sábado, 16 de abril de 2011

O Cajueiro Botador - Livro Fortaleza Descalça


É com extrema doçura que descobrimos Fortaleza e com riqueza de detalhes vai o autor relatando fatos e pessoas que marcaram decididamente, nossa cidade. Com profundo conhecimento e com uma característica bem particular, Otacílio de Azevedo nos conta como se deu a Inauguração do Teatro José de Alencar, a queda do Governo Acióli, a Inauguração do Majestic e como funcionava o Cinematógrafo de Júlio Pinto. São citados inúmeros e importantes poetas e prosadores, pintores e figuras da sociedade cearense. Os tipos populares mereceram de Otacílio, destaque particular. Assim, o autor nos possibilita uma viagem no tempo da Fortaleza tranquila, pacata, simples e feliz, sem automóveis, sem barulhos enlouquecedores, apenas os das serestas que embalavam as noites de luar e os corações dos apaixonados....

Conheci, logo que aqui cheguei, vindo de Redenção, o célebre “Cajueiro Botador” da Praça do Ferreira. Situava-se em frente da Empresa telefônica – local onde hoje é a Livraria Alaor. A Livraria Alaor ficava na Rua Floriano Peixoto n° 621.

Era o Cajueiro dos mexeriqueiros, dos desocupados... mas também de muita gente boa. No dia primeiro de abril, feriado nacional da mentira, juntava-se ali dezenas de pessoas – homens da sociedade, plebeus, artistas, pequenos comerciantes, brancos e pretos, enfim, toda casta de gente que lia cartazes pregados no tronco nodoso do cajueiro.



Cajueiro Botador - Praça do Ferreira - Foto de 1905 - Arquivo Assis Lima

Era uma gargalhada ininterrupta que vibrava, repercutindo por toda a Avenida 7 de setembro. Os cartazes noticiavam as maiores mentiras, denunciavam mil coisas e, às vezes, a sua leitura provocava discussões e até brigas violentas.

O Café Java, que ficava defronte à Delegacia de Polícia (hoje Caixa Econômica), era a sede do pleito político dos potoqueiros e onde se preparava as chapas para as eleições de mentira.


Café Java - Foto de 1908

De manhã cedo, até ao anoitecer, não se mediam horas, ninguém trabalhava noutra coisa a não ser na eleição dos seus candidatos. Embandeiravam os galhos do velho cajueiro com as chapas e cartazes.


Praça do Ferreira - Foto de 1906 - Arquivo Assis Lima


Soltavam bombas e foguetes sob a música da Banda da Polícia ali postada a executar sambas, polcas e maxixes, às vezes acompanhados de grossa pancadaria...

Faziam parte daquela comuna irrequieta Amâncio Cavalcante, Leonardo Mota, Eurico Pinto, Gérson Faria, William Peter Bernard, Ramos Cotoco, Chamarion, Carlos Severo, Gilberto Câmara, Quintino Cunha, o Rochinha da farmácia, o Pilombeta e muitos outros...

Os que se mostravam contra a brincadeira ficavam loucos de raiva, atiravam no chão os seus chapéus de palhinha, brandiam furiosos as bengalas, praguejavam, ameaçavam e, impotentes, retiravam-se sob o apupo de mil vozes galhofeiras.

O cajueiro, porém, pejado de frutos vermelhos de janeiro a dezembro, parecia rir daquilo tudo: agitava ao vento os seus galhos retorcidos e pesados dos frutos maduros.

[CAFÉ+JAVA.jpg]


Diz Raimundo Girão na sua magnífica Geografia Estética de Fortaleza: era o cajueiro da mentira. Melhor, o suporte da urna em que se elegiam os mitômanos graduados todos os anos a primeiro de abril, considerado o dia nacional da potoca. 

À sua sombra, como um pálio, resguardava a mesa eleitoral que recebia os votos populares no mais animado e vero dos pleitos, tudo ornamentado de bandeirinhas de papel e agitado de foguetes de estouro.

À noite, o nome vitorioso era colocado no cajueiro, havendo discursos, aplausos, urros, os mais calorosos vivas sob o estrépido das palmas.

Em 1920, o prefeito Godofredo Maciel, num gesto frio e desumano mandou que cortassem o cajueiro botador. Houve um levante surdo contra o desalmado prefeito, que muito perdeu na simpatia dos assíduos fregueses do quartel-general onde se reuniam os programadores do memorável dia da mentira.

Era esta a maior festa popular da Fortaleza Antiga.



Revivendo o Cajueiro Botador...


História do Festival de Mentiras

De 1904 a 1920, na Praça do Ferreira, debaixo do Cajueiro Botador (era assim chamado porque botava caju o ano todo), o Ceará assistiu a sua festa mais tradicional, popular e moleca que foi o Festival de Mentiras, realizado, é claro, no dia 1º de Abril. Ali, intelectuais, artistas, bebuns e desocupados passavam o dia escrevendo e afixando papelotes no Cajueiro, com todo tipo de mentiras ou verdades provocantes.
Em 1920, o Prefeito Godofredo Maciel, sentindo-se incomodado com a brincadeira, mandou derrubar o Cajueiro, acabando com a farra. Na última reforma da Praça do Ferreira, foi plantado um novo cajueiro e colocado a seu lado um placa que conta um pouco desta história.


Foto de Jaqueline Aragão

Em 2006, depois de 86 anos sem acontecer o evento, o Escritório do Riso retomou o Festival de Mentiras, realizando-o também nos anos de 2007, 2008 e 2009 no Teatro Chico Anysio. Em 2010, o Festival volta à Praça do Ferreira, seu lugar de origem.





Debaixo do Pé do Cajueiro Botador o organizador do Festival Zebrinha e o grande potoqueiro vencedor do 22º Festival de Mentiras, realizado em 1º de Abril de 2010; 90 anos depois de acontecido, ali, naquele mesmo lugar, o último Festival de Mentiras; mais precisamente em 1920. O nome do vencedor é todo invocado: Delegado Vilas Malas.


Bagaceira - O Mentiroso de 2011



Créditos: Livro Fortaleza Descalça de Otacílio de Azevedo e Blog do Zebrinha

6 comentários:

  1. Moça, parabéns pelo blog! é maravilhoso! :)

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  2. Tenho o livro do Otacílio, de vez em quando releio. Essas histórias são alimentos da alma,
    a do Cajueiro Botador é de alma e corpo: adoro cajuina rsrs...é mais fácil de saborear...o cajú, dá nódoas...
    Obrigada pela visita, amiga, e elogios, à Cadeirinha de Arruar.
    Beijos
    Lucia

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  3. Não precisa agradecer, é uma delícia ler
    suas histórias!

    Tbm não sou muito "chegada" em cajú, sempre
    me lambuzo toda e corro o risco de manchar minha roupa huahuahua :D

    Beijos

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  4. Muito legal suas historias parabéns nota mil

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