segunda-feira, 12 de março de 2012

A Vila Gentil


O presente artigo é um testemunho de quem nasceu e viveu a adolescência na Gentilândia, quando era Vila Gentil, em uma época que merece não ser esquecida. Há uma curiosidade muito natural das pessoas em conhecer o passado, pois o tempo está apagando tudo. Lembranças são acontecimentos e fatos que foram guardados em nossa memória.
Infelizmente ficam irremediavelmente perdidas se não tiverem sido relembradas por escrito. Geralmente as recordações carregam emoções.

Poderemos também dizer que há emoções que traduzidas em palavras, perdem grande parte de seu encanto.
Cada época e bairro de uma cidade têm uma história que lhe caracteriza e dá existência. O ambiente, as casas e, principalmente, as pessoas se inter-relacionando em uma teia socioeconômica característica. Aqueles que nela viveram são os únicos que sentiram o pulsar pleno de seu dia a dia.

É difícil descrever, objetivamente, o que foi a Vila Gentil conciliando os métodos narrativo, descritivo e interpretativo nos limites de um artigo, tal o número de informações que podem ser trabalhadas de forma coerente para o entendimento de quem está interessado. Lembramos que ela existiu há mais de setenta anos e seus contemporâneos remanescentes possuem mais de sessenta.

Fortaleza em 1930 possuía uma população estimada de 117.000 habitantes, em 1940, 180.000, em 1950, 270.000, em 1960 já contava 515.000. O cotidiano de seus moradores possuía um estado de espírito todo especial, calmo, tranquilo e pacífico, muito diferente da realidade existente na Fortaleza de hoje com mais de dois milhões (2.000.000) de habitantes, embrutecida pelo seu tamanho, pela quantidade e variedade de sua população, oriunda dos mais variados locais do Ceará, convivendo um contexto socioeconômico caótico. Reconstituir detalhes da história de um bairro, mesmo sendo de uma cidade relativamente pequena do meado do século XX como Fortaleza, em comparação a metrópole atual, não é tarefa fácil. No caso específico do Benfica e da Gentilândia, são poucos os testemunhos pessoais de seus contemporâneos, pois quase todos já morreram. A maioria das casas foi demolida ou descaracterizada e mudados alguns nomes de ruas tradicionais. Tudo concorreu para não ser preservada sua história. Com a extinção da Vila Gentil, consequência da liquidação do Imobiliário José Gentil S/A e do Banco Frota Gentil, a Gentilândia daquele tempo
desapareceu, atualmente essa designação é apenas uma tradição.

O bairro do Benfica é um dos mais antigos e tradicionais de Fortaleza e surgiu em um trecho da então chamada Estrada de Arronches, depois avenida Visconde de Cauipe e, atualmente, Avenida da Universidade; em um percurso pouco menor de dois quilômetros. Sobre o Visconde de Cauipe (Severiano Ribeiro da Cunha), o Barão de Studart escreveu no seu Dicionário biobibliográfico cearense, em 1915, que foi “o maior filantropo que o Ceará produziu. Seu nome batiza um dos mais lindos e opulentos boulevards da cidade”. No começo do século passado era um lugar onde existiam muitas casas, chácaras e árvores, o que lhe dava excelentes condições de morada. 


Avenida Visconde de Cauipe esquina com rua 13 de Maio, onde dobrava o bonde do prado, em frente a mansão do Sr. José Gentil.
No detalhe: homem sentado no jumento.

Mais exatamente, situava-se entre as ruas Antônio Pompeu (próximo a Faculdade de Direito da UFC e ao lado das Caixas d’Água) e a rua Padre Cícero, já no bairro do Jardim América. Para outros, seu limite seria a rua Adolpho Herbster, onde terminavam os trilhos do “bonde” da linha Benfica, e o calçamento de granito, em formato de paralelepípedos.

Nesse local existia a “mercearia de primeira ordem ”do senhor Rabelo. Atualmente localiza-se um “motel”. A partir dali, até Parangaba (antigamente Arronches), hoje um bairro, a estrada era de “concreto” com o nome de avenida João Pessoa. Pelo nascente, fazia limites com as ruas Senador Pompeu e avenida dos Expedicionários, e pelo poente, com as ruas Tristão Gonçalves e Carapinima. Essa localização já era estabelecida pela Prefeitura de Fortaleza.


 
Trecho da avenida Visconde de Cauipe pouco antes da Igreja dos Remédios, onde pode-se ver lampiões, vendedores ambulantes (boleiro, padeiro e outros. (Arquivo Nirez).

A Gentilândia, como parte dele, localizava-se entre a avenida da Universidade (antigamente avenida Visconde de Cauipe), ao norte, a rua Marechal Deodoro, ao sul; a rua 13 de Maio (depois avenida), ao nascente; e rua Adolfo Herbster, ao poente. Era formada em seu interior pelas ruas: Paulino Nogueira e Padre Francisco Pinto, ambas começando na avenida Visconde de Cauipe e terminando na Rua Marechal Deodoro, ao lado do Estádio Presidente Vargas. Paralela à Avenida Visconde de Cauipe existiam a rua São José do Tatuape (atualmente); Rodolfo Teófilo (atualmente rua Waldery Uchôa) entre a avenida Treze de Maio e Adolfo Herbster, e as ruas internas: Nossa Senhora dos Remédios, entre a avenida Treze de Maio e rua Padre Francisco Pinto; Nossa Senhora de Lourdes (atualmente rua Costa Sousa), Rua Santo Antônio, entre a avenida Treze do Maio e rua Paulino Nogueira; Travessa Sobral (atualmente rua Redenção) entre Padre Francisco Pinto e Adolfo Herbster; e as chamadas vilas sem saída, ditas particulares: Vila Santa Cecília, Vila Santa Rita, Vila Santa Luzia, todas começando na rua Paulino Nogueira, e finalmente a Vila Santana, começando na rua Padre Francisco Pinto; iniciando-se nesta, existia ainda, a rua Júlio César, indo até a rua Adolfo Herbster. Logo depois dessas ruas começava uma grande área coberta de capim onde se encontrava a Lagoa do Tauape, alimentada pelo riacho do mesmo nome procedente das bandas do bairro do Parangabuçu e outros menores que se formavam na época do inverno. As Vilas Santa Rita e Santa Luzia foram demolidas pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e ocupados seus espaços pelo terreno da Reitoria e uma agência do Banco do Brasil

Final da avenida Visconde de Cauipe, m da linha dos bondes do benca e ponto dos ônibus do benfica. (Arquivo Nirez).

A Vila Gentil (Gentilândia) foi um lugar bem definido e privilegiado do Benfica. Basta dizer que as únicas grandes praças desse bairro, ainda existentes, estão localizadas ali. Talvez tenha sido o mais arborizado de Fortaleza. Árvores cobriam grande parte de sua área, principalmente com mangueiras. Poucas, quase centenárias, ainda sobrevivem. Esse lugar tão especial para quem lá morou, existiu nas décadas de 1930, 1940, desaparecendo no decênio seguinte, quando suas casas começaram a ser vendidas pela Imobiliária José Gentil S/A, preferencialmente aos seus moradores, e para a Universidade Federal do Ceará.



 
Mansão do coronel Gentil, atualmente Reitoria da Universidade Federal do Ceará. (Arquivo Nirez)

Seu fundador, José Gentil Alves de Carvalho, nasceu em Sobral, em 1866, e faleceu em Poços de Caldas, Minas Gerais, em 1941. Com a esposa D. Maria Amélia da Silva Frota (D. Melinha) teve quinze filhos: três homens, um dos quais, José da Frota Gentil era padre jesuíta, e doze mulheres; seis seguiram a vida religiosa e Francisca (D. Chiquita Gentil) ficou solteira. Os sete casados deram-lhe 69 netos. Seus descendentes tomaram GENTIL como sobrenome. Durante sua existência de 74 anos exerceu atividades como comerciante, empresário e banqueiro. 

O coronel Gentil foi um empresário empreendedor e em certos aspectos original. É certo que construiu casas para alugar, porém não se esqueceu de fazê-las da melhor maneira para fruição de seus moradores. Todas possuíam água encanada, esgoto e outros serviços básicos de qualidade funcionando. Para isso havia uma administração central chefiada pelo senhor José Vitorino de Menezes, na rua Padre Francisco Pinto, que dispunha de uma equipe de operários especializados para realizar os serviços relacionados com a manutenção e serventia das casas. Tudo gratuito e rápido.

Na praça principal da Gentilândia existia um pilar de alvenaria, pouco mais de dois metros, com um formato especial (a parte superior era oval) com os dizeres: PARQUE DA GENTILÂNDIA, em letras maiores, e PARA USO E GOZO DOS MORADORES, pintado de branco sobre fundo vermelho de uma placa de ágata. Já naquele tempo, suas letras serviam de alvo para alguns “vândalos” atirarem com “baladeiras”. Vale recordar que aquele local era sombreado com mangueiras.

Aquele empresário era um cidadão com forte convicção católica. A maioria das ruas tinha nomes de santos, e sete dos seus quinze filhos seguiram a vida religiosa. Destacamos que a Igreja de Nossa Senhora dos Remédios foi elevada a paróquia, em 1934, e concluída em 1936, sendo que em grande parte, foi obra da família Gentil que tinha lugares cativos nos primeiros bancos do templo. Os beneficiários daquele privilégio pagavam uma mensalidade. Como já afirmamos a Vila Gentil era um pequeno bairro do Benfica, portanto inter-relacionado com ele. 

Eram pontos de referência: o Colégio Santa Cecília, só para moças, na esquina com a rua Treze de Maio (naquela época rua), a Igreja de Nossa Senhora dos Remédios com a Casa das Missões, vizinha a ela, morada dos padres Lazaristas holandeses que davam assistência religiosa a paróquia, o Dispensário dos Pobres dirigido pelas Irmãs de Caridade ou filhas de São Vicente de Paulo, todos localizados na avenida Visconde de Cauipe; o Prado, também chamado bairro, antes hipódromo e campo de futebol, localizado na rua Marechal Deodoro. Gozando desse status porque era o fim da linha do bonde do Prado. A Lagoa do Tauape, apesar de não estar vizinho a Gentilândia, era considerada uma parte dela porque as ruas transversais terminavam no capinzal que se estendia até a avenida João Pessoa. Era um belo postal do bairro, ou mesmo de Fortaleza, principalmente porque era emoldurada por um lindo bambuzal que a franqueava pelo lado do Marechal Deodoro. Foi aterrada por volta de 1955, sendo atualmente a chamada avenida do Canal. Dizia-se que as “muriçocas” que infestavam o local provinham dela.


Continua...


Crédito: Revista do Instituto do Ceará - 2010 
A Gentilândia e o bairro do Benfica de 
Pedro Alberto de oliveira Silva 
(Sócio efetivo do Instituto do Ceará)

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