Garotos do Frevo. Quem passou, também, foi o Prova de Fogo, que ainda teima em passar, imutável, com suas fantasias de cetim barato salpicadas de lantejoulas, e os chapéus que parecem penicos de alumínio Ironte. E a marcação mais cafuçu do mundo...


A turma do Camarão - Arquivo Nirez

Prova de Fogo - Arquivo Nirez
Passou o Carnaval que passou e passou a raia miúda e passou o canelau e passou o arrabalde, com seus estandartes de pobreza, saudando a "imprensa falada e escrita" e pedindo passagem. Pois eram eles quem melhor sabia passar no Carnaval...

Passou o Carnaval que passou e passou Benoit, a Rainha das Rainhas , disputado por todos os maracatus, mas, com passe exclusivo do Az de Espadas, que já passaram...

Passou o Carnaval que passou e passou a descontração dos rapazes do Cordão das Cola-Colas e as animadas baianas e passaram as "elegantes" Marietas, que não mais passarão. E passou o Zé Tatá e passou Beatriz que não tornarão a passar...

Passou o Carnaval que passou e passou Airtinho, tão jovial, tão belo, com seu sorriso de criança. Que nunca mais voltará a passar...

Porque os clarins da folia tocaram silêncio...   


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Livro Royal Briar - Marciano Lopes
Foto do Zé Tatá - Arquivo Totonho Laprovitera

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