Fortaleza Nobre | Resgatando a Fortaleza antiga
Fortaleza, uma cidade em TrAnSfOrMaÇãO!!!


Blog sobre essa linda cidade, com suas praias maravilhosas, seu povo acolhedor e seus bairros históricos.


sexta-feira, 10 de maio de 2019

O Centenário Poço da Draga - Parte II

Poço da Draga na década 70. Site Oficial Poço da Draga.
O caminho pelo traçado das ruas do Poço da Draga revela mudanças paisagísticas e de opiniões das pessoas em relação ao passado vivido por alguns na localidade. Desde a fundação estrutural de residências mais amplas, como sobrados elevados, até o calçamento de ruas em pequenas pedras se percebe, a partir do relato dos moradores mais antigos, como muito se transformou atualmente na paisagem daquele espaço. Nos depoimentos das pessoas mais jovens também se denota como as preocupações com o Poço da Draga mudaram no decorrer do tempo.
No âmbito discursivo, atualmente é impossível conversar com as pessoas do Poço da Draga sem que elas falem sobre o Acquário do Ceará. De forma explícita ou indiretamente, o assunto sobre a instalação do empreendimento é recorrente, principalmente a preocupação com a possível remoção das moradias.
Poço da Draga na década 1970. No registro, vemos Nicolau macaqueiro. Site Oficial Poço da Draga.
Poço da Draga na década 1970. Macaquinhos de seu Nicolau macaqueiro fazendo a alegria da garotada.
 Site oficial poço da draga
Muitos acham que o Acquário do Ceará será “lindo demais para deixar esse Poço da Draga feio permanecer aqui”, relata Bianca (Moradora do Poço da Draga).
É impossível não inferir a todo o momento a questão de uma possível remoção dos moradores do Poço da Draga devido à implantação do Acquário do Ceará. A inquietação sobre a permanência em suas moradias é constante.

Obras do Acquário - O Povo 2019 
Bianca, já citada, é vendedora e sempre esteve engajada na manutenção das moradias do Poço da Draga diante da tentativa de remoção por conta de obras na região. Contudo, ela não é otimista na permanência das residências atualmente. Em vez de acreditar em possíveis transformações nas ruas do local com a pavimentação e saneamento, ela entende que “é mais fácil para o governo tirar o pessoal na marra”. Segundo ela, a beleza do Acquário, para os governantes, impede a convivência com a “favela suja” ao lado, atrapalhando a visão dos turistas.
Poço da Draga na década 70. Escola Comandante Fernando Cavalcanti, que era supervisionada pelas freiras conhecidas como “irmãzinhas”. Site Oficial Poço da Draga.
Poço da Draga na década 70. Escola Comandante Fernando Cavalcanti. Funcionando no antigo Pavilhão Atlântico.
Site Oficial Poço da Draga.
É certo que o percurso pelas vias do Poço da Draga revela incômodos em relação à condição de vida das pessoas diante de moradias precárias. Principalmente devido à falta de saneamento básico nas ruas, a higiene coletiva parece ser afetada com a ausência de tubulações próprias para o fluxo de dejetos. Diante das promessas não cumpridas dos governantes em efetivar essas instalações de esgoto, muitos moradores do Poço da Draga percebem descaso das autoridades que administram a cidade. Bianca corrobora dessa premissa. O raciocínio dela é que “se não colocam nem os canos é porque querem tirar a gente daqui”.
Rua Viaduto Moreira da Rocha hoje. Google Maps
Rua Viaduto Moreira da Rocha hoje. Google Maps.
Rua Viaduto Moreira da Rocha hoje. Google Maps.
Bianca mora em uma das duas principais vias do Poço da Draga, a rua Viaduto Moreira da Rocha. A outra via importante do local é a Travessa Cidal, que é de menor tamanho e transversal à anterior. Conforme ressaltado, em ambas as vias não há asfaltamento das ruas e nem saneamento básico. Há uma pavimentação incipiente, finalizada apenas parcialmente, por pequenas pedras. No Poço da Draga ainda se faz presente uma série de pequenas vielas, sem denominação oficial, que se inserem em direção ao mangue localizado entre as ruas principais e o estaleiro pertencente à Indústria Naval do Ceará (INACE). Os esgotos das residências acumulados em pequenas encanações improvisadas caminham principalmente por essas vielas, onde muitas pessoas trafegam.

Travessa Cidal hoje. Google Maps.
Travessa Cidal hoje. Google Maps.
Travessa Cidal hoje, Google Maps
Há, aqui, uma divisão interna do Poço da Draga percebida espacialmente que se reflete em opiniões entre os moradores mais antigos em relação aos mais recentes. Nas duas vias principais, embora não saneadas e sem esgotamento tratado, se localizam as residências mais antigas. Nas vielas que dão acesso ao mangue se localizam ocupações mais recentes. Os moradores mais antigos chamam essa região próxima ao mangue onde os novos ocupantes se agregaram dentro do Poço da Draga de “Pocinho”. 
Conversando com moradores mais antigos é possível perceber algumas queixas deles para com as pessoas que moram na área do Pocinho. Embora a maioria dos habitantes não tenha posse oficial de suas residências em todo o Poço da Draga, a improvisação de residências no Pocinho chama a atenção dos moradores mais antigos.

Mapa com destaque para as duas ruas principais do Poço da Draga: a Rua Viaduto Moreira da Rocha e a Travessa Cidal. Disponível em: Google Maps
Esboço de mapa onde se localiza o aglomerado urbano do Poço da Draga (à esquerda da avenida, separado pela rua transversal que dá acesso à praia). Próximo a área de mangue se localiza o “Pocinho”, caracterizado por ocupações recentes de novos moradores da região. Fonte: Edson Alencar Collares de Bessa 
Poço da Draga na década 70
Banho improvisado por falta de água encanada.
Site oficial poço da draga
Nascido no Poço da Draga, filho de pais que moram no local há mais de cinquenta anos, o agente de saúde Sílvio, afirma que “o pessoal do Pocinho não respeita os mais antigos, fazem um monte de casinha de papelão aqui e poluem o manguezal”. Sílvio destaca que brincava na região do Pocinho quando era criança. Atualmente não deixa seus filhos pequenos fazerem isso, pois teme pela segurança dos filhos ante a uma possível hostilidade de tais “invasores”.

O aumento da violência e do tráfico de drogas é outro fator alarmado pelos interlocutores como decorrente da ocupação recente do Pocinho. O comerciante Ataíde, afirma que devido à presença dos “forasteiros” do Pocinho, a truculência policial se acentuou nos últimos anos dentro do Poço da Draga. 

A polícia chega aqui e trata como se todo mundo fosse marginal, delinquente. Como se todo mundo cheirasse droga, fosse vagabundo. E não é assim! Aqui tem famílias, pessoal que mora aqui está há muito tempo. Meu pai tem 70 anos de Poço da Draga! Eu nasci aqui e nunca vi tanto desmando da polícia aqui dentro como agora. E a gente pode fazer o quê, me diz? Nada. Por que os “homens” vem aqui dentro do Pocinho pegar os traficantes escondidos de outros bairros lá. Os “playboy” da Aldeota vem aqui pra pegar droga deles também, até filho de político famoso já foi preso lá dentro [do Pocinho] com drogas... Desse jeito, aí que nossa fama com as autoridades vai para o espaço de vez! Eles pensam que aqui todo mundo é igual, que é tudo bandido. (Ataíde, em 08/02/2014).
Foto do livro de Paul Walle em 1912. Ainda não havia qualquer vestígio de moradia na área do Poço da Draga.
Acervo J. Terto de Amorim
Foto aérea de Amélia Earhart sobrevoando o Poço da Draga em 1937. 
Conseguimos observar algumas pequenas embarcações (já existia atividade pesqueira)
e algumas casinhas, ainda surgindo de forma tímida. Nascia assim a comunidade do Poço da Draga.
Ataíde afirma que compreende a situação dos moradores do Pocinho. Porém, ele acha que ali não é lugar para eles. A convivência com insalubridade e condições desfavoráveis de higiene são aspectos que deveriam fomentar alternativas de saída do local para aquelas pessoas. “Morar no Poço da Draga já é difícil e lá é quase impossível”, ele destaca. Segundo o comerciante, as pessoas que moram no Pocinho estão lá mais pela localização do Poço da Draga. “Aqui é perto de tudo, próximo ao Centro e a praia, além de ser uma favela no meio da Praia de Iracema, avalia Ataíde como fator de permanência dos ocupantes do Pocinho.

Ontem e Hoje do mesmo ângulo.
Foto atual: Iago Albuquerque.
O estudante André, cujos pais moram no Poço da Draga há décadas, ressalta que o Pocinho é um “local de discórdia”. Ele afirma que “não há sossego lá” devido ao entra-e-sai de pessoas vindas de outros bairros. Acostumado a frequentar a região do Pocinho desde a infância, André relata que já viu muitos jovens “se perderem” nas drogas e no crime pela influência dos moradores do Pocinho. Em um local com pouca expectativa de emprego e estudos para as pessoas, a criminalidade parece ser uma oportunidade, segundo a avaliação dele. André lamenta a perda de muitos amigos para o “mundo das drogas” e do crime. E no sobressalto entre a presença de ocupantes indesejados e os transtornos causados por eles, André destaca a homogeneização de opiniões externas sobre a totalidade de moradores do Poço da Draga. Nesse ponto ele parece concordar com Ataíde. Contudo, André vai além da ação policial e destaca as opiniões de quem passa pelo Poço da Draga.

As pessoas que passam por aqui nem sequer veem a gente [dentro do Poço da Draga]. Só se for muita atenção mesmo. Por que nós estamos aqui no meio das coisas bonitas para os turistas, eles [provavelmente, os governantes] querem esconder a gente. Esse pessoal vem de fora [os moradores do Pocinho], cometem crimes lá fora e vem se esconder aqui. Quem sofre os assaltos ou tem os filhos presos por estarem com drogas já fica com raiva da gente. E começa todo mundo a falar mal. Eu já vi gente passar na avenida dizendo que tem medo de vir aqui na Praia de Iracema por que tem essa “favelinha” cheia de bandido, que somos nós. (André, em 14/10/2014).

Imagem da década de 60. Vemos a ponte dos Ingleses, a ponte Metálica e a comunidade do Poço da Draga.

Rosa afirma que até uma colunista social de um jornal famoso da capital cearense já publicou um texto afirmando que o Poço da Draga é uma “favela perigosa, cheia de delinquentes”. Contudo, enfatiza que nessa ocasião houve união das pessoas para exigirem direito de resposta a esta colunista. Concedido e publicado pelo jornal, o direito de resposta veio em forma de uma carta redigida por vários moradores do Poço da Draga. Ela interroga “como é que pode uma pessoa que nunca entrou na comunidade falar mal da comunidade? Entendeu? Ainda bem que a resposta veio, pois a gente é assim, a gente não deixa barato não!”.

A localização do Poço da Draga próxima à área litorânea da Praia de Iracema é percebida por muitos moradores como ameaça dessa “cobiça” e “inveja” de muitos, bem como fato preponderante para tentativas de remoção. Embora elas saibam do risco iminente de perderem suas residências, as pessoas que vivem no Poço da Draga têm alguns benefícios quanto a estarem naquele local. Dentre eles, está a proximidade ao Centro da cidade e à praia. Muitos, como Clóvis, nem sequer pensam na possibilidade de sair da região. Isto porque “dá pra fazer tudo a pé aqui, não precisa pegar ônibus pra ir ao Centro e a praia é aqui do lado”, afirma ele. Sílvio brinca com a repercussão de obras¹ na região ao afirmar que “todo mundo tem inveja daqui e queria estar nessa região privilegiada da gente”.

No Centro de Fortaleza se localiza o Posto de Saúde Paulo Marcelo (Rua 25 de março, nº 607), que serve aos moradores do Poço da Draga. Conforme afirmado pelos moradores, a praia é fonte de beleza e lazer a alguns passos da maioria das casas. Os estudantes, em sua maioria de escola pública, tem acesso à educação básica por escolas localizadas também no Centro de Fortaleza. Para os moradores católicos, a arquidiocese que coordena a região do Poço da Draga é a própria Catedral Metropolitana de Fortaleza, fato este enaltecido por alguns, como Bianca. Ela diz com entusiasmo que “aqui [no Poço da Draga] é tão bom que somos abençoados é pelo arcebispo, não é por qualquer padre não”.

Rosa afirma que todos esses benefícios da localização do Poço da Draga são fatores de risco para a permanência dos moradores em suas residências. Embora ela já tenha visto várias tentativas de implantar empreendimentos na região não darem certo, Rosa destaca que as transformações estão ocorrendo gradativamente e, a cada dia, o território do Poço da Draga parece ser mais curto. Ela compartilha as perspectivas de outros moradores mais antigos ao afirmar que “hoje já não me sinto mais aqui como minha praia”. Isto porque “estão sempre inventando coisas para fazer aqui e tirar a gente”.

O que se mostra em face tanto aos fatos históricos quanto aos relatos das pessoas é que as obras constantes (ou suas tentativas) no Poço da Draga parecem sempre estar ligadas às remoções dos moradores. Em vez de uma tentativa de melhoria das condições de moradias das pessoas e valorização do espaço “privilegiado” do local com incentivos para a manutenção de quem está lá há muito tempo, o que se vê é sempre algum movimento para se tentar a retirada. 

Poço da Draga em 1975. Foto Correio do Ceará. Acervo Renato Pires.
O que se observa é a presença, no Poço da Draga, de obras que estimulam melhorias na região de seu entorno e não propriamente no espaço urbano em que se localiza a moradia das pessoas. Ligadas a etapas e períodos históricos distintos, as obras fomentadas por agentes externos (ligados muitas vezes aos órgãos de governança) para a região do Poço da Draga são, em sua quase totalidade, excludentes das pessoas que lá vivem.

Comunidade do Poço da Draga na Praia de Iracema. Década de 80. Acervo Renato Pires.

Leia também a Parte I

¹O contexto que se insere aqui é referente a outra obra que foi projetada para se estabelecer na região do Poço da Draga, o Centro Multifuncional de Feiras e Eventos (CMFE), em 2001.

Crédito: ADERALDO, Mozart Soriano. 1993. História Abreviada de Fortaleza e Crônicas sobre a cidade amada. Fortaleza, CE: Edições UFC./Edson Alencar Collares de Bessa - O Poço da Draga e a construção do acquário/Arquivo Nirez/ROCHA JR., Antônio Martins. 2000. O turismo globalizado e as transformações urbanas do litoral de Fortaleza. Arquitetura e estetização da praia de Iracema. 2000. Fortaleza, CE: Dissertação de Mestrado em Arquitetura, Universidade Federal do Ceará (UFC)./Site Comunidade Poço da Draga/ Jornal O Povo/Acervo pessoal

sexta-feira, 3 de maio de 2019

Capela de Santo Antônio - Templo mais antigo do Mondubim


Fotos Edimar Bento
Foto Edimar Bento
Muitos acreditam que a  Igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro é a mais antiga do Mondubim, mas o templo mais antigo do bairro é a Capela de Santo Antônio, construída em 1879 e, hoje, localizada ao lado do Cuca do Mondubim.

Aos cuidados do Major Antônio Carneiro Monteiro, em 1879, foi construída a capela, batizada com o nome de Santo Antônio, de quem era devoto. Tamanha devoção lhe fez mandar vim de Portugal uma linda imagem do santo, feita de madeira, para a inauguração da Capela, que mais tarde ficaria como patrimônio para sua família.
Foto Edimar Bento
Em meados do Século XX, após o casamento de sua filha Ana Monteiro Mamede com o Sr. Alfredo Paes da Cunha, a igreja veio a pertencer ao casal, que se tornou responsável pela manutenção e conservação da Capela até o falecimento de ambos, em 1927.
Neste mesmo ano, a capelinha passa às mãos da segunda geração do major, através de sua neta Maria Luíza Mamede Cisne. Com o falecimento desta, seus filhos assumem os cuidados com a igreja. São eles: Maria Ana, Maria Lenira, Maria Ione e Joaquim Alfredo, cujo nome foi dado a uma das ruas do bairro.


Na capela estão sepultadas duas crianças da família: Florência Monteiro Mamede (Nasceu em 08 de Outubro de 1884 e faleceu em 14 de Fevereiro de 1888) e Maria Monteiro Mamede (Nasceu em 17 de Setembro de 1888 - três dias após a morte da irmã Florência). Não se sabe a data que a segunda faleceu, apenas que ambas foram vítimas da febre amarela.



Fotos da igrejinha durante as obras do Cuca. Google Street (2012)
Como os descendentes da família se mantinham firmes e fiéis na fé e devoção ao Santo, decidiram, como forma de homenagem, batizar também o sítio da família, que recebeu o nome de Sítio Santo Antônio, hoje, Parque Santo Antônio.
Devido a construção do Centro das Artes (CUCA - Mondubim ) a prefeitura construiu um desvio de acesso ao terminal do Siqueira, causando um grande transtorno aos fiéis de Santo Antônio , ficando difícil o acesso a capelinha.


Fotos Google Street 

Observação: Se você possui foto antiga da capelinha e quer compartilhar com o Fortaleza Nobre, pode enviar para: fortalezanobre@gmail.com

Crédito: Edimar Bento do blog Monumento Arquitetura e Arte.

quinta-feira, 2 de maio de 2019

Colégio Juvenal de Carvalho

A foto, bem antiga por sinal, é provavelmente do colégio recém inaugurado. Acervo Antônio Rosendo.
O colégio foi fundado no dia 26 de abril de 1933, com sede na Avenida João Pessoa, 4279, Damas.
Inicialmente foi inaugurado com o nome de Colégio Maria Auxiliadora, mas no dia seguinte, foi visitá-lo o grande benfeitor que lhe deu o nome de Fundação Cel. Juvenal de Carvalho. No frontispício da casa estava escrito: Colégio Maria Auxiliadora - Fundação Cel. Juvenal de Carvalho. Ficando depois conhecido apenas como Colégio Juvenal de Carvalho.

O Arcebispo Dom Manuel da Silva Gomes com a ajuda do Cel Juvenal de Carvalho e do Cel Ananias Arruda organizaram e acolheram as Irmãs que fizeram parte da primeira comunidade das Filhas de Maria Auxiliadora: Irmã Luizinha Denegri, diretora, Ir. Ester A. Pereira, Ir. Angelina Rossato, Ir. Edith Almeida e Ir. Benedita Zoé Figueiredo.

Importante salientar que enquanto o colégio ficava pronto as Irmãs foram acolhidas na comunidade de Baturité, no Instituto Nossa Senhora Auxiliadora e no Dispensário das Irmãs Vicentinas.
A Irmã Luizinha Denegri, primeira Diretora do Colégio, era natural de Gênova, na Itália. Veio para o Brasil com 22 anos apenas e esteve como Diretora em dois períodos de 1933 a 1938; de 1946 a 1951.

Capela e Colégio Juvenal de Carvalho em dia de celebração (provavelmente da inauguração da capelinha que recebeu o nome de Nossa Senhora Auxiliadora). Foto da década de 30. Arquivo Nirez.
O dia 10 de maio marcou o início do funcionamento do Colégio. O Jornal “O Nordeste” publicou o acontecimento num artigo do dia 15 de maio. Um grupo de uma dezena de crianças encheu o novo colégio.
No dia 1° de junho teve início a escola noturna com trinta jovens. No dia 3 de julho entrou a primeira aluna interna: Thais Frota Souza Pinto, no dia 7, a segunda: Margarida Teófilo Girão e no dia 1° de agosto chegou ao colégio a terceira aluna do internato: Maria Angelita Gomes Gonçalves.

Assim o tempo foi passando e o colégio foi se fortalecendo com o espírito missionário salesiano. Ficou definitivamente com o nome de Colégio Juvenal de Carvalho
Hoje o Colégio funciona com a Educação Infantil, o Ensino Fundamental e o Ensino Médio (diurno e noturno).

O Colégio Juvenal de Carvalho realiza a sua missão integrados como “Comunidade Educativa", com os mesmos sonhos de educação dos seus fundadores São João Bosco e Santa Maria Mazzarello. 

Observação: A Capelinha de Nossa Senhora Auxiliadora, moderna e de amplas proporções, só seria levantada em 1937.



quarta-feira, 24 de abril de 2019

A expansão urbana de Fortaleza: O desinteresse da cidade pelo mar - Parte II

Vista da Praia Formosa na altura do atual Moura Brasil.O trilho levava ao porto na Praia de Iracema. Foto da 1ª metade do século XX. Acervo Carlos Augusto Rocha
Praia de Iracema em 1936. Acervo Lucas Jr
Fortaleza descobre o mar

A partir do século XX, com movimento de tomada de consciência no domínio da literatura, permitiu-se incorporação lenta e gradual das praias, notadamente com a adoção de novas práticas marítimas surgidas na Europa: os banhos de mar, as caminhadas na praia e o veraneio. A considerável faixa de praia de Fortaleza passa a ser o novo ponto de encontro da cidade, além de despertar o interesse dos veranistas mais abastados.
Este lento movimento da cidade em direção à zona costeira cresce no tempo, com a incorporação gradual e progressiva de áreas anteriormente ocupadas por populações pobres, gerando conflitos entre as camadas da sociedade fortalezense, suscitando a expulsão da classe menos abastada. Em Fortaleza constitui-se este movimento no início do século XX, com a descoberta da Praia de Iracema como área de lazer e veraneio.

Praia de Iracema em 1938
A praia ainda era dos jangadeiros.
A valorização do litoral como parte integrante da cidade é algo recente na história do desenvolvimento de Fortaleza. A relação da cidade com o litoral surge a partir da instalação do Porto nas intermediações da Praia de Iracema. Porém, a presença dos moradores mais abastados era evitada, por ser ocupada pela população de baixa renda.
Além disso, a localização da zona de meretrício nas redondezas do Porto, e a ocupação das dunas que margeiam o litoral em direção norte/nordeste por favelas foram, sem dúvida, fatores que levaram durante algum tempo ao desinteresse dos fortalezenses pelo litoral com a finalidade de aí se fixar.

Vista do Cais da Praia de Iracema, então porto de Fortaleza em 1935. Robert S. Platt
Aos poucos o imaginário social dos fortalezenses sobre o mar é modificado em virtude das descobertas de novas práticas marítimas. No Meireles são criados sítios para o tratamento da tuberculose. Uma outra prática marítima diz respeito às serenatas realizadas sobre as dunas próximas a área central da cidade.
Porém, as práticas marítimas citadas não foram capazes de possibilitar a litoralização da zona de praia de Fortaleza, pois o tratamento da tuberculose não aconteceu exclusivamente no litoral e as serenatas eram atividades pontuais de lazer.
Somente com a descoberta de novas práticas marítimas, como os banhos de mar, que o  litoral passa a ser valorizado como lugar de lazer. Este movimento de valorização do litoral muda o olhar da elite de Fortaleza em relação à zona de praia, notadamente a Praia de Iracema, que deixa de ser o lugar da simples contemplação e adquire maior importância com os banhos de mar. Este movimento definirá uma nova caracterização social, demográfica e urbanística desta zona, com o deslocamento da população e a mudança dos usos, resultante da presença de veranistas.
Com a descoberta dessas novas práticas marítimas, a Praia de Iracema passa a competir com outras áreas de lazer da cidade, como a Praça do Ferreira e o Passeio Público.
A Praia passa a ser o lugar da sociabilidade por excelência. Um paradigma de alteridade tão forte que sobrepõe a lógica da centralidade do plano em xadrez de Herbster, reconstruindo a cidade em torno de uma autorreferência do vivido social.

Praia de Iracema na década de 30. Imagens de Bangalôs de frente para o mar. Arquivo Nirez
Acervo Ângela Gurgel
Um fator determinante, que veio facilitar o deslocamento da população para aquela área foi a instalação da linha de bonde na Rua Tabajara em 1927, ligando a Praia de Iracema a área central da cidade, consolidando aquela zona de praia como área de lazer e veraneio.
Um marco do início da fixação de moradia da elite é a construção da residência “Vila Morena”, atual Estoril, do comerciante pernambucano José Magalhães Porto, marcando o início da urbanização da área. Com a chegada da elite, vinda da área central da cidade, para a realização de práticas de lazer e veraneio na Praia de Iracema, a permanência da população de baixa renda passa a ser inviável, devido à especulação imobiliária, aumentando o valor do solo naquela área, gerando expulsão da população pobre.


Acervo Ângela Gurgel
Vale destacar, que a descoberta da praia pela elite não corresponderá a uma reorientação do crescimento de Fortaleza para as zonas de praia, pois se trata simplesmente de uma política pontual de urbanização da Praia de Iracema, em resposta à demanda da população das proximidades por banhos de mar. A partir da década de 1930 a elite passa a construir Bangalôs na Praia de Iracema para desfrutar melhor os banhos de mar. Este tipo de
construção, próximo à zona de descanso das jangadas, mostra a influência da cultura europeia na cidade, expressada não somente na arquitetura, mas também nos hábitos da população.
Praia de Iracema na década de 20.  As mulheres são das famílias Caminha, Pompeu e Moreira Rocha. Arquivo Gerard Boris. Fonte: Livro Ah, Fortaleza (2006).
Acervo Ângela Gurgel
Desde o final do século XIX, a Praça do Ferreira disputava com o Passeio Público à preferência de principal espaço de lazer da classe abastada fortalezense. Até a década de 1930 o entrono da Praça do Ferreira configurava-se como um reflexo da dinâmica da própria cidade, encontrando-se em seu entorno as mais diversas funções. Além dos edifícios representativos do poder público, do comércio, dos hotéis e do setor residencial, a função lazer se manifestava através dos cinemas, cafés e clubes. Porém, com a descoberta do mar pelos moradores mais abastados, estes passam a descobrir a praia como local de lazer e de deleite visual. No que concerne este processo de ocupação da orla marítima de Fortaleza, Rocha Júnior, (1984, p. 4) afirma:

Acervo Ângela Gurgel
A Praia de Iracema, até então local de “jogo de caipira, pinga e facada de pescada” adquire novas funções urbanas. A Praia, constituída por jangadeiros com suas casas de palha, com suas areias muito limpas e repletas de coqueiros, desperta a cobiça dos urbanistas mais abastados.
Um dos primeiros foi o coronel Porto, comerciante vindo de Recife, que em 1926 inaugura o seu palacete eclético, onde hoje funciona o restaurante Estoril. Em torno da casa dos Portos, novos pequenos palacetes se levantam, formando aos poucos um ensaio de feição eclética onde se
destacam os telhados de telha francesa [...]

O interesse pela praia cresce... Praia de Iracema na década de 30.
Bangalôs na Praia de Iracema por volta de 1940, quando o mar começava a destruir as edificações à beira-mar. 
Náutico em 1929, ano de sua fundação. Arquivo Nirez
Essa afirmação evidencia que aos poucos alguns equipamentos de lazer passam a se instalar na faixa litorânea. Já em 1929, o clube Náutico Atlético Cearense tinha sua primeira sede instalada na Praia Formosa, nas imediações da Ponte Metálica. Ao mesmo tempo em que a Praia de Iracema marcava o inicio de sua trajetória como ponto de encontro e recreação da cidade.
Destacando este momento de incremento de equipamentos de lazer, destaca um antigo morador da área, o Senhor Ozarias Ferreira Lima:

Na Praia de Iracema surgiu muita coisa bonita, surgiram muitos balneários naquela época, eles eram ótimos para o fim de semana. Balneário naquela época [1944] eram os locais onde se guardava as roupas e os objetos pessoais, deixava dentro de uma caixa de madeira numerada e descia para a praia. No fim do dia ia lá tomar banho para tirar o sal do corpo, pois lá tinha várias duchas. No período da Guerra, quando o Estoril era para a diversão dos americanos, surgiram vários bares e restaurantes no entorno dele. Havia o Bar São Jorge que mesmo tendo fama de ser meio perigoso [...], atraía gente de todo canto de Fortaleza, principalmente o pessoal que morava ou trabalhava pelo Centro.


Defesa da Praia de Iracema em 1949.
Era visível que a Praia de Iracema vivia seu período áureo. A Praia passa a ser destacada na música e na literatura dado o modo como se inseriu no cotidiano da cidade, Ozarias Ferreira destaca também que:

Quebra-mar da Praia de Iracema.
As jangadas da Praia dos Amores passaram a ter que concorrer espaço na praia com os bangalôs e bares que surgiam a toda parte. Na Ponte Metálica só chegava agora navios enormes, por causa da Segunda Guerra. E quando esses navios chegavam era uma festa, pois como os navios não atracavam na ponte, os jangadeiros eram chamados para ajudar a ir pegar o pessoal que vinham nos navios. A Praia realmente atraía muita gente. A Senador Pompeu e a Barão do Rio Branco eram as ruas que mais facilitavam o acesso dos que estavam no Centro para o Mar. Pela manhã tinha os banhos na praia e as peladas, eu mesmo era do time da rua Dragão do Mar, porque o futebol já era muito popular naquela época, naquela região da Praia tinha o time do América, que era um dos grandes da cidade. A Ponte Metálica além de servir pro porto servia também pra pesca, além de ser muito bom para dar saltos no mar. Naquele tempo não havia essa história de surf por aqui não, a moda era brincar de carretilha, onde a gente pegava um bom pedaço de madeira e ficava deitado nela deslizando nas ondas. A noite tinha as serestas, que varavam a madrugada.
Tudo só começou a piorar quando surgiu os quebra mares, que arrasou com a Praia, no começo não foi tão ruim, porque tinha um quebra-mar que formava uma grande poça d’água quando a maré subia, que a gente chamava de Piscininha.

Praia de Iracema anos 50.
Praia de Iracema em 1982, vendo-se a piscininha. Gentil Barreira
A área do Poço da Draga, destacado por ser uma área de meretrício de Fortaleza, é destacada pela senhora Maria José Ferreira Lima, como um local com pontos de lazer:

Apesar do Poço das Dragas ser esquecido ou deixado de lado por muita gente, acho que pelo fato de as cinzas das caldeiras da Light serem jogadas lá, ia muita gente, ou que morava na Barão do Rio Branco ou que trabalhava na RVC, já que estes tinham mais contato por lá, pois vendiam lenha tanto para a Light quanto para as mulheres que moravam no Curral das Puta. Esse pessoal aproveitava a maré baixa para brincar um pouco na praia, principalmente jogar futebol. A Praia do Paredão, como algumas pessoas chamavam aquela região por causa de um enorme muro construído contornando o estaleiro, nunca atraiu muita gente, mas quem queria encontrava diversão.


As Três Marias - Regina Célia, Bidu Reis e Hednar Martins na Praia de Iracema. Acervo Luciano Hortêncio
Porém, o uso da Praia de Iracema para as práticas marítimas é efêmero, pois com a transferência do Porto do Poço das Dragas para o Mucuripe, além de resultar no abandono e consequente deterioração dos armazéns das Dragas, provocou uma série de problemas ambientais, tendo a área preferencial para banho na Praia de Iracema sendo violentamente atingida pela corrente da costa, resultando na erosão da praia. A privilegiada paisagem praiana é destruída, resultando apenas pequenos trechos da praia com balneabilidade.

Praia de Iracema vendo-se um Bangalô destruído em decorrência do avanço do mar. Fonte: Arquivo Nirez
Os abastados vão buscar na periferia, notadamente a zona leste da cidade, área para lazer e moradia. A respeito das práticas marítimas e a decadência ocorridas na Praia de Iracema entre as décadas de 1940 a 1950, um ex-morador do bairro, Walter Matos, relata:

A Praia de Iracema era uma área muito dinâmica pro lazer. Havia inicialmente maioria de homens, que iam para aquela área em busca de prostitutas, era uma espécie de Passeio Público daquela época. Com o passar do tempo, as mulheres de família passaram a frequentar a Praia dos Amores, só que homens e mulheres tomavam banho em lugares distintos, era falta de respeito um homem tomar banho com a mulher da frente de todo mundo. A Praia de Iracema atraía muita gente do Centro da cidade, pois como o Poço das Dragas, que era pra ser a praia da população do Centro estava quase que todo ocupado com as atividades do Porto, não dava para tomar banho de mar. Principalmente nos finais de semana, o bonde Praia de Iracema, que saía da Praça do Ferreira e ia até a Igrejinha da Praia de Iracema, vinha lotado de gente vinda do Centro que queria passear pela praia, era moda naquela época. Esta ficando tão famosa quanto a Praça do Ferreira. Quando eu era pequeno, ia a Praia para brincar na Piscininha, um espelho de água do mar formado por um paredão de pedra que ficava próximo ao Estoril. Era tudo muito divertido.
Pegávamos um pedaço de madeira e íamos brincar de carretilha na Piscininha, deslizando na água. O ponto de encontro das crianças naquela praia era aquele lugar. Por falar em Estoril, ele tinha uma função muito diferente do que é hoje em dia. Ele servia naquela época como ponto de encontro dos marinheiros americanos no período da 2ª Guerra Mundial.
Todo mundo queira ir lá conhecer eles, pois não era todo dia que aparecia tanta gente vinda de longe com notícias sobre a Guerra, porque as notícias demoravam muito para chegar por aqui, só tínhamos o rádio para saber das novidades no mundo. Tinha gente que dizia ver submarinos e bombas dos alemães na Paria de Iracema. A Praia de Iracema era um lugar muito bom de viver, pena que durou pouco. Muita gente ficou assustada com a força do mar um tempo depois que retiraram o Porto do Poço das Dragas para colocar na Ponta do Mucuripe. As casas da Praia de Iracema que eram muito bonitas, parecendo aquelas que víamos em fotos da Europa, foram todas destruídas pelas ressacas do mar, a Piscininha sumiu e a parte de areia também.

Praia de Iracema em 1953. Livro Caravelas, jangadas e navios - Uma Historia Portuária, de Rodolfo Espínola.
Em meados da década de 50, a Praia e a área central de Fortaleza passam por intensa degradação estrutural, como a falta de pavimentação das ruas, sistema de esgotamento sanitário e coleta regular de lixo.
Essa decadência proporcionou a construção de uma imagem negativa da área. Além da perda do dinamismo recreativo, a praia de Iracema perde sua função econômica. A instalação do porto do Mucuripe resultou também na estagnação do comércio da área em frente ao núcleo central, com o deslocamento dos armazéns e depósitos para as novas docas. Era mais uma etapa no processamento da paisagem litorânea pelo qual passava a praia de
Iracema. Banhistas, clubes e restaurantes ao buscarem ouras praias, traziam de modo mais visível o processo de diferenciação espacial e a segregação residencial pelo qual passa a cidade. Sem a praia do lazer do catraieiro do porto e do prazer dos ricos, passava a ocorrer de modo mais intenso fato semelhante ao que ocorria no espaço urbano de Fortaleza, tendo a partir daquela situação a efetivação das praias dos ricos e dos pobres, distribuindo a população pelo nível de renda.

Praia de Iracema na década de 70. Foto de Nelson Bezerra.
A partir da década de 1970 a Praia de Iracema, através de movimento iniciado na Europa, passa a se fortalecer enquanto área de exaltação as artes e a boemia, com hábitos especificamente noturnos. Essa nova utilização do espaço intensifica-se  a partir dos anos 1980, por meio da instalação de variados restaurantes, dando uma dimensão mais comercial e nova dinâmica para a área, diferenciando-se do domínio residencial da década de 1950.

Primeiro dia de funcionamento do Pirata Bar em 21/11/1986.
Entre essas novas instalações o Pirata Bar, inaugurado em 1986, ganha destaque nacional, com a promoção de festas às segundas-feiras, tendo como principal atração o forró. As festas passam a ter grande divulgação, aumentando o fluxo de turistas para a Praia de Iracema.
Na década de 1990, novos equipamentos paisagísticos e de lazer da cidade, como a reforma da Ponte dos Ingleses, o calçadão e o Centro Dragão do Mar surgem no contexto de revalorização da Praia de Iracema, reconfigurando um cenário urbano com o objetivo de espetacularização com vistas ao turismo.

Nesses períodos mencionados, a área central de Fortaleza passa a amargar um expressivo abandono em suas atividades, pois estas eram voltadas para uma demanda populacional que passa a não mais frequentar a área. Com a não permanência de moradores mais abastados, devido o mesmo passar a ter uma função social voltada agora predominantemente para as atividades comerciais da classe menos abastada, se tem uma cisão entre esta área com as práticas marítimas.


Leia também a Parte I


Fontes: A cidade e o mar: considerações sobre a memória das relações entre Fortaleza e o ambiente litorâneo - Fábio de Oliveira Matos. 
DANTAS, Eustógio Wanderley. Mar à vista: estudo da maritimidade em Fortaleza. Fortaleza: Museu do Ceará/Secretaria de Cultura e Desporto do Ceará, 2002. 
BARROSO, Gustavo. Terra do sol: natureza e costumes do Norte. Rio de Janeiro: Benjamim Aguila, 1912.  
LINHARES, Paulo. Cidade de água e sal: por uma antropologia do litoral do Nordeste sem cana e sem açúcar. Fortaleza: Fundação Demócrito Rocha, 1992.

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