Fortaleza Nobre | Resgatando a Fortaleza antiga
Fortaleza, uma cidade em TrAnSfOrMaÇãO!!!


Blog sobre essa linda cidade, com suas praias maravilhosas, seu povo acolhedor e seus bairros históricos.


quinta-feira, 4 de julho de 2019

Fortaleza - Uma cidade colorida (Parte II)

Fortaleza - Junho de 2002

Conhecer o passado não é só estudá-lo , é conviver com ele. Passear em suas ruas, usufruir de seus prédios, aprender a ler sua história, que a cidade deixa escrita em cada canto, em cada pedra, em cada fachada e janela, em cada espaço.

Em Fortaleza o ProjetoCores da Cidade” é uma parceria da Fundação Roberto Marinho e da empresa Tintas Ypiranga, através da Secretaria da Cultura e Desporto do Ceará. Mas seu principal parceiro é a comunidade local. O projeto tem como objetivos beneficiar comerciantes, moradores e visitantes. Todos os moradores e comerciantes que tem suas casas na área do projeto podem participar. Os interessados recebem o material de pintura necessário e contam com a orientação técnica de especialistas em Restauração de Monumentos do escritório de arquitetura “Oficina de Projetos” para as obras realizadas nas fachadas.

Fundamentalmente a proposta é recuperar elementos de valor e de forma, tal que se revalorizem e retomem sua importância dentro do conjunto, recuperando o ambiente  urbano, de forma harmoniosa e contemporânea.

Imóveis participantes do projeto na época
Fortaleza : Um pouco de sua história

Quando Bernardo Manuel de Vasconcelos, o primeiro Governador da Capitania do Ceará, chegou à Vila de Fortaleza de Nossa Senhora de Assunção, em 1799, ficou decepcionado. A Vila, fundada em 13 de Abril de 1726, não passava de “um montão de areia, apresentando do lado pequenas casas térreas, incluindo a muito velha e arruinada casa dos Governadores”.

Cartão postal colorizado à mão, do início do século XX. Ancoradouro da Prainha. Acervo de Carlos Augusto Rocha Cruz
O viajante inglês Henry Koster visitou Fortaleza em 1810 e deu um diagnóstico mais preciso. Na opinião dele, seria difícil fazer nascer uma cidade sobre terreno tão arenoso. Além disso, faltava um cais. Apesar do pessimismo do inglês, o ancoradouro da Prainha ficou pronto e contrariando suas previsões, funcionava. Funcionava bem. Foi graças a ele que Fortaleza deixou de ser apenas um areal cheio de casas e iniciou suas atividades econômicas. O reconhecimento oficial do esforço da população local não custou a chegar. Em 17 de Março de 1823, por ordem imperial, a Vila de Fortaleza de Nossa Senhora de Assunção foi elevada à categoria de cidade com o nome de Cidade de Fortaleza de Nova Bragança e planta desenhada por Silva Paulet, em 1818.

Trabalhadores descarregando algodão no cais da Praia de Iracema em 1935. Foto: Robert S. Platt
Flatcar carregado com fardos de algodão no cais de Fortaleza em 1935. Foto: Robert S. Platt

Descarregamento de fardos de algodão no Porto em 1935.
Fotógrafo: Robert S. Platt
Alguns anos depois de virar cidade, o lugar foi calçado com pedras. Agora, os carros de boi, carregados de algodão, já podiam ir e vir. Era o começo da atividade mercantil que possibilitaria o início do desenvolvimento da cidade. 
Um cais, o calçamento de pedras, o algodão. Parece pouco. Mas com base nisso, no fim do século XIX Fortaleza já mantinha relações comerciais com a Europa. O interesse internacional despertado pelo algodão cearense chamou a atenção do resto do Brasil e logo chegaram os navios a vapor, estimulando os negócios de importação e exportação.

Carregamento de fardos de algodão até o flatcar no porto em 1935. Foto: Robert S. Platt
Porto de Fortaleza em 1935. Fotógrafo Robert S. Platt
Içamento de fardos de algodão via guindaste
no então porto de Fortaleza em 1935.
Fotógrafo: Robert S. Platt
O comércio local começou a se desenvolver. A cidade cresceu, a população aumentou, surgiram os primeiros prédios públicos como a Santa Casa de Misericórdia, a Cadeia Publica e a Assembléia Provincial. Fortaleza não parecia mais um areal. Era preciso um porto maior, cuja construção foi iniciada em 1923.

O surgimento do Porto do Mucuripe transferiu o embarque e desembarque de mercadorias e tirou a razão original de ser da região da Prainha com seus armazéns e edificações. Com o tempo, os prédios do local foram ocupados por escritórios, transportadoras, bares, prostíbulos, ateliês, restaurantes... Mas suas construções mais antigas, como a Casa Boris, a antiga Alfândega ( hoje Caixa Cultural) guardaram aquela historia de 150 anos atrás, do tempo em que Fortaleza começou a deixar de ser um areal desprezado e virou uma cidade de verdade. 


Içamento de fardos de algodão via guindaste no então porto de Fortaleza em 1935.
Fotógrafo: Robert S. Platt
Descarregamento de fardos de algodão em frente a Alfândega na rua Pessoa Anta em 1935. Foto: Robert S. Platt
Pilha de fardos de algodão em 1935. Foto: Robert S. Platt

Fardos de algodão na rua Dragão do Mar, esquina com a Almirante Jaceguai em Fortaleza 1935. Foto: Robert S. Platt

“A luz e a cor, definidores do espaço físico, são como uma musica que acompanha a cidade”.

Critérios de atuação - Avaliação do escritório de arquitetura Oficina de Projetos”:

Preservar o acervo arquitetônico de uma cidade é resgatar sua memória e melhorar a qualidade de vida de seus habitantes.
Restauração é ato crítico. Nenhuma proposta de restauração é neutra. Cabe-nos portanto a responsabilidade de estabelecer um conjunto de critérios que orientem as intervenções, assegurando ao monumento a sua autenticidade, a restituição da sua capacidade evocativa, o seu passado presente.

Dentro do processo de renovação urbana que seguiremos, levamos em conta dois aspectos: a RESTAURAÇÃO - Recuperação de elementos de valor de um imóvel, conhecimento de seus valores arquitetônicos e urbanísticos e REABILITAÇÃO - voltar a fazer aproveitável as estruturas mortas tanto dos bens imóveis, como áreas urbanas.




A área escolhida, tombada a nível estadual, esta limitada entre as Avenidas Pessoa Anta, Almirante Jaceguai, José Avelino e a famosa Rua Boris, no entorno do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, com um total de 56 imóveis entre sobrados e armazéns típicos de regiões portarias.

O conjunto arquitetônico que foi o objeto deste projeto foi um importante sítio de expansão da cidade e que deixou retratado o desenvolvimento econômico de Fortaleza. Hoje dentro deste conjunto foi construído o Centro Cultural Dragão do Mar de Arte e Cultura. O complexo arquitetônico do Centro Cultural tem uma área total de aproximadamente 30.000 m², compostos por Memorial da Cultura Cearense, Museu de Arte do Ceará, Anfiteatro, Planetário, Cinemas para 200 pessoas e Cine-Teatro para 250 pessoas, Salas de aulas do Instituto Dragão do Mar de Arte e Cultura e grandes espaços multifuncionais. O mais significativo é a interação urbana entre dois pontos da cidade através dos espaços do Centro sempre acompanhados por um contexto histórico. 


Pela primeira vez o Projeto Cores da Cidade se enfrenta a um projeto destas caraterísticas onde se contrapõem o antigo com um projeto novo, o Centro Dragão do Mar, com sua nova escala arquitetônica e intervenções a nível urbano, já que foram apropriadas, modificadas e alargadas ruas e praça integrando-as a outras, obrigando a um novo desenho urbano, onde o conjunto antigo mudou totalmente de contexto. 
O componente cromático do Centro Dragão do Mar foi levado em conta como premissa para nossa proposta (Branco nos grandes panos, cinza como detalhes de revestimento de mármores e vermelho nos componentes metálicos). O material utilizado como pavimento também influiu cromaticamente (pedra portuguesa em grandes áreas pavimentadas branca, com algumas áreas em negro).

Dentro do conjunto se definem claramente varias épocas de construção, estilos arquitetônicos e por tanto diferentes níveis de riqueza arquitetônica, sendo o conjunto em sua totalidade de grande valor.


O primeiro passo dentro da metodologia a ser aplicada foi conhecer a história do lugar, suas transformações, evolução arquitetônica, seu contexto e o repertório da cidade onde foi gerado este conjunto. Iniciou-se o trabalho com a elaboração de um inventário arquitetônico e de deterioro para cada imóvel com preenchimento de fichas catalográficas para criar um banco de dados. Nestas fichas, se anotaram as caraterísticas morfológicas de cada edifício, dos seus elementos compositivos (sacadas, fechamentos, postigos, ornamentos) e se executaram prospecções em alguns pontos pré-determinados para garantir as hipóteses sobre algumas das alterações. Foram executados prospecções estratigráficas que nos revelaram as cores originais, que nortearam de forma inequívoca o nosso projeto.

Inicialmente procuramos determinar as regiões mais adequadas à prospecção onde a fotografia foi de grande ajuda. Além do reconhecimento das sucessivas camadas de pintura que o prédio recebeu ao longo dos anos, nosso principal objetivo foi reconhecer as cores mais antigas e por conseqüência a cor original primária, onde foram encontradas as informação sobre a pigmentação empregada, dado que a intensidade era impossível determinar visto que tanto a base como os pigmentos empregados nas tintas eram de inferior qualidade, pois a cor, com o nosso sol, só é original no momento da sua aplicação. Foram utilizadas como método de identificação das camadas de pintura, as técnicas de decape, remoção com solvente e remoção mecânica através de bisturi.

Um dos importantes aspectos que o projeto teve em conta foi a reutilização de materiais e técnicas tradicionais na recomposição de elementos perdidos, e no uso de rebocos com cal.
O objetivo do ato de restaurar, entendido como revitalização é assegurar além da integridade física, a restituição dos seus valores simbólicos e de uma leitura integral do conjunto.


A pintura vem a ser elemento de destaque de um conjunto arquitetônico, daí a importância das cores para personalizar cada imóvel, realçar valores e as caraterísticas formais de cada elemento arquitetônico e de cada espaço urbano. Segundo correspondia, a cor pode utilizar-se para unificar ou individualizar, neutralizar ou acentuar, hierarquizar, subordinar, reforçar a volumetria do detalhe, desvirtuar ou apagar.

Os critérios utilizados para a seleção da gama cromática tendo em conta as premissas expostas foram os seguintes:

O fator estilístico: O estilo arquitetônico se relaciona diretamente com a época de construção e tinha seus códigos. Em nosso caso, edificações erigida a finais do Século XIX e princípios do Século XX: paredes com cores neutros, sendo os detalhes ou relevos destacados. Esquadrias, portas e janelas, cores afins mais escuros. As sacadas foram destacadas e os elementos de serralharia, grades, e portões de ferro em preto verdoso para apagar o reflexo. 

O fator de pesquisa arqueológica: Confirmando o fator estilístico, e elementos de interesse. 

O fator de uso: Para o que foi construído o imóvel. Determinando também o uso de cores.

O contexto urbano atual: Determinando premissas contemporâneas. Alem dos fatores técnicos, estéticos e históricos, outro fator importante que determinou em muitos casos a escolha das cores de cada imóvel foi o desejo e a opinião de cada proprietário, ou inquilino.
Tendo em conta todos estes elementos decidimos que deveríamos optar por cores fortes, jogando com a possibilidade que nos permite a ampla gama das tintas Ypiranga e manter uma coerência cromática, mas sem purismo mal entendido, já que as cidades históricas, incluindo-se o centro de Fortaleza, foram dotadas de uma sutil e vibrante policromia. Tratamos de criar uma gramática da cor, para dar esplendor a sua linguajem. 


Como aspectos gerais respeitamos o uso dos sanefas escuras, o remarque de portas e janelas com tons mais claros, também decidimos valorizar na Rua Boris cada edificação individualmente. Os conjuntos da Rua Dragão do Mar seriam reforçados todos seus elementos componentes nos aproximando o mais possível das cores originais. Os elementos de carpintaria originais foram restaurados. Na Rua José Avelino decidimos que as cores rememorassem o mais possível ao origem de edificações populares que caraterizam esta rua. Na Av. Almirante Jaceguai entre a Rua Boris e a Rua Almirante Tamandaré, onde funcionava antiga Fábrica Myriam, foi restaurada toda a fachada com seus elementos componentes investigados historicamente. Somente tomamos a liberdade de pintar cada modulo da fachada, individualizando cada divisão atual dos espaços interiores. E como moldura mais distante do Edifício do Centro Dragão do Mar.


Leia aqui a PARTE I

Fonte: Ofipro

segunda-feira, 1 de julho de 2019

Boate Mystical - Rua José Avelino

Fim dos anos 90, começo de um novo milênio, e a capital cearense ganhava na época uma boate irreverente, com shows de rock, teatro de sombras, apresentações de modelos com cobras vivas, festas inesquecíveis como “Baile de Máscaras” e “Culto a Baco”…

Localizada na Rua José Avelino, 62, próximo ao Dragão do Mar, a excêntrica Boate Mystical (filial da Mystical de Belém do Pará¹) envolvia misticismo e muita música tecno. As festas temáticas tinham bebidas exóticas e atrações cheias de sensualidade. 

A antiga propaganda da boate na televisão era bastante conhecida dos fortalezenses, citando o famoso "Esperma do Morcego", uma bebida vendida na boate. 
O ambiente da Mystical era marcado por sua decoração, toda ela criada pelo proprietário, André Luís Portela Darcier Lobato, o “Kaveira”, e sua equipe, onde o foco da atenção era a dualidade existente entre as forças do universo, com destaque para o bem e o mal.

A boate era dividida em dois ambientes térreos: nas paredes e teto do "Céu" haviam desenhos fluorescentes de figuras e símbolos "de cima"; no "Inferno", os desenhos pareciam ter saído da visita de Dante Alighieri ao inferno, relatada em sua obra "A Divina Comédia".

Acervo Igor Studart
Fachada na época da boate e em 2016
Na verdade, tudo não passava de uma grande brincadeira, muito bem detalhada no site oficial da boate, hoje fora do ar: 

"...Buscamos representar os tormentos atrozes do inferno, que destinam-se a causar terríveis sofrimentos, e transformamos esse mundo de trevas na melhor casa de diversões de Fortaleza, onde imperam a alegria e o sadio entretenimento.
Atrás da Bar Girl que atende "no céu", de vez em quando a luz acende e pode-se ver através da "vitrine" um banheiro com privada e tudo. E, nele, uma mulher toma banho só de calcinha, touca e máscara cobrindo-lhe todo o rosto. Junta gente pra ver. Eles acabam de descobrir o "Banheiro do Voyeur".



Propaganda que passava na TV União

Ontem e hoje
As Jaulas eram outro destaque do ambiente da Mystical. Suspensas no espaço, elas eram os locais preferidos das pessoas que gostavam de se exibir enquanto dançavam.
Todos os fins de semana, no ambiente da Boate Mystical, o bem triunfava sobre o mal, na forma de alegria e descontração. 
A Casa era temática, ímpar, cujo tema principal eram os ícones do misticismo. Era toda ornamentada por pinturas e esculturas de deuses, semi-deuses e divindades de diversos cultos e religiões.

Além dos dois grandes salões: Céu e Inferno, já citados, a boate agregava ainda uma interessante variedade de ambientes como o Limbo das Pegações, um corredor escuro, com as paredes cravejadas de buracos, onde os frequentadores podiam exercitar o sentido do tato. Na parte superior, ficava localizado o Cinema, onde aconteciam sessões ininterrupta de filmes bizarros, capazes de deixar o cineasta Pedro Almodovar de queixo caído.


Para que os frequentadores pudessem relaxar após desfrutarem da pista de dança, havia a "Galáxia", com duas grandes camas, alguns sofás e os tubos do voyeur, através dos quais podiam ser observados casais namorando.
A Capela era o ambiente em que ficava o confessionário, destinado a receber as confissões dos pecados dos frequentadores, onde costumeiramente aparecia o Reverendo Kaveira, para ouvir as confissões e conceder as absolvições.
A Masmorra era uma câmara medieval de tortura, equipada com os mais terríveis instrumentos da Idade das Trevas, muito apreciada pelos admiradores do Marquês de Sade².


O Sarcófago possuía um caixão de casal, magnificamente decorado em tons de lilás, que adicionava mais um ingrediente sinistro ao ambiente mórbido da boite.
O ambiente do Necrotério era dominado por uma legítima mesa de autópsias, por onde já passaram mais de cem mil "cadáveres". Para a cena ficar o mais real possível, nem a indispensável torneirinha para lavar os "corpos", foi esquecida.

Além da Capela e do Consultório Exotérico, destacava-se o Palco, onde aconteciam as surpreendentes performances dos talentosos atores da casa.


A Mystical foi um projeto de entretenimento noturno de André Dacier Lobato, o Kaveira, que aliava música, teatro, cinema e fetiche. Criada originalmente em Belém no início da década de 90, a boate ficou por vários anos promovendo uma revolução comportamental, foi palco de várias festas temáticas e até hoje é lembrada pelos comerciais de TV que viraram “jargão”

Logo na entrada um minotauro recebia os convidados que entravam na casa e passavam a conhecer a capela, o sarcófago, a masmorra, o necrotério, o limbo das pegações, o corredor lambix e consultório espiritual. "O local era um mergulho no imaginário, nas fantasias dos frequentadores, que realizavam seus maiores desejos e presenciavam experiências únicas”, relembra Kaveira. Quem entrava na Boate Mystical pela primeira vez sentia o baque. 



Necrotério
No site oficial da boate, era possível ter uma ideia do que  esperar ao visitar a casa:

"Primeiro a gente fica estático, surpreso, vacilante na escuridão quase absoluta. A mente tenta reagir e sai em busca de um referencial para um indispensável passeio pela casa. O ambiente da Boate Mystical é escuro e chocante. Ao som vibrante do Techno, o laser atravessa a névoa que se espalha por toda a casa. Nas paredes e no teto, pinturas de figuras mitológicas, de uma nitidez impressionante. Entre elas, Terseu espia os pagãos que se divertem na pista de dança. Em uma vida passada, Kaveira foi Dante, ou jamais teria conseguido idealizar, construir e decorar a Mystical. Ninguém conseguiria recriar com tanta fidelidade os círculos do inferno de "A Divina Comédia", senão a reencarnação viva do viajante das trevas. Numa das escadas que levam ao andar superior, Anubis orienta os frequentadores que buscam o repouso no sarcófago. Tendo Cérbero a seus pés, Zeus, o deus maior de todos os gregos, abençoa as noites pagãs da Boate Mystical."


Em 2005, a boate estreou o espetáculo Lucíferos - Sagrado ou Profano?, com a Companhia de Teatro Raízes
O trabalho - uma performance teatral coreográfica - girava em torno de três personagens distintos: Lucíferus, Cristo e Lujoma, uma espécie de profeta maluco, como fazia questão de lembrar o diretor e co-autor do trabalho, John White. Além disso, a animação da noite ficou por conta do Dj Mascarado. 




Os anfitriões da Mystical eram Élida Braz e André Lobato "Kaveira", que na época eram namorados e estavam juntos há dez anos. André é um experiente empresário da noite: é ator e diretor, além de ser Bacharel em Direito e formado em Geografia pela Universidade Federal do Pará. Inteligente e dono de invejável currículo, Kaveira descobriu que não podia passar o resto da vida numa sala de aulas ou nas barras de algum tribunal. Sua paixão pela arte o conquistou para a noite, onde brilhou como ator, e onde era o centro das atenções, no papel de anfitrião da Boate Mystical. 


Apoiado numa plataforma liberada, André "Kaveira" candidatou-se e foi eleito Vereador pelo município de Belém do Pará. Cumpriu integralmente o mandato de janeiro de 1996 a dezembro de 2000 quando, decepcionado, abandonou a política com a frase que bem definiu as câmaras municipais de todo esse Brasil: "Esta casa é a quintessência do inferno, onde se realizam negociatas capazes de surpreender o mais velhaco dos demônios". 

Élida Braz

Se o Kaveira era o cérebro, Élida Braz era o coração da Mystical. Sensível e romântica, ela é escritora e poetiza, autora de versos capazes de tocar profundamente corações e mentes. Tendo já exposto poemas e contos em vários redutos da cultura nacional de norte a sul do país. Atriz, ela já pisou com sucesso nos melhores palcos da vida, que vão da descontraída Mystical, ao Teatro da Paz, em Belém do Pará, um dos templos mais sagrados da dramaturgia brasileira. No cinema, Élida integrou o movimento "Cinema Novo Paraense", estrelando os filmes "Lendas Amazônicas", "Cobra Grande" (convidado para o Festival de Cinema de Vitória) e "O Boto" (que representou o canal GNT no New York Film Festival), exibidos nas telonas do Brasil, Inglaterra e França
Na Mystical, Élida brindava os frequentadores como atriz principal dos pocket shows que tornavam o palco da Boate o centro das atenções das noites cearenses. 

Programação de uma semana na Mystical
Matéria antiga do Diário do Nordeste sobre o
fechamento da boate em uma operação policial.
Após 5 anos, a boate itinerante Mystical deixava a capital alencarina...

Em março de 2010, Kaveira e Élida retornaram à cidade para rever amigos e conferir novos projetos na terra do sol. Muito se especulou se seria o retorno da controvertida casa noturna à capital cearense. 

“Não sei se será agora, mas temos um imenso carinho pelos cinco anos que estivemos presentes no Ceará, e pretendemos voltar sempre”, afirmou na época André Lobato, o Kaveira, que mantém a Mystical em Belém do Pará, somente para festas fechadas.

Em 27 de junho de 2014, de acordo com o Blog Cine Negócios, o filho do ex-vereador e promotor de eventos, André Lobato Filho, pedia ajuda ao Ministério das Relações Exteriores (MRE) para localizar o pai e sua mulher, Élida Braz, que teriam desaparecido na fronteira entre os EUA e o México. De acordo com o filho, Kaveira e Élida gravavam um documentário quando teriam sido assaltados. O Itamaraty dizia ter sido informado do desaparecimento pelo consulado-geral do Brasil na Cidade do México, e que havia entrado em contato com a polícia para localizar o casal. 

Após quase uma semana, sem dar notícias aos familiares e amigos, Élida Braz e o ex- vereador utilizaram uma conta em uma rede social para informar o que teria acontecido com eles na fronteira dos Estados Unidos com o México. 
Segundo postagem no Facebook, Élida contou, sem detalhes, que o casal estava bem de saúde, e que ambos foram vítimas de uma emboscada por parte de coiotes, quadrilha que atua na região da fronteira com o México com os Estados Unidos. Na postagem, Élida conta que, depois do ocorrido, o casal estaria relaxando na Nicarágua.

Foto: Magno Torres
Foto: Magno Torres
Foto: Magno Torres
Com o fechamento da Boate Mystical, André Kaveira virou cineasta e atualmente mora no Rio de Janeiro. Em maio de 2019, André, agora separado de Élida, esteve novamente na Terra do Sol, desta vez para lançar uma nova Dj e relembrar os tempos da sua boate na festa Uma Noite Mystical, que aconteceu dia 1º de junho, na recém-inaugurada Boate Club Viva, na Praia de Iracema (Rua Dragão do Mar 198 - ao lado do Órbita).



¹A Mystical Belém


A Boate Mystical foi fundada em 1999, em Belém do Pará, em um galpão antigo da zona portuária. Tinha como diferencial as apresentações teatrais que aconteciam em um grande palco que ficava no final da boate. No ano 2000, a boate é consumida pelo fogo.

O incêndio da Mystical, foi o mais grave registrado na cidade em muitos anos e resultou numa vítima fatal. André “Kaveira” Lobato, proprietário da boate, lembra que o incêndio se deveu a uma performance feita pelo partner de um artista que se apresentava na ocasião. “Sem nos comunicarem, amarraram palha de aço em fios de algodão, acenderam e começaram a rodar com a tentativa desastrada de causar um efeito pirotécnico. Os pedaços em chamas começaram a se soltar e grudar nas panadas, cortinas das coxias, cenários e no teto, que tinha o isolamento acústico feito todo com espumas, único método acústico conhecido na época”.
Seguranças tentaram apagar o fogo com extintores em vão. “No momento, haviam milhares de pessoas na boate. Orientamos os presentes a saírem imediatamente do local. Todas as saídas de emergência foram abertas e a evacuação foi feita. Em três minutos, a boate estava vazia”, lembra.
Mas um homem que estava de passagem por Belém a trabalho perdeu sua vida carbonizado. “Entramos na boate várias vezes para ver se não tinha mais ninguém, mas ele não foi localizado, pois estava dormindo bêbado atrás de um sofá no mezanino”, rememora o empresário. Kaveira respondeu judicialmente durante dez anos um processo de homicídio culposo e foi absolvido no final. 


²Marquês de Sade, o homem que deu origem à palavra “sadismo” e passou um terço de sua vida preso. Dizem que suas experiências sexuais eram um tanto incomuns.




Leia também:




Fontes: Antigo Site da boate (Hoje Fora do ar), Conceituado.com/ Diário do Pará/ Diário do Nordeste/Divirta-Ce 

domingo, 30 de junho de 2019

Fortaleza - Uma cidade colorida

Rua Almirante Jaceguai antes da intervenção
do Programa Cores da Cidade. Fonte Ofipro
O projeto Cores da Cidade em Fortaleza foi uma parceria entre o Governo do Estado, Tintas Ypiranga e Fundação Roberto Marinho e tinha como objetivo mobilizar e conscientizar a população para a preservação dos conjuntos urbanísticos das  principais cidades brasileiras e resgatar seu passado histórico
O programa foi implantado em áreas centrais de outras capitais como Curitiba, Recife e Rio de Janeiro


 Imóveis selecionados pelo Programa Cores da Cidade
No caso de Fortaleza, a Secretaria de Cultura do Estado indicou a intervenção em uma área que abrangia quase todo centro histórico. Porém, a Fundação Roberto Marinho decidiu por priorizar os galpões da Praia de Iracema de maneira a aproveitar o impacto do Centro Dragão do Mar sobre a áreaA área escolhida era limitada pelas  Avenidas Pessoa Anta, Almirante Jaceguai, José Avelino e a famosa Rua Boris, no entorno do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura


Edifícios ao lado do Dragão do Mar, antes e após a reforma pelo Cores da Cidade.
Fotos: Fausto Nilo (1995)/Sabrina Studart (2003)
Após a reforma
 Um total de 56 imóveis entre sobrados e armazéns típicos de regiões portuárias participaram da primeira etapa do programa. É necessário fazer uma crítica à seleção dos imóveis para o Programa Cores da Cidade por ter sido ignorado edifícios de grande valor histórico, arquitetônico e cultural - localizados a poucos metros do Centro Dragão do Mar – como a Igreja e Seminário da Prainha, Teatro São José etc. Apesar do arquiteto Francisco Veloso assumir este problema como um descuido da equipe do DEPAC, é condenável ignorar a entrada dos edifícios no programa.
Uma segunda etapa, entretanto, contemplaria as demais edificações também classificadas como relevantes, como a Igreja e o Seminário da Prainha e o teatro São José em um outro programa do Governo do Estado – o Projeto Fortaleza Histórica – que contemplaria quase todo o centro histórico. 

Além das fachadas pintadas, os prédios também tiveram seus interiores modificados. Os móveis foram transformados em bares e restaurantes. Foto Sabrina Studart (2003)

Rua Dragão do Mar
Os patrocinadores do projeto ficariam responsáveis por fornecer o material e a orientação técnica para a obra, enquanto os donos dos imóveis deveriam financiar a mão-de-obra para a execução. O escritório de arquitetura “Oficina de Projetos” foi selecionado pela Secretaria de Cultura para propor as reformas e acompanhar as obras nos imóveis. 


O arquiteto Francisco Veloso, chefe do DEPAC na época do projeto esclarece:

“As pessoas ficam perguntando assim: ‘mas essas cores eram originais?’ Não, foram feitas prospecções nessas edificações, foram detectadas suas cores originais. Originalmente, nós sabemos a limitação cromática era muito grande, você tinha 3 ou 4 cores e pronto. Hoje você tem uma infinidade de cores. Por outro lado, um dos grandes parceiros, talvez o maior parceiro deste projeto foi a AkzoNobel que é uma multinacional da Tintas Ypiranga. Nada mais justo que ela fizesse daqui um grande show-room do seu produto. Competiu aos arquitetos daqui buscar uma proposta cromática que destacasse essas edificações, que valorizasse seus elementos arquitetônicos e fosse harmonioso. Quanto a ser a cor original, ai, a gente entra nesta analogia. Amanhã ou depois as edificações podem ser pintadas com outras cores”.

Antes e depois do Programa Cores da Cidade.
Foto 1: Linda Gondim (1998)
Foto 2: Sabrina Studart (2002)
Sobre o encaminhamento do projeto em Fortaleza, os arquitetos do “Oficina de Projetos” afirmam:


“O primeiro passo dentro da metodologia a ser aplicada foi conhecer a história do lugar, suas transformações, evolução arquitetônica, seu contexto e o repertório da cidade onde foi gerado este conjunto. Iniciou-se o trabalho com a elaboração de um inventário arquitetônico e de deterioro para cada imóvel com preenchimento de fichas catalográficas para criar um banco de dados. Nestas fichas, se anotaram as caraterísticas morfológicas de cada edifício, dos seus elementos compositivos e se executaram prospecções em alguns pontos pré-determinados para garantir as hipóteses sobre algumas das alterações. Foram executados prospecções estratigráficas que nos revelaram as cores originais, que nortearam de forma inequívoca o nosso projeto”.

A partir destas informações, uma série de desenhos foi apresentada aos proprietários que se encarregaram de executá-las. Sobre a escolha das cores nas fachadas dos edifícios, o escritório ainda afirma que seus critérios levaram em conta quatro aspectos: fator estilístico (códigos de construção de cada época, lugar ou estilo), pesquisa arqueológica, uso e o contexto urbano atual. Mas revelam:


Galpões vizinhos ao Dragão do Mar.
Antes e depois da reforma.
 Ao fundo, edifício Casa Boris.
Fotos: Fausto Nilo (1995)/Sabrina Studart (2002)

“Além dos fatores técnicos, estéticos e históricos, outro fator importante que determinou em muitos casos a escolha das cores de cada imóvel foi o desejo e a opinião de cada proprietário, ou inquilino. Tendo em conta todos estes elementos decidimos que deveríamos optar por cores fortes,  jogando com a possibilidade que nos permite a ampla gama das tintas Ypiranga e manter uma coerência cromática, mas sem purismo mal entendido, já que as cidades históricas, incluindo-se o centro de Fortaleza, foram dotadas de uma sutil e vibrante policromia. Tratamos de criar uma gramática da cor, para dar esplendor a sua linguagem.

 A partir de fotografias antigas, os arquitetos propuseram a recomposição de elementos decorativos das fachadas com desenhos e utilizaram reboco com cal para refazê-los.  As práticas de intervenção utilizadas nesta área da Praia de Iracema são polêmicas e podem levantar algumas discussões. Os arquitetos assumiram que se deveria optar pelas possibilidades oferecidas pelas técnicas modernas, quando optaram pela escolha das cores, mas escolheram recompor os elementos arquitetônicos, sem os diferenciar dos originais. Já esclarecia a Carta de Veneza em seu artigo 12º que “os elementos destinados a substituir as partes faltantes devem integrar-se harmoniosamente ao conjunto, distinguindo-se, todavia, das partes originais a fim de que a restauração não falsifique o documento de arte e de história(IPHAN, 1995: 111). Todavia, nestes edifícios não é explicita a diferenciação entre o que foi reconstruído e o que sofreu restauração. 
Vista à partir da rua Bóris em 2017.
Rua José Avelino antes e depois do restauro
promovido pelo Programa Cores da Cidade.
Fotos: Fausto Nilo (1995)/Sabrina Studart (2002)
Semelhante ao que ocorreu em outras cidades brasileiras, o resultado final do programa Cores da Cidade foi a recuperação parcial dos edifícios: enquanto as fachadas foram pintadas e seus elementos ornamentais recompostos, os interiores permaneceram degradados. Cada proprietário ficou encarregado de intervir em seu edifício da maneira que desejasse e, em muitos casos, os imóveis sofreram fortes intervenções que acabaram por descaracterizar o aspecto original de seus interiores. Em alguns deles, foram criados mezaninos ou mesmo vários andares – aproveitando os altos pés direito dos imóveis – com diversos desenhos arquitetônicos e estruturas de sustentação. 


É importante ainda informar que os proprietários não receberam nenhum tipo de benefício tributário, como ocorreu em outras cidades onde o Cores da Cidade atuou. Era ainda proposta do Programa Cores da Cidade sugerir a transformação dos usos nestes imóveis, mas isto não aconteceu. Muitos proprietários dos imóveis aproveitaram-se da supervalorização provocada pelas reformas do Programas e passaram a aumentar os preços dos aluguéis ou instalaram atividades mais lucrativas. 
Rua José Avelino. Foto de 2017

É relevante apontar aqui uma das recomendações das Normas de Quito:

“Da mesma forma, deve-se tomar em consideração a possibilidade de estimular a iniciativa privada, mediante a implantação de um regime de isenção fiscal nos edifícios que se restaurem com capital particular e dentro dos regulamentos estabelecidos pelos órgãos competentes. Outros desencargos fiscais podem também ser estabelecidos como compensação às limitações impostas à propriedade particular por motivo de utilidade  pública” (IPHAN, 1995: 141).

Fachada da Fábrica Myrian (Hoje boate Armazém) - Foto do Álbum Fortaleza 1931
Operários em frente a Fábrica Myrian (Hoje boate Armazém) - Foto do Álbum Fortaleza 1931
Boate Armazém depois do restauro promovido pelo Programa Cores da Cidade.
O Centro Dragão do Mar inseriu-se em quadras onde anteriormente existiam galpões e sobrados remanescentes do início do século XX, alguns dos quais se encontravam bastante descaracterizados. Depois de sua inauguração, o entorno do Centro Cultural passou a acolher novas atividades que contribuíram para consolidar a Praia de Iracema como o maior pólo de turismo de Fortaleza, mas também trouxeram problemas para o bairro: poluição sonora, visual, deficiência de estacionamento, entre outros. 

Foi realizado no mês de fevereiro de 2003 um levantamento geral do uso, ocupação e estado de conservação dos imóveis próximos ao Centro Dragão do Mar. O objetivo era entender até que ponto o complexo cultural exerceu influência sobre as edificações ao seu redor. Infelizmente, não foi feito nenhum levantamento semelhante, antes ou depois da implantação do centro cultural, pelos órgãos de planejamento municipal e estadual, outra instituição ou organização. 

Rua José Avelino
Ficou claro que a grande maioria dos imóveis que passaram por reformas recentes tinha participado do Programa Cores da Cidade. Poucas reformas ou intervenções aconteceram por iniciativa de proprietários ou locatários dos imóveis buscando aproveitar a nova dinâmica econômica da área.  Além disto, foi possível também constatar que grande parte dos edifícios reformados não acolhe funções relacionadas à produção cultural ou à habitação, mas passou a receber atividades voltadas ao lazer e turismo: lojas, restaurantes, bares, casas de espetáculos, entre outros. Foi possível ainda observar que muitos lotes ainda se encontram sem ocupação ou utilizados como estacionamentos privativos. 
Rua Dragão do Mar com Almirante Jaceguai
Diretamente relacionada à utilização destes imóveis para fins comerciais está o problema do uso quase que exclusivamente noturno. A área de entorno do Dragão apresenta fluxo intenso de pessoas no período de final de tarde até a madrugada. Durante os períodos do dia, a área encontra-se subutilizada, embora alguns galpões ainda funcionem como depósitos e gráficas.

Fausto Nilo defende que este é um problema que poderia ter sido resolvido com uma ação mais forte da Prefeitura após a implantação do edifício na área. Seu projeto de arquitetura, apesar do programa e da escala com que se inseriu na região, não teria como reverter este problema ou propor soluções numa escala urbana.

Avenida Almirante Tamandaré
“Isto ai (o planejamento da área de entorno do Centro Dragão do Mar) demanda um papel importantíssimo da Prefeitura, uma política que o Jaime Lerner chama de acupuntura urbana. Tem colegas meus que são contra isto, eles dizem que “ah, eu sou contra fazer obras isoladas”, “obra  pontual”, como se fosse possível numa cidade fazer obra que não seja  pontual (...) é preciso começar com alguma coisa.



 Autoridades relacionadas ao Governo do Estado e a Prefeitura Municipal por vezes admitem o problema, mas esclarecem que não podem agir sobre a área. Pádua  Araújo - diretor-presidente do Centro Dragão do Mar – afirmou:
“É certo que o processo de ocupação não está ocorrendo da forma como idealizamos no início. A dinamização de todo aquele trecho deveria ocorrer não só à noite, mas durante o dia, quando funcionariam ateliês de arte, estúdios fotográficos, livrarias, escritórios e equipamentos afins. Mas os imóveis vizinhos são privados, os proprietários podem alugá-los para qualquer tipo de negócio(O Povo, em 24/01/2001).

Rua Bóris com a Dragão do Mar
Teria sido ideal que os órgãos responsáveis da Prefeitura de Fortaleza, pensando no impacto urbano do conjunto, tivessem revisado a legislação que trata do uso e ocupação do entorno, buscando estabelecer funções que garantissem o aproveitamento da área também durante o dia, entre elas moradia e educação.


Rua Almirante Tamandaré com José Avelino
Ateliê de José Tarcísio

Outra grave consequência dessas transformações foi a forte especulação imobiliária que se impulsionou e expulsou uma parte dos antigos moradores e usuários do bairro. Aproveitando o novo sucesso comercial, proprietários de imóveis da região aumentaram seus aluguéis e abriram novos espaços destinados ao comércio e lazer. José Tarcísio, artista plástico e antigo morador da área, relata:

“Há mais de 20 anos moro e trabalho em um dos galpões do calçadão do centro cultural. Mas hoje a gente vive com a barba de molho. Tive 100% de aumento no aluguel do meu ateliê e vivo no meio de uma feira: as mesas e cadeiras dos bares invadiram o lugar dos transeuntes; cada um deles apresenta um tipo diferente de música ao vivo, às alturas, promovendo uma ensurdecedora cacofonia. (...) Isso preocupa o artista, que esperava ter ali um corredor cultural e agora está sendo progressivamente expulso da área” (jornal o Povo, em 24/01/2001).

Rua José Avelino

Rua Bóris com a José Avelino

O deputado estadual Paulo Linhares, secretário de cultura do Governo Estadual à época do projeto do Centro Cultural, defende que havia inicialmente um projeto que visava diminuir os efeitos desta especulação e manter as funções existentes antes da implantação do edifício. O chamado Projeto Quarteirão do Artista buscava desapropriar alguns imóveis adjacentes ao Dragão do Mar e estimular a presença de produtores culturais na área. Segundo Linhares, “A gente sabia que ia ter uma supervalorização daquela área e ia ter expulsão de pessoas. Infelizmente o mercado de arte e cultura ainda é frágil em relação aos outros, então a gente tinha que ter um esquema de  proteção para que o artista pudesse ter lugar ali. Fizemos um projeto que se chama Quarteirão do Artista, apresentei para o representante do Banco Mundial em Brasília e ele adorou. Era para desapropriar inicialmente 40 imóveis. E ai, o Estado passaria a ser agente regulador, permitindo que cantores, escritores, pintores habitassem ali” (O Povo, 02/02/2001).

Casinha de 1919 na rua José Avelino
Este projeto, porém, não foi implantado pelo Governo Estadual.

Após a construção do Dragão do Mar e execução do programa Cores da Cidade, o Governo do Estado acreditou na potencialidade da área e não procurou interferir em sua dinâmica. Uma parceria com a prefeitura municipal, comunidades locais e a iniciativa privada poderia colaborar para a qualidade e vitalidade da área. A prefeitura não revisou a legislação da região, de maneira a coordenar os usos existentes, nem buscou incentivar os proprietários da região a investir em seus imóveis a partir da isenção de impostos ou benefícios fiscais.


Leia também:







Fonte: Intervenções na cidade existente - Um estudo sobre o Centro Dragão do Mar e a Praia de Iracema/2003 -  Sabrina Studart Fontenele Costa / Site oficial tintas Ypiranga/ 


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