Fortaleza Nobre | Resgatando a Fortaleza antiga : Os primeiros moradores do bairro Bom Jardim [notification_tip][/notification_tip]
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Blog sobre essa linda cidade, com suas praias maravilhosas, seu povo acolhedor e seus bairros históricos.


Os primeiros moradores do bairro Bom Jardim


João Edmilson

É um senhor de fala mansa, pausada, que nasceu em Feiticeiro, um distrito de Jaguaribe, no ano de 1939. Aos oito anos de idade já madrugava para tirar leite das vacas de uma fazenda pertencente à família Diógenes, renomados proprietários de terras e criadores de gado da região. Adolescente, dedicou-se a outros cuidados com o gado, e se continuasse no sertão, provavelmente chegaria a ser vaqueiro. Porém, no ano de 1955, sua família, incluindo os avós, pais e irmãos, mudou-se para Fortaleza. Junto com eles, João Edmilson residiu em casas alugadas por diversos recantos da cidade. Lembra-se que morou no Joaquim Távora, depois no Sítio Bom Futuro, depois na Gentilândia e em outros bairros. Em Fortaleza, foi arranjando outras virações, embora vivesse contrariado. É que, no começo, tinha muita vontade de voltar para o interior para lidar com gado, mas aí acabou se acostumando e ficou.
Mais ou menos com 20 anos de idade, casou-se com uma moça de Mossoró, e com ela foi morar no São João do Tauape. De lá, mudou-se para um arrabalde distante, na Rua Maria Tomásia, hoje uma das mais chiques da Aldeota. Foi residindo aí que tomou conhecimento do loteamento no sudoeste de Fortaleza, perto da estrada para Maranguape. Viu que as prestações estavam ao alcance de seus ganhos e fechou negócio. Era o ano de 1962. Feita a compra do terreno, improvisou uma moradia e cavou uma cacimba que, para sua dor de cabeça, deu água salobra. Felizmente, na época, entre as poucas casas da área, circulava carroças com água doce, e ele assim resolveu seu problema de ter água para beber e cozinhar, enchendo os potes todo dia.
Ele não se lembra de quem era o dono da imobiliária que lhe vendeu o terreno, mas recorda-se que pagava o seu carnê todo mês em um escritório no Edifício João Lopes, então um dos raros prédios de muitos andares da cidade, na rua Major Facundo. Conta que, como havia inflação, as prestações do terreno, que eram fixas, ficaram tão baratas que em 1965 ele quitou o terreno.
Estimulado a falar sobre os primeiros tempos do Bom Jardim, ele diz que chegou a comprar uma espingarda para caçar aos domingos, tantas eram as matas e carnaubais então existentes no entorno de sua casa. Conta que, certa vez, passeando por essas matas, trouxe uma saca cheia de atas colhidas por onde passava. Outros passeios lhe deram mamões, mangas e outras frutas. Recorda-se de uma variedade muito grande de passarinhos cantando. Eram galos-campina, sabiás, graúnas, canários da terra, azulões e outros. Perto dele, a sede da fazenda da família Carioca (nas proximidades do atual Posto Carioca). Uma de suas recordações é de uma casa grande, mais ou menos na beira da estrada para Maranguape, hoje avenida Osório de Paiva. O que chamava atenção era o jardim muito bonito dessa casa. Ele sugere que talvez o nome do bairro possa vir daí.
Dos antigos moradores, Edmilson lembra-se de Lourival, um aposentado da estrada de ferro que depois montou dois colégios na área. Nessas escolas, vez por outra aconteciam as festas dançantes da comunidade. Como trabalhava quase no centro de Fortaleza, abastecia-se, vez por outra, no Mercantil São José, na rua Governador Sampaio, que foi o primeiro supermercado de Fortaleza. Mas, no dia a dia, era nas bodegas do bairro que comprava. Dentre os primeiros bodegueiros que abasteciam os primeiros moradores, ele cita Teodomiro, Chicão, Antonio Guarda, seu Quinca, Pedro Rocha, seu Domingo, João Itapajé, Chico Andrade, Tim, Adalberto.


João Edmilson se aposentou em 1997, mas continuou a trabalhar até o ano 2004. Diz que, nos primeiros tempos de Bom Jardim, trabalhava em uma transportadora da Praia de Iracema. Conta que saía de casa com os primeiros sinais da manhã, e quando chegava ao bairro, tinha que andar a pé, na escuridão, até sua residência, porque energia elétrica só chegou ali entre 1973 e 1974. “Era um interior brabo!”, diz, quase inaudível, com sua voz baixa, abafada mais ainda pelo barulho dos carros que transitam no sentido poente/nascente pela rua onde ele reside desde 1962, a Oscar França.

Edgar


Ele nasceu em 1940, na localidade de Urucutuba, distante uns cinco quilômetros do local onde hoje ele reside, no Bom Jardim. Nesse lugar, criou-se. E desde quando passou a se entender como gente, passou a ajudar o pai nas plantações de milho, feijão e mandioca. Seu pai trabalhava em terra alheia e pagava ao dono com parte do que produzia. Era a vida restrita e sem perspectivas dos sertanejos pobres. Sobre esse tempo, ele se recorda das poucas vezes que foi para Fortaleza. Ele diz que pegava a estrada da Urucutuba (atual rua Urucutuba), que no tempo era uma vereda, e seguia em caminhada até a atual Osório de Paiva, daí pegando o ônibus de Maranguape para Fortaleza. Ainda sobre essa estrada, ele rememora que a Urucutuba era apenas uma passagem, pois ela prosseguia até a Tucunduba, local serrano onde se produzia banana, laranja e outras frutas.

O desengano com esse modo de vida deu-se por volta de 1958, quando de uma grande seca, que trouxe muito sofrimento para ele e para outros que viviam da agricultura. Foi quando decidiu buscar outra maneira de ganhar a vida e se mudou de mala e cuia para mais próximo de Fortaleza, indo residir em uma casinha de taipa nas proximidades da atual rua Oscar Araripe, onde já residia um cunhado seu, também retirante da seca, que para o Bom Jardim mudou-se levando as madeiras da casa que possuía na Urucutuba. Foi residindo perto desse cunhado que se casou e se estabeleceu, mudando-se para o atual endereço, na rua Fernando Augusto, no ano de 1965, quando ali tudo era mato, um lugar muito esquisito, sendo criticado pelas pessoas, inclusive pelo sogro, pelo fato de ter construído sua casa em lugar tão desabitado.


Das recordações desses primeiros anos, Edgar fala que nesse tempo foi surgindo casinhas aqui e acolá, a maioria de taipa, porque o povo dizia ser menos dispendiosa, embora mais trabalhosa de se fazer. Vez ou outra, porém, era construída uma casa de tijolos e coberta de telhas compradas nas olarias então existentes na área do bairro que atualmente é denominada de Santa Cecília. Nesses tempos iniciais, raros eram carros cruzando o bairro, exceção dos caminhões que carregavam as madeiras para o forno das olarias. Uma lembrança que guarda desse tempo era ver, na noite escura, à distância, pontos de fogo dos fornos cosendo telhas e tijolos para uma Fortaleza que se expandia para todos os lados.
Nessa época, foi trabalhar na fábrica Siqueira Gurgel, localizada na esquina das avenidas José Bastos com Bezerra de Menezes. Era uma fábrica que produzia, além de sabão, dois produtos altamente consumidos em Fortaleza, o óleo de cozinha Pajeú e a banha de coco Cariri. Ele era um dos que manuseava a máquina de fazer as latas desses produtos, uma máquina grande que imprimia as letras e as pinturas.
Para ir ao trabalho, de madrugada, pegava uma caminhonete na esquina das ruas Oscar França e Maria Júlia. Aos primeiros sinais da aurora, esse carro passava por Parangaba, seguia pela avenida João Pessoa até a Praça da Faculdade de Direito, dobrando à esquerda na rua Meton de Alencar até o fim da linha, no Mercado São Sebastião. Daí, ele caminhava a pé até a fábrica, enquanto os demais companheiros de viagem, comerciantes do Bom Jardim, começavam a abarrotar seus balaios com peixe, verdura, carne seca, rapadura e outros produtos procurados pelos primeiros moradores do bairro. Anos depois, deixou a Siqueira Gurgel e foi trabalhar na fábrica Brasil Oiticica, localizada na avenida Francisco Sá. Trajetória mais penosa, pois o ponto de ônibus do Bom Jardim era na Praça José de Alencar, distante uns três quilômetros da fábrica, caminho que percorria a pé, na ida e na volta, pois o seu salário era pequeno e não dava para pagar dois ônibus todo dia. Chegava em casa quase nove horas da noite, a tempo de comer e dormir, para estar no ponto na madrugada seguinte.
Indagado sobre o lazer dos primeiros moradores, Edgar responde que uma das poucas lembranças que guarda é das festinhas feitas pelo Manoel Engraxate. As danças aconteciam dia de sábado à tarde e domingo à noite.


Para chegar ao local, adentravam em uma vereda ladeada de matas. No mais, a diversão era beber cachaça nos inúmeros botequins que se instalaram na área. Relembra que, nessa época, sempre alguém chegava dizendo que tinham matado um homem ali perto. O povo corria pra lá pra ver quem era o morto e o criminoso, bem como saber detalhes do acontecimento. Eram crimes causados por motivos fúteis, principalmente durante as bebedeiras. Segundo ele, nas imediações do atual Colégio Sebastião de Abreu, aconteceram alguns desses crimes. Acrescenta que esses assassinatos mal afamavam o bairro, porém, na época, embora as ruas fossem escuras e parecessem mais estradas do sertão, não se tinha notícias de assaltos, roubos, drogas e outros malefícios dos dias atuais. Diz que, embora a vida fosse bastante difícil, pelo menos essa tranquilidade estava presente na vida dos primeiros moradores.
Ainda sobre os primeiros tempos, Edgar conta que a maioria dos primeiros moradores veio do interior e que era gente demais vinda dos sertões de Canindé, bem como de Quixadá. Ele se lembra de que, para os lados da área do bairro denominada Santa Cecília, eram muitas carnaubeiras arrancadas no fazer das ruas e nas limpas de terrenos para construir; o povo aproveitando a madeira delas para erguer suas casas. Outra lembrança é que as cacimbas eram fundas e quase sempre não davam boa água. Recorda que um tio seu era proprietário de uma parte das terras compradas pela imobiliária, lugar onde se plantava e se criava bichos. Essas mesmas práticas continuaram nos primeiros tempos, pois havia muito porco, cabra, galinha e até um ou outro morador criava uma vaquinhas, e montado em um burro saía vendendo leite pelas portas. Eram as virações dos que não trabalhavam fora do bairro.
Edgar, em 1984, ingressou no quadro de funcionários do Hospital de Maracanaú, sendo hoje aposentado como funcionário público federal. Tem sete filhos e um deles reside com ele, tendo no terreno da casa (que ergueu em 1965 e que passou por sucessivas reformas) uma gradeada oficina para o conserto de velhos televisores. 



Fonte: Bom Jardim, José Mapurunga - Fortaleza: Secultfor, 2015 (Coleção Pajeú).

Um comentário:

  1. bom dia como encontro o endereço desses moradores. obrigado pela materia

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