domingo, 24 de junho de 2018

Igreja Nossa Senhora dos Remédios - Benfica





A igreja de Nossa Senhora dos Remédios de Fortaleza nasceu do sonho de João Antônio do Amaral, primeiro proprietário da chácara Benfica, que acabou por dar nome ao bairro surgido na localidade. O comerciante português já era devoto da Virgem dos Remédios, padroeira da paróquia da Ilha de São Miguel, pertencente ao Arquipélago dos Açores, onde este nasceu e foi batizado. Mas a construção do templo não seria concretizada a tempo deste João ver seu sonho realizado. Iniciadas em dezembro de 1878, as obras ressentiram-se da falta de recursos, talvez pela localidade não ser ainda muito povoada e, consequentemente, não contar com grande número de fiéis que pudessem colaborar com a empreitada. A capela só foi concluída 32 anos depois, em 1910, quando João Antônio do Amaral já havia falecido, sendo decisivos os esforços de sua esposa, Maria Correia do Amaral, que encampou o empreendimento do marido.

Igreja dos Remédios vista dos jardins da chácara de João Gentil, na Visconde de Cauipe, atual Avenida da Universidade. Registro provavelmente dos anos 30.

A construção do templo estimulou o povoamento do seu entorno, fenômeno comum na história dos municípios e bairros cearenses. No ano de 1927 foi entregue aos cuidados de padres da Ordem de São Lázaro. A então capela dos Remédios integrava a paróquia de Nossa Senhora do Carmo, cuja igreja matriz está localizada na Avenida Duque de Caxias, no Centro de Fortaleza. Em 1934 foi criada a Paróquia de Nossa Senhora dos Remédios, sendo a capela elevada à condição de matriz. Permanecendo aos cuidados pastorais dos lazaristas, quase todos de nacionalidade alemã.


Loteria em favor das obras.
É relevante observar que a época da criação da paróquia dos Remédios corresponde com a “década de ouro” do Benfica, quando o bairro foi eleito como lugar ideal de moradia por figuras da elite cearense, principalmente a família Gentil, que veio a construir um palacete na chácara Benfica. Considerando que o porte da capela não condizia com sua nova condição de sede de paróquia, os padres lazaristas empreenderam campanhas para ampliá-la, tornando-a compatível à sua elevação a matriz. Recolheram donativos junto a seus parentes no exterior, dos paroquianos, realizaram leilões, bingos e quermesses. Doações polpudas passaram a ser ofertadas pelos novos e aristocráticos moradores, notadamente a família Gentil. A condição de matriz de bairro de elite possibilitou ampliações e melhoramentos no decorrer dos anos, transformando a antiga capela dos Remédios em um dos templos mais bonitos de Fortaleza.

De porte é elegante e refinado, tem estilo arquitetônico eclético – como a maioria dos edifícios integrantes do patrimônio histórico cearense – e referências neogóticas. A torre é única, incrustada na parte central da fachada. Guardada por quatro torres em miniatura, abriga sino e relógio, que até hoje marca as horas com seu soar dolente. A fachada ostenta nicho e frontão, encimados por torres menores nas extremidades. O patamar é relativamente amplo, com nível elevado em cerca de um metro em relação à avenida da Universidade. Nas últimas décadas do século XX, a igreja precisou ser protegida por grades de ferro. Os tempos de embate e consequente violência fez os templos fecharem as portas aos fiéis em determinados horários, contrariando o costume de estarem sempre de portas abertas aos necessitados do socorro divino.



Na parte lateral esquerda há um simulacro de capela cuja entrada é guarnecida também por grade. Ao fundo, pode-se ver a imagem de Santa Liduína presa à sua cama, em seu martírio purificador. Nascida no final do século XIV, essa santa holandesa pouco conhecida dos fiéis brasileiros sofreu um acidente cujas sequelas a impediam de caminhar e se alimentar. Teria sobrevivido doze anos sem comer nada, rezando e recebendo a eucaristia com o propósito de expiar os muitos pecados das almas, desencarnadas ou não. Na parte interna existem três naves. A central abriga o altar e o nicho com a padroeira. A imagem da Senhora dos Remédios segura o Menino Jesus, que porta um globo azul simbolizando a Terra. Nas laterais existem nichos com vários santos “reforçando o time” da padroeira, seguindo o estilo dos templos católicos.

Dentre o patrimônio artístico da igreja dos Remédios destacam-se os afrescos da cripta do templo, pintados por Gerson Faria (1889-1943). Representam cenas da paixão de Cristo. As pinturas de Faria chegaram a ser dadas como perdidas, mas foram recuperadas no ano de 2010, por iniciativa do padre Sílvio Mitoso, pároco dos Remédios à época. Segundo Gilmar de Carvalho, a obra foi fotografada e catalogada por ocasião de uma pesquisa documental sobre arte cearense coordenada pelo artista plástico Nilo Firmeza (Estrigas). Em entrevista concedida ao Jornal o Povo, Carvalho afirma que “Trata-se de uma obra valiosa, porque provém de um artista que conta com essas pinturas e é uma exceção para quem quer conhecer um pintor importante do Ceará”.



Edifícios, sinos, mosaicos, imagens, adornos, toalhas rendadas, arranjos de flores, incenso, mirra, ostensório... Do que é feito uma igreja? Que amálgama une diferentes pessoas em diferentes tempos em torno da fé surgida em torno da vida e obra do Jesus Cristo? Pelo que rezariam as senhoras da elite das décadas de 1930 e 1940? Que graças pediriam a Senhora dos Remédios? No entanto, o corpo de devotos não era formado só por pessoas da elite.


Segundo informação contida no site da Paróquia de Nossa Senhora dos Remédios, “Os padres Lazaristas esforçaram-se bastante para que os leigos participassem dos movimentos da paróquia e sempre houve grande preocupação com as camadas mais pobres dos paroquianos”. O primeiro vigário, Padre Guilherme Vaessen, notabilizou-se pela ação social no bairro durante o logo tempo em que esteve à frente da paróquia. Foram fundadas a Casa da Mãe Solteira e a escola Padre João Vaessen, destinada à educação de crianças pobres. O Padre Vaessen era caridoso, intercedia pelos fiéis em problemas cotidianos e encomendava sem cobrar nada as almas dos falecidos na “escolinha” da comunidade, que funcionava como um salão de velórios.

8 de setembro –  Festejos da padroeira - Procissão, leilão e barraquinhas com venda de comidas típicas no patamar da igreja. Apesar das buzinas e barulhos inerentes ao burburinho urbano do Benfica, é possível ouvir as badaladas do sino dos Remédios. Parodiando Ernest Hemingway: por quem dobram esses sinos?



Benfica / Arlene Holanda.- Fortaleza: Secultfor, 2015. (Coleção Pajeú)

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Bairro Benfica - Por Arlene Holanda


Acervo Assis Lima
Um dos primeiros a fincar residência no lugar posteriormente conhecido como Benfica, foi o português-açoriano João Antônio do Amaral. As escassas fontes “contam” ser ele comerciante, natural do arquipélago de Açores, depois habitante da aldeia de Benfica, atual bairro de Lisboa. Viera fugido de perseguição religiosa? Estaria sendo ameaçado por credores? Teria tido uma desilusão amorosa? Desconhecidas são as razões da migração extemporânea deste patrício para terras fortalezenses.
Grupo Escolar do Benfica em 1960 - Isabel Goulard
Foto de 1976. Alunos deixando o então Colégio Paulo VI.
Nesse local já funcionou o Matadouro Modelo.
Em frente a lagoa do Taupe, aterrada para o surgimento
do bairro Benfica. Acervo Lucas
O fato é que o Benfica de Portugal e o Benfica de Fortaleza têm histórias muito parecidas. O de Portugal era uma aldeia de camponeses da região Saloia. No século XV, foi promovida à sede de julgado do Termo de Lisboa, contando com dois juízes privativos. Algumas ordens religiosas se instalaram no local, sendo as mais importantes as Irmandades de Nossa Senhora do Amparo, Santo António e São Sebastião. No século XVIII, a região começa a atrair pessoas de classes abastadas. Seduzidas pela beleza da paisagem; ali se instalam em quintas, muitas das quais integram hoje o patrimônio histórico lisboeta.
Com o nosso Benfica não foi diferente. Em Fortaleza Belle-Époque, o historiador Sebastião Rogério Ponte enfoca o processo do embelezamento da capital cearense, ocorrido a partir dos fins do século XIX, nos moldes das reformas do Rio de Janeiro e de outras cidades da época, por sua vez inspiradas no remodelamento de Paris, promovido por Haussmann entre 1852 e 1870.
Enriquecida com o comércio de algodão e cera de carnaúba, a cidade sofreu reformas que disciplinaram os espaços públicos: praças e passeios foram remodelados, surgiram equipamentos e prédios com arquitetura rebuscada onde predominavam elementos neoclássicos e art nouveau. Sobrados e casarões proliferaram nas outrora ruas Formosa, da Palma, da Amélia, das Trincheiras... No entanto, poucas décadas depois acabaria a lua de mel das elites com o Centro. Começa então a debandada para o Benfica, Jacarecanga, Aldeota, lugares considerados salubres e aprazíveis, longe da algazarra e da inconveniência dos mendigos, vendedores ambulantes, pedintes e outros tipos indesejáveis, segundo a ótica da elite fortalezense.
Benfica - Avenida da Universidade. Acervo Assis Lima
Notícias da Fortaleza antiga
Como já informado, em fins do século XIX, João Antônio do Amaral “fundeou” aqui em Fortaleza sua chácara, dando-lhe o nome do bairro lusitano. Transportar nomes de Portugal para o Brasil era prática comum entre os “portugas”. Talvez uma forma de amenizar as saudades da terra que deixaram pra trás, de se reinventarem em seus banzos e delírios colonizadores. No Ceará, temos muitos exemplos: os municípios de Crato; Sobral; Viçosa; os antigos Monte-Mor, o Velho (atual Pacajus) e Monte-Mor, o Novo da América (Baturité); Soure (Caucaia); e outros que me escaparam à memória. Temos ainda as localidades de Espinho (em Limoeiro do Norte) e Arronches (atual bairro de Parangaba, em Fortaleza).


Notícias da Fortaleza antiga
Em meio ao mangueiral oriundo de mudas trazidas talvez de Goa, talvez de Cochim – no sonhado e achado caminho das Índias –, João Amaral fincou sua chácara, demarcando seu “bem-ficar”*. Tinha o projeto de construir ali um templo consagrado à senhora dos Remédios, mas seus anos findaram antes. A tarefa acabou sendo executada por sua esposa, Maria Correia do Amaral, zelosa no cumprimento do desejo do marido.
Bonde prefixo 126, Benfica, lotado em 1940. Acervo Lucas
Igreja N. S. dos Remédios
João Nogueira, em Fortaleza Velha, não faz menção à chácara de João Antônio nem ao Benfica português. Nos capítulos em que escreve sobre o Benfica, ressalta que a elite fortalezense queria um lugar para “bem-ficar”, atribuindo a isso a origem do nome do bairro. O fato é que a região, ocupada desde fins do século XIX – inicialmente por poucas chácaras –, experimentou rápido crescimento. Num processo similar ao da grande maioria dos municípios cearenses, o bairro Benfica teve em uma igreja – no caso, a de Nossa Senhora dos Remédios – a principal referência aglutinadora. No entorno do templo foram se construindo moradias, surgindo novas ruas, vielas, caminhos. Tanto que nas primeiras décadas do século XX o bairro já estava bem povoado. No Boulevard Visconde de Cauipe, hoje avenida da Universidade, palacetes, sobrados e casarões de variados estilos arquitetônicos competiam em beleza e imponência. O memorialista Vanius Meton Gadelha Vieira nos conta em Ideal Clube – História de uma sociedade que nas vizinhanças da Igreja Nossa Senhora dos Remédios localizava-se o ponto terminal da linha de bondes do Benfica, no fim da avenida Visconde de Cauipe, atual Avenida da Universidade. A partir deste trecho, começava o Caminho de Arronches, atual bairro de Parangaba, onde passava boi, boiada e tanta coisa mais nos rumos da serra e do sertão. Posteriormente pavimentado, esse caminho passou a se chamar “estrada de concreto”, denominada em 1930 de avenida João Pessoa.
Cartão postal do Benfica no início do Seculo XX. Acervo Carlos Augusto Rocha Cruz
Os bondes desaguavam em frente à igreja dos Remédios, de onde voltariam para o ponto principal na Praça do Ferreira. Em Coisas que o tempo levou, Raimundo de Menezes nos conta que o último bonde – uma espécie de corujão ainda puxado a burros – saía do Benfica para a Praça do Ferreira às 21h30m. Quase não havia passageiros nesse horário. Os muares é que decidiam pela hora da partida, alertados pelas batidas do relógio da Intendência, localizado nas cercanias da coluna da hora, sua rival instalada na Praça do Ferreira em 1932. A essa altura, os dois funcionários do coletivo – boleieiro ou condutor e ajudante – dormiam o sono dos justos. Depois dos bondes puxados a burro, vieram os elétricos e, finalmente, as linhas de ônibus. Inicialmente somente circulavam no Centro, estendendo-se posteriormente ao Benfica e ao vizinho bairro do Prado, onde hoje se localiza o Estádio Presidente Vargas.
Casa de cultura Francesa no Benfica. Acervo MAUC. Foto do início dos anos 60
A década de ouro do Benfica parece ter sido a de 1930. Chácaras com quintais ensombrados por filas de mangueiras, jardins magníficos e ruas pavimentadas compunham um cenário bucólico e tranquilo, tão caro à elite da época. A senhora Beatriz Filomeno Gomes, em entrevista concedida ao Diário do Nordeste, destaca que o Benfica era “o bairro mais rico de Fortaleza”. Essa época áurea correspondeu com a presença da família Gentil no bairro. A partir do palacete que deu origem ao atual prédio da Reitoria, o domínio desse clã consolidou-se a ponto de criar um enclave dentro dos limites do Benfica – a Gentilândia. Os limites não oficiais desse sítio são as atuais avenidas dos Expedicionários, 13 de maio, da Universidade e Eduardo Girão. A partir do palacete José Gentil foram construídas vilas de casas para aluguel, além de outros casarões.
Final da linha do Bonde do Benfica e o início da Avenida João Pessoa. Acervo Carlos Augusto
Avenida da Universidade vendo-se ao longe o bonde Benfica
O “feudo” dos Gentis tinha identidade muito bem delineada, a ponto de demarcar local no imaginário da população. Além das mansões e palacetes, tinham clube social e time – o Gentilândia Atlético Clube. Fundado em 1934, chegou a disputar o campeonato da Associação Desportiva Cearense, competindo em pé de igualdade com os grandes da época. No Clube Social Gentilândia aconteciam festas dançantes, matinês e piqueniques à sombra das frondosas mangueiras. Na atualidade, muita gente ainda considera Benfica e Gentilândia bairros diferentes. Oficial, porém, só a nomeação da praça principal do Benfica, que preserva original campinho onde os peladeiros de plantão são obrigados a driblar as mangueiras majestosamente fincadas no campo.
Outras famílias da elite fortalezense da época também se fixaram e escolheram o bairro para fincar suas mansões. Mas nem só de glamour vivia o Benfica. Casas geminadas, bem mais modestas, iam preenchendo as ruas com suas portas avarandadas, janelas e gradis. Por vezes uma entrada lateral espremia um jardim singelo: pés de jasmim-de-leite, rosa-prata, boa-noite. Nos tacos de terrenos menos disputados, vulneráveis a alagamentos ou na beirada dos caminhos iam multiplicando-se casinhas modestas, amparadas umas nas outras em solidário cinturão de cores desmaiadas. Feirantes, lavadeiras, engraxates, cambistas, ambulantes vão demarcando seu lugar no bairro, criando enclaves, sítios, territórios alguns dos quais ainda sobrevivem.

Continua...

*A origem da toponímia do bairro português tem diferentes versões circulantes na tradição oral. Reconto aqui a do cronista Fernão Lopes, anotada no livro Crónica de El-Rei D. Pedro I: Maria Rousada vivia na aldeia de Benfica. Era casada, mas antes do matrimônio, o marido a “rousara” – termo correspondente a estuprara –, vindo daí o apelido “rousada”. Apesar da violência sofrida inicialmente, consta no relato de Fernão Lopes que Maria e o agressor, agora marido, viviam em harmonia – o casal e os vários filhos que tiveram. O crime de estupro, no entanto, era motivo de condenação à morte no Portugal da época. Mesmo tendo o agressor desposado sua vítima, não o isentava de tal punição. Mas como nunca tinha havido denúncia alguma, o marido de Maria ficara impune.Anos se passaram. O assunto era quase sepultado, quando um dia o Rei, em visita a aldeia, ao ouvir o nome da tal mulher ficou curioso e perguntou o motivo do apelido. Os aldeões contaram-lhe a história e imediatamente o soberano exigiu que a lei fosse cumprida, ordenando o enforcamento do esposo da Maria Rousada. A mulher e os filhos rogaram em vão por clemência. Chegado o dia da execução, foi grande a comoção de Maria e seus rebentos, carpindo dolorosamente em cortejo ao condenado. O chororô foi tanto que chocou alguns membros da comitiva real; chegaram a insinuar que o Rei teria sido rigoroso demais. Condoeram-se pela mulher, comentando o quanto ela ficara mal. O Rei não apreciou ser contestado (como todo rei), e em resposta disse: BEM FICA!”. Arranjou um casamento para Maria Rousada e deu-lhe um dote considerável, de modo que ela e seus filhos “bem ficaram”. E a partir desse evento, o lugar passou a ser conhecido pelas palavras proferidas pelo soberano: “BEM FICA”.



Benfica / Arlene Holanda.- Fortaleza: Secultfor, 2015. (Coleção Pajeú)

domingo, 10 de junho de 2018

O Bom Jardim de José Mapurunga - Parte II


Na década de 50, com a expansão demográfica da cidade, Fortaleza ganhava a avenida Perimetral, obra do prefeito Cordeiro Neto, que hoje, em seu trajeto, tem várias denominações e margeia o Bom Jardim na altura do Posto Carioca. Cortando matas que iam do Mucuripe a Barra do Ceará, passando por Messejana, Mondubim, Siqueira e Barro Vermelho (atual Antônio Bezerra), a Perimetral, hoje indispensável, era duramente criticada por políticos e jornalistas de oposição, como obra dispendiosa e sem nenhuma utilidade. Estes a denominavam avenida das onças.

Nesse período, deu-se a compra acelerada de sítios e fazendas existentes nas áreas ainda rurais de Fortaleza, tendo em vista a instalação de loteamentos que atendessem a enorme demanda por moradias. Um estudo de caso do sociólogo Francisco Giovani Pimentel Moreira, focando o capital imobiliário e a produção urbana em Fortaleza entre 1950 e 1970, mostra que no período em foco três grandes imobiliárias praticamente monopolizavam o comércio de lotes nos arredores da cidade: A Imobiliária Waldir Diogo (Praia do Futuro), Grupo Empresarial Patriolino Ribeiro (atual Dionísio Torres e Água Fria) e o grupo comandado por João Gentil (Região do Grande Bom Jardim).

O trabalho de Giovani oferece informações sobre as compras de algumas propriedades que hoje compõem o território do Grande Bom Jardim, pela imobiliária comandada por João Gentil: a compra, em abril de 1957, da propriedade rural de aproximadamente 42 hectares, pertencente a Zeferino Oliveira de Araújo, que foi transformada no loteamento Parque Santo Amaro; a compra a Vicente Souza, em setembro de 1957, de propriedade rural de aproximadamente 08 hectares, que originou o loteamento São Vicente; a compra da Fazenda Bom Jardim, situada no distrito de Parangaba, com uma área de 250 hectares, adquirida do comerciante José Augusto Torres Portugal e transformada no loteamento Granja Portugal.


Na trajetória de seus investimentos imobiliários rumo ao sudoeste de Fortaleza, a imobiliária da família Gentil adquiriu, na segunda metade da década de 1940, os terrenos que deram origem ao loteamento que originou o bairro Pan Americano. Em seguida, em 1949, adquiriu o sítio de propriedade da família da escritora Rachel de Queiroz e implantou o loteamento Pici. Mais tarde, foi a vez do loteamento Bonsucesso. Mais ao sul do Bonsucesso, além das propriedades já citadas, outras foram adquiridas na década de 1950 e início da década de 1960, daí surgindo loteamentos com nomes comerciais, como Granja Bom Jardim, Parque Santa Cecília e Parque Santa Rosa. Tomamos conhecimento que, além de João Gentil, Ivan Carioca também loteou na área terrenos que integravam a fazenda de sua família que hoje compõem o território do Grande Bom Jardim.

Avenida João Pessoa
Para se chegar de carro do centro de Fortaleza ao novo loteamento havia basicamente um caminho: a avenida João Pessoa, conhecida como Avenida da Morte, devido aos acidentes letais que nela ocorriam, de número insignificante para os padrões de hoje. Chegando a Parangaba, que em tudo parecia uma povoação fora de Fortaleza, com suas casas do tempo do império, suas chácaras e sítios verdejantes, a estrada prosseguia no rumo de Maranguape. Na ponte que hoje referencia a entrada para o Bom Jardim, os provenientes de Fortaleza desciam e seguiam no rumo do poente, por um mundo fortemente dominado pelo verdor das matas. Talvez as mesmas matas nas quais o historiador Gustavo Barroso passou, em 1908, quando, a cavalo, vindo do centro de Fortaleza, dirigia-se à fazenda de uns parentes dele nas cabeceiras do Rio Ceará. Talvez os mesmos terrenos nos quais, no século XVII, havia uma fazenda de gados que, segundo a lenda, servia aos holandeses que exploravam as supostas minas de prata da serra de Maranguape.

Alma Sertaneja

Sobre os primeiros moradores do Bom Jardim, com base nas informações sobre a evolução demográfica de Fortaleza, podemos afirmar, com pouca possibilidade de erro, que eram sertanejos pobres que vieram para Fortaleza nos anos de 1950, uma década escassa de chuvas para as lavouras. Ou vieram diretamente do sertão para o loteamento ou tinham passado por outras periferias da cidade antes de adquirirem seus lotes. Eram, portanto, acostumados aos rigores de uma vida sem energia elétrica e água encanada. Chegavam para morar mais próximos das fábricas e de postos de trabalho inexistentes no sertão e que estavam relativamente perto do Bom Jardim, principalmente em Parangaba. Vinham, também, diretamente de sertões próximos e distantes, ou até mesmo de áreas rurais circunvizinhas, buscando um lugar no que adivinhavam ser futuramente parte da cidade. Tornavam-se, assim, quase pracianos, embora mantivessem a alma sertaneja ainda hoje latente na periferia de Fortaleza.

Em análise dos contratos de promessas de compra e venda dos loteamentos iniciais da área, feita por Francisco Giovani, a categoria ocupacional mais citada era a operária. Segundo o mesmo autor, a maioria dos que compraram terrenos tinha salário fixo, de modo que poderiam pagar as prestações do terreno. João Edmilson e Edgar, verdadeiramente podem ser incluídos entre os primeiros moradores do bairro.

Parte I

Fonte: Bom Jardim, José Mapurunga - Fortaleza: Secultfor, 2015 (Coleção Pajeú).

quarta-feira, 6 de junho de 2018

O Bom Jardim de José Mapurunga



Pelo começo da década de 1960, por algum motivo que não me recordo, pus, pela primeira vez, os pés no Bom Jardim. Provavelmente fui com meu pai, que nessa época gostava de comprar lotes de terra nos bairros que iam surgindo em Fortaleza. Eu devia ter uns oito ou nove anos, e as lembranças me chegam hoje como se fossem fragmentos de um sonho recente. Lembro-me de uma casinha de taipa, de um dia ensolarado, e que fiquei exausto depois de uma longa caminhada de ida e volta através de um carnaubal que parecia não ter fim. Lembro-me que a aparência do local contrariou minha expectativa infantil, que era a de um imenso jardim repleto de flores. Depois, mais ou menos em 1969, voltei ao Bom Jardim pela segunda vez com alguns jovens secundaristas do movimento estudantil para uma reunião na casa de um militante residente na área. Dessa época, as mesmas lembranças esparsas de um ambiente rural, pontilhado de casinhas.
Nos anos seguintes, passava ao lado, na ponte sobre o rio Siqueira, quando ia com minha família ou com amigos tomar banho na Cascatinha ou na Pirapora, em Maranguape. Ao olhar à direita, vendo a curvinha que saía da estrada e adentrava na rua Oscar Araripe, eu sentia que ali era a entrada de um mundo especial, algo fora do espaço da cidade onde eu morava e fora dos parâmetros do interior conhecidos por mim.

No início da década de 1980, como assessor da Federação de Bairros e Favelas de Fortaleza em um projeto de alfabetização pelo método Paulo Freire, fui algumas vezes ao Bom Jardim. Aí tive oportunidade de visitar pessoas, caminhar pelas ruas, participar de reuniões e conversar com lideranças comunitárias. Entre estas, dona Débora, uma senhora então quase octogenária, que nas décadas de 1930 e 1940 tinha sido uma destacada e perseguida militante do Partido Comunista Brasileiro. Ela residia em uma casa ladeada por amplo terreno, mais ou menos próxima da pista para Maranguape, atual Osório de Paiva. Escancarando um sorriso sincero, dona Débora nos recebeu, hospitaleira, servindo-nos café e biscoitos em uma longa reunião que tivemos à sombra das árvores do seu aprazível quintal.
As lembranças mais recentes evocam dias de 2008, quando cheguei ao Bom Jardim com o intuito de obter informações para um texto sobre circos que fazem temporadas pela periferia de Fortaleza. Assim, tomei conhecimento que três desses circos naquele momento estavam na área. Visitei um deles. Era um belo exemplo de grupo circense de parcos recursos, constituído por três gerações de uma mesma família, todos multifuncionais, ora atuando como malabaristas, ora contracenando com o palhaço, e fora de cena vendendo roletes de cana aos expectadores. São grupos circenses cujas tralhas são puxadas pelos bairros por Opalas da década de 1970, de poderosos motores. Provavelmente um raro lazer para os moradores da periferia, ao preço de um real a entrada. A lona estava armada no alto de um descampado de onde se avistava serranias de Maranguape, tão próximas e, ao mesmo tempo, inacessíveis.

Sobre a origem do bairro, sabe-se que remonta aos anos de 1961 e 1962, quando um empreendimento imobiliário dividiu uma área rural em lotes. Só isso bastou para que os terrenos começassem a ser vendidos. Foi quando a vasta área foi cortada por largas ruas de barro, que eram tomadas pelo mato no inverno, quando não por crateras provocadas pelas enxurradas. Ou por poças que dificultavam o trânsito de pessoas e dos poucos carros que iam ao bairro. Eram ruas abertas pela prefeitura, pois, conforme a legislação urbana da época, essa tarefa não cabia à imobiliária. Entre o loteamento e as áreas urbanas mais próximas, caso Parangaba, um mundo de matas pontilhados aqui e acolá por casas de sítios ou de fazendas.
Fortaleza, à época, era uma cidade onde os arranha-céus existentes se contavam com os dedos e orgulhavam seus habitantes. A capital cearense era ainda uma cidade onde as lojas, armarinhos e magazines se concentravam no centro e, assim como as muitas bodegas existentes nos bairros, fechavam na hora do almoço. Bairros como Montese, Itaoca, Quitandinha, Parque Americano, Urubu (atual Carlito Pamplona) eram subúrbios imersos em dias que transcorriam iguais, embalados por uma melancólica amplificadora com um repertório de tristonhas canções de amor. Esses bairros, embora não muito afastados do coração da cidade, eram distantes quanto ao padrão urbano em relação ao centro e seus arredores. Era aí que se concentravam cinemas, teatros, escolas, serviços de saúde e companhias imobiliárias, como a que deu origem ao Bom Jardim. Hábito comum entre os moradores dos subúrbios e do centro era colocar cadeiras na calçada e falar bem ou mal da vida alheia.
Um dado interessante é que, pelo censo de 1960, Fortaleza possuía cerca de 500 mil habitantes. No censo de 1950, tinha cerca de 270 mil habitantes. Em dez anos, portanto, quase que dobrou sua população. Esse rápido crescimento demográfico foi empurrado pelos anos secos da década de 1950, o que levou um número significativo de sertanejos a correr para Fortaleza. Foi época de grandes empreendimentos imobiliários para alojar tanta gente vinda do interior. No Bairro de Fátima, avenida Bezerra de Menezes e na Aldeota lotes iam sendo vendidos aos mais ricos, então desiludidos com o interior e atraídos pelo que a cidade grande podia oferecer: universidade para os filhos (a UFC foi criada nesse tempo), clubes elegantes, cinemas luxuosos, além da aproximação física com o poder político. Já o enorme contingente de pobres mais pobres, movido pela necessidade de sobreviver, ia ocupando terrenos na Colônia, Floresta, Ububu, Casas Populares (atual Henrique Jorge), Pan Americano, Pici, Bonsucesso.

Aí está, portanto, o motivo do loteamento que deu origem ao bairro do Bom Jardim, que começou com um empreendimento imobiliário da família Frota Gentil, destinado aos sertanejos pobres que trocavam a agricultura pelo trabalho na indústria e em outras atividades urbanas. Gente que se transferia para Fortaleza na década de 1950 e gente que continuava a chegar às décadas seguintes.




Fonte: Bom Jardim, José Mapurunga - Fortaleza: Secultfor, 2015 (Coleção Pajeú).