quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Parque Araxá, um dos mais tradicionais!


Estamos em 1967, na rua Otávio Justa, no Parque Araxá. Ao fundo temos a rua Azevedo Bolão. Acervo Lucas

O Parque Araxá é um dos bairros mais tradicionais de Fortaleza! Os moradores mais antigos dão conta de que ele surgiu por volta de 1950, a partir de um cercado que era habitado por um cidadão conhecido apenas como Zé Crateús. Na época, com o aparecimento de boatos dando conta que a estrada de ferro iria passar por dentro do terreno, seus proprietários resolveram cercá-lo e transformá-lo em lotes que, em seguida, foram vendidos a diversas famílias, notadamente vindas do interior do Estado.

Parque Araxá em foto do Correio do Ceará de 2 de agosto de 1974. Acervo Lucas

Parque Araxá em foto do Correio do Ceará de 2 de agosto de 1974. Acervo Lucas

Essa denominação foi inspirada num cacimbão existente na Rua José Sombra, quase esquina com a Avenida Jovita Feitosa, de onde se tirava água de excelente qualidade, tanto que vinha gente de muito longe em busca do precioso líquido, a fim de beber e até para curar doenças. A Imobiliária Barros, numa jogada de marketing, passou a vender as unidades com o nome de Loteamento Araxá, evocando a cidade de Axará, em Minas Gerais, até hoje conhecida mundialmente pela excelência de suas estâncias minerais. Mais tarde, com a construção de novas residências em torno do loteamento, a área passou a ser chamada de Parque Araxá.

Esquina das ruas Padre Cícero e Major Pedro Sampaio - Arquivo Juracy Mendonça

Essa é a rua Professor Anacleto, no bairro Parque Araxá - Arquivo O Povo

Oficialmente, o IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística delimita o bairro da seguinte forma: Norte: Rua Azevedo Bolão e Avenida Bezerra de Menezes; Leste: Avenida José Bastos (via férrea); Sul: Avenida Jovita Feitosa; e Oeste: Ruas Professor Anacleto e Pedro Ferreira de Assis. Segundo ainda o IBGE, até o ano 2000 a referida área possuía 6.540 habitantes. Porém, historicamente, e no pensamento popular, sua extensão é bem maior, limitando-se, no lado Sul, com a Lagoa de Porangabussu, abrigando estabelecimentos que são conhecidos na cidade como pertencentes ao Parque Araxá, como o Clube Recreativo Tiradentes, Restaurante Paulinho do Frango, Panificadora Pamil, Colégios Deoclécio Ferro, Manuelito Azevedo e Antônio Sales, dentre outros. 


De olho na foto do pai, Isac Xavier lembra dos tempos em que a região era apenas um grande terreno cercado - Arquivo Diário do Nordeste

Apesar de sua importância no desenvolvimento social e econômico da capital cearense, o bairro sofre uma indisfarçada discriminação por parte de moradores mais jovens, bem como de comerciantes e empresários recém-chegados, que acham o nome “Parque Araxá” cafona, antiquado, fora de moda, e preferem dizer que estão na Parquelândia, São Gerardo, Otávio Bonfim, Benfica ou Rodolfo Teófilo. Porém, mais interessante é a gente verificar que o Parque Araxá é cultivado por todos aqueles que gostam de preservar suas origens. O bairro tem, acima de tudo, um povo alegre e descontraído, abriga artistas de diferentes áreas de atuação e uma infinidade de empresas e prestadores de serviços que o tornam um lugar agradável e digno de ser habitado e visitado.


Seu Saraiva e dona Clarinha residem desde 1957 no Parque Araxá na Rua Bernardo Figueiredo - Arquivo Juracy Mendonça

"O bairro Parque Araxá fez parte da minha infância e juventude sob vários aspectos. Não morei propriamente nele, porém muito próximo. A casa dos meus pais ficava mais precisamente na Avenida Bezerra de Menezes, no vizinho bairro de São Gerardo. Localizado na zona Oeste da nossa capital, o bairro do Parque Araxá cresceu desordenadamente e sem a infra-estrutura necessária, como todos os demais. Atualmente está totalmente descaracterizado e muito diferente do que foi nas décadas de 60 e 70. 

Parque Araxá na década de 80. Acervo Tarcísio Riziane

A avenida Bezerra de Menezes é uma das divisas. Diversas linhas de ônibus passam pelo local, facilitando o deslocamento dos moradores - Arquivo Diário do Nordeste

Naquela época tinha vida e personalidade própria. E fama de local de belas mulheres e muita festa animada, em especial as tertúlias. Suas ruas eram estreitas e o pavimento de pedras de granito, o popular calçamento, assim como a maioria das ruas de Fortaleza. Asfalto ainda era um luxo e apenas visto nas grandes avenidas da cidade. O bairro sofria de crônicos problemas de drenagem e no período de chuvas, nosso inverno, a maioria das ruas ficava completamente alagada por semanas. Tornava-se um inferno de lama e de mosquitos e muriçocas, que atormentavam a população local e dos bairros vizinho nas longas noites insones. Mas nada disso tirava a alegria e o apego dos seus moradores pelo local. Ninguém pensava em mudar para outro bairro devido a tranquilidade e as amizades entre os moradores e vizinhos. Era um bairro muito simples, classe média e eminentemente residencial. Uma ou outra casa se destacava pela arquitetura ou pelo porte mas a grande maioria das casas era modesta e sem jardins. Na época ainda existiam grandes áreas desocupadas e até mesmo alguns sítios com fruteiras e criação de gado. Uma coisa totalmente impensável nos dias atuais.

Rua Conselheiro Vieira da Silva - Arquivo O Povo 

O bairro do Parque Araxá tinha, porém uma particularidade que o diferenciava dos demais. Grande parte dos seus moradores se conhecia ou tinha laços de família. Era comum encontrar famílias inteiras morando em casas vizinhas. Também era o reduto de famílias vindas do interior, em especial de cidades da região Centro-Sul do Ceará. Dentre as famílias e colônias que fincaram raízes no bairro se destacavam os imigrantes de Acopiara, minha cidade natal, e da vizinha Mombaça. Sem maiores explicações ou motivos aparentes, tanto minha família como os demais conterrâneos resolveram se instalar no Parque Araxá. Em uma das suas ruas principais, a Rua José Sombra, fixaram residência vários tios, primos e parentes distantes. Por vezes algumas ruas do bairro mais parecia uma rua de Acopiara do que da capital, tal a quantidade de familiares e conhecidos residindo no local. Vários deles instalaram na Rua José Sombra suas casas e seus comércios. Ficavam nela ou em ruas muito próximas as casas dos meus tios Nestor, Luiz e dos filhos do tio Francisco (ele mesmo não deixou Acopiara) e da família Alves (Manel, Marilu e Luiz Alberto). Recordo-me que era nessa rua que ficavam os depósitos de materiais de construção dos meus tios Nestor (Depósito Araxá) e Valmir (Depósito Humaitá) e a mercearia do tio Luiz. Pertinho dali, na Bezerra de Menezes, ficava a casa do meu pai, Neófito e em frente as casas da tia Perpétua e dos seus filhos Airton, Rui, Pinheirinho, Reni e Ubaldina, ao lado do Depósito e Fábrica de Mosaicos Gurgel. Mais a frente ficava a imponente residência do ex-prefeito de Acopiara Chico Sobrinho e a casa da família do Waldizar Brasil. Fazendo limites com o bairro do outro lado, na Avenida Jovita Feitosa, ficavam a residência e o depósito do primo Chiquinho Gurgel e família. Também residiu no bairro, mas mudou-se posteriormente o tio Nertan com alguns dos seus filhos. Vale ainda registrar que no outro vizinho bairro de Otávio Bonfim, quase uma extensão do Parque Araxá, residiam outros tios, vários primos e conterrâneos de Acopiara e que pela proximidade e laços de família circulavam diariamente pelas ruas do bairro.

Curiosamente a pequena mercearia do tio Luiz resiste até os dias de hoje e virou ponto de referência e de encontro dos conterrâneos de Acopiara. O local também é ponto de encontro da família Gurgel, em especial aos sábados pela manhã. Seus integrantes e amigos para lá se dirigem com frequência, seja na busca de notícias da “terrinha” ou para rever os parentes ou apenas para beber uma cerveja gelada. Com um detalhe curioso, o cliente não pode ter pressa. O atendimento é realizado pelo próprio dono, no caso o tio Luiz, ou melhor, “seu Luiz”, como é respeitosamente chamado. Gordo, muito branco e de olhos azuis, é uma figura impagável e muito querido por toda família. Sempre vestido de bermudas, tênis, meias no meio da perna e com seu indefectível suspensório e sem qualquer pressa de servir a cachaça ou abrir a cerveja. E muito menos de encher os copos. E não adianta reclamar, pois além de ser xingado e ouvir desaforos do proprietário, o infeliz cliente vai ficar sem beber por um longo tempo. Se achar ruim, procure outro local. É seu estilo inconfundível e que não poupa nem mesmo os sobrinhos ou parentes. No que pesem os eventuais transtornos, ainda vale a pena passar no local, beber uma pinga ou uma cerveja e jogar conversa fora. Justiça seja feita, a cerveja é sempre gelada e o tira-gosto de excelente qualidade. Sem falar na farinha que acompanha o tira-gosto e que o freguês pode comer com as mãos.


Rua Professor Anacleto - Arquivo O Povo

Com o passar do tempo e com o desenvolvimento e a urbanização desordenada da cidade pouco restou do velho e pacato bairro. Infelizmente muitos dos antigos moradores já partiram ou mudaram do local. Junto com o crescimento chegaram os engarrafamentos e a violência crônica que assola todas as grandes cidades. Do bairro da época das tertúlias, das cadeiras nas calçadas, do café torrado em casa e passado na hora, muito pouco restou. Ficou a saudade e as recordações daqueles velhos tempos. Tempo em que o maior perigo no bairro era escorregar na lama e no lodo que se acumulava nas calçadas na época do inverno. E muito pior do que a queda era a vaia da garotada. Uma grande vergonha e um constrangimento pelo qual passei algumas vezes quando criança. Mesmo com tais perigos era realmente uma festa e uma alegria passear pelas ruas do Parque Araxá no final da tarde. Merendar nas casas dos meus primos, beber um guaraná na mercearia do tio Luiz, jogar conversa fora nas esquinas, tudo sem pressa e sem medo. Hábitos esquecidos pela maioria e estranhos para as novas gerações. Quantas lembranças."

Carlos José Holanda Gurgel




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20 comentários:

  1. Achei seu blog atravez da ilha da Lindalva e quero convidar vc para participar do forum de confraternização em meu blog. participe comentando no Forum abaixo dos banners dos participantes e escreva algo relacionado com o tema abordado ou abra um novo tema. Aguardo a sua participação Um abraço Dado

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  2. Olá amiga... emocionante ler a história deste bairro do qual "convive dia a dia no meu trabalho", e vê meu amigo Isac Rocha também valeu... como sempre tuas postagens encantam. beijos no coração e um doce final de semana.

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  3. Obrigada amiga!

    Um final de semana maravilhoso pra ti tbm!

    Beijos amada

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  4. Parque Araxá, foi neste barro que nasci e que ainda retorno ate hoje. E diga-se de passagem ainda falta citar aqui as ruas Carvalho Mota e Torres Portugal, estas sim eram ponto de muita animação na infancia!

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  5. Coisa boa de se ler!

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  6. Tenho boas lembranças desse bairro onde passei boa parte da minha adolescência na casa do meu tio Antônio Gonçalves natural de Acopiara, que morava na rua torres Portugal, boas recordações

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  7. Tenho boas lembranças desse bairro onde passei boa parte da minha adolescência na casa do meu tio Antônio Gonçalves natural de Acopiara que morava na rua torres Portugal boas recordações

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  8. Falta muita história ainda muita mesmo

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  9. Nasci na Av. BEZERRA DE MENEZES, mas meus pais compraram terreno e construíram nossa casa no amado bairro do Parque Araxá, na rua na época chamada "Luiz Antonio", depois e até hoje "Torres Portugal". Realmente foi e é um pedaço de chão abençoado, muito gostoso de se morar e de gente alegre, boa e bonita kkkk. Hoje na nossa casa, mora meu pai, já que minha mãe voltou a casa do Pai. E desse bairro só tenho boas lembranças de belos e inesquecíveis dias com meus amigos de infância, das nossas idas ao Grupo Escolar Presidente Roosevelt, onde fiz o primário; do Colégio Guri; da nossa dentista Dra. Edigleuma (muito depois Dr. Diogo Fontenele, também poeta); da Padaria Araxá do "Sr. Bianor"; das quadrilhas comandadas pelo "Itamar"; da linha de ônibus Pio Saraiva no qual eu utilizava para ir ao meu inesquecível Colégio Júlia Jorge (esse na Parquelândia); das missas e novenas acompanhando minha mãe as Igrejas N.S. das Dores, Igreja S. Raimundo,(em bairros circunvizinhos) e anos depois a de S.José Operário (esta já no nosso bairro); da Farmácia do Sr.Gaspar; dos Depósitos de material p/ construção (já citados); das figuras como o "Zé do Vale"; das famosas costureiras que ali residiam (e até hoje vc ainda encontra algumas, em especial pela rua Carvalho Mota)... são muitas recordações. Durante muito tempo foi um lugar mais residencial, pacato, mas sempre, com boa infra estrutura no seu entorno colégios, universidade, igrejas, farmácia, transporte, mercado, padaria, bodegas, cinema (Cine Familiar). Bem vou parar para alguém continuar😂😂😂. Um grande abraço

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  10. Resido no bairro a 33 anos e posso dizer, lugar melhor para se morar não há...

    Excelente tópico abordado pelo seu blog, parabéns.

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  11. Eu morei na rua General Bernardo de Figueiredo n° 127, Campo do Pio, na década de 1960. Ainda existe?

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  12. Respostas
    1. Dono 15 de novembro tinha casa boa Jovita

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  13. Eu morei no campo do Pio queria saber se alguém tem a foto do campo onde ia time de for bom jogar onde tinha uma casinha de madeira e tinha uns pés de eucaliptos

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  14. Eu morei na rua Otavio justa, 53
    Casinha simples que pertencia ao Sr José Cobra Sobrinho, ou simplesmente ZE COURO, como era conhecido no bairro. Isso, foi em 1970. Conheci o bar do seu Luiz, onde sempre ia tomar umas cervejas. Nesse tempo eu era soldado do CPOR, na épica eu consegui comprar um fusca taxi, placas TD5203, caro que foi financiado pelo Sr. José Procopio, que morava no beco dos pintos. Como eu não tinha garagem, eu guardava meu fusca num estacionamento que era vizinho ao bar Sr Luiz. Morei 06 anos la, de 1970 até 1976.

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