quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Avenida Carapinima - Um símbolo do Benfica III



"Ali viveram também grandes  jogadores de futebol, como Airton Monte e Jombrega, este vítima dos fanáticos do futebol, ao ser responsabilizado pela derrota da Seleção Cearense frente à do Pará. Isto sem falar na beleza das moças do bairro, culminando com a Miss Brasil Emília Correia Lima. Os concursos de beleza que movimentavam a cidade provocando uma maior venda de jornais, como Rainha do Algodão, Glamour Girl, Rainhas de Colégios, Rainha dos Jornalistas, os mais belos olhos da cidade, eram sempre ganhos por alguma moça do Benfica. Isto sem falar do Renato Aragão que já estudava na Faculdade de Direito, trabalhava na TV Ceará e namorava a Marta, que era nossa vizinha. Também o Tom Cavalcante morou na Carapinima, bem em frente à casa da Marta, na modesta Vila das Irmãs.
Era filho de Sr. Hugo e sua família veio de Sobral. O outro comediante, Chico Anísio, que
junto com os outros dois alcançou notoriedade no país, morou na Avenida João Pessoa,
também no Benfica. Sua casa dava fundos  para a Rua Carapinima, onde funcionava a garagem da empresa de ônibus do seu pai. Não posso esquecer o Dilcimar Oliveira, grande comunicador que atuou no jornalismo local,  chegando depois a escrever no Le Monde e o inesquecível tenor Abel, que atuou no filme “Ligações Perigosas”. Além do músico Zezinho que alegra ainda hoje as noites de Fortaleza. Como vê, uso a memória para registrar e celebrar todas essas pessoas, que com sua linguagem erudita, professoral, escrita e oral contribuíram para a formação de jovens, o deleite de  muitos, como no caso dos três humoristas mencionados. Discursando, escrevendo substanciosos artigos, poemas, contos e traduções, dignificaram suas profissões.

Francisco José Róseo  de Oliveira foi conhecido nacionalmente.
Casado com uma senhora belíssima, a dona Cleide. De fato, perdeu o seu filho caçula, o Luis
Antonio Róseo, que recebeu uma homenagem em poema do meu irmão, o cordelista Luis
Antonio Aragão. Os versos eu sei de cor...  A morte dele comoveu todo o bairro, pois se
tratava de uma criança que fazia o curso primário. Vamos aos versos:

                                                 Chorar, chorar...
                                                 Nas minhas lágrimas
                                                 Rolam os sentimentos
                                                 Por alguém que jaz amor.
                                                 Sem túmulo, sem um abrigo,
                                                 Entregue aos mistérios
                                                 Do Oceano que levou consigo,
                                                 Seu corpo e minhas esperanças
                                                 De encontrar meu grande amigo.
                                                 Ó, mar, resolve meu dilema,
                                                 Porque não vou odiar-te,
                                                 Pois sei que inspiraste
                                                 As frases deste poema.
                                                 Mas livra de teus laços,
                                                 Esta vítima inocente,
                                                 E lança nos meigos braços
                                                 De quem por ele chora e sente.

Com a criação da Universidade Federal do Ceará que adquiriu grande parte dos bangalôs e sobrados do bairro. Muita gente mudou-se para outros locais e o bairro consagrou a fama de “intelectual”. Ficaram famosas as festas do CEUClube dos Estudantes Universitários. É claro que a Universidade estimulou a corrida dos jovens ao vestibular e o
Conservatório de Música recebeu muitos alunos. É fora de dúvida que a Universidade continua tendo um papel importante em todo o Estado do Ceará. Mas não se pode negar que ela foi uma das responsáveis pela descaracterização do Benfica e da Gentilândia por causa da sua própria expansão e em face da construção de novos edifícios. Até a maravilhosa fonte que ficava em frente da reitoria da Universidade, antigo solar da família Gentil, onde chegou a se hospedar Getúlio Vargas, foi retirada dali e hoje está no centro da cidade em frente à sede do Banco do Nordeste. Vale acrescentar que o bairro do Benfica, cresceu em importância com o advento da Universidade. As mulheres passaram a ter a oportunidade de ingressar em outras faculdades e não só na de Filosofia. Algumas vindas do interior e hospedavam-se em casas de parentes, ou ainda nos pensionatos para moças, que passaram a ser comuns naquela época e hoje quase não existem mais. Notadamente, o bairro do Benfica era todo verde, parecia um parque ecológico enquanto que hoje, apesar da preservação do meio ambiente, ele já não é tão verde assim. A necessidade de modernização  retirou os trilhos dos bondes, ruas foram alargadas e encolheu-se o espaço da casa. Hoje ela não vai até a rua. Algumas secretarias foram acrescentadas à prefeitura e ao governo do estado. A SUMOV, por exemplo, pertinente a Superintendência de Urbanização, entre outros órgãos, transformaram ruas em avenidas modificando a paisagem urbana. A violência se reflete em várias facetas. É o caso da Igreja dos Remédios, hoje protegida por uma infinidade de grades e há ausência de cadeiras nas calçadas para as longas conversas de outrora. As televisões e os computadores estabelecem um novo tipo de comunicação. Os debates sobre política e economia feitos na ágora foram substituídos por conversas fúteis sobre novelas e programas sem nenhum conteúdo cultural e são duvidosas produções artísticas.  
O escoamento de gêneros in natura, faz-se hoje muito mais por caminhão. Não se ouve mais “lá vem o trem”. O trem que antes transportava gente do povo, fardos de algodão, mamona, feijão, farinha, oiticica e bovinos, equinos e suínos, vindos de outras cidades cearenses como Cedro, Iguatú, Senador Pompeu, em vagões chamados gaiolas. 

Observe-se que a modernização do Porto do Mucuripe, em Fortaleza, e a inauguração do Porto do Pecém deram novo ânimo às exportações do estado. Virou história o início do Porto do Mucuripe quando à distância se avistava  o grande guindaste Titã e da Maria Fumaça trazendo as pedras para o porto. Nós, meninos, da Rua Carapinima, meninos dos bairros do Benfica e circunvizinhos fomos levados para conhecer o “Passatempo”, precária estação de passageiros, local onde ocorreram os primeiros embarques e desembarques. Na Cia. Docas do Ceará empenhei-me muito pelo tombamento do Titã na ponta do quebra-mar e também do Passatempo, mas não tive êxito. Ainda bem que ainda resta a Ponte Metálica onde essa operação de embarque e desembarque já havia existido entre 1920
e 1952. Claro que está numa cidade banhada pelo mar não se pode esquecer dos passeios na
orla. Assim, a criançada toda e os jovens do bairro eram de vez em quando premiados."


Paulo Maria de Aragão
(Advogado e professor universitário)

Parte I
Parte II
Crédito: Carapinima: A história de uma rua -Regina Stela Ferreira Moreira 
(Formada em jornalismo pela Faculdade Celso Lisboa (Rio de Janeiro)

Um comentário:

  1. Conheci a rua Carapinima,morei no final dela, no encontro com a José Bastos na década de 60 e inicio dos anos 70.Tenho ótimas lembranças no Benfica.O colega Paulo Maria Aragão descreve muito bem em seu livro como era a vida naquela época naquela rua. Parabéns.

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