Fortaleza Nobre | Resgatando a Fortaleza antiga : Praça Fernandes Vieira
Fortaleza, uma cidade em TrAnSfOrMaÇãO!!!


Blog sobre essa linda cidade, com suas praias maravilhosas, seu povo acolhedor e seus bairros históricos.
Mostrando postagens com marcador Praça Fernandes Vieira. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Praça Fernandes Vieira. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 17 de maio de 2011

Praça Gustavo Barroso - A Praça do Liceu

A Praça Fernandes Vieira foi inaugurada em 07 de março de 1940, após remodelação e ajardinamento.

A então Praça Fernandes Vieira. Foto em direção ao norte, estas duas casas deram lugar a um bloco de apartamentos. A rua à esquerda é a Avenida Filomeno Gomes. Hoje é a  Praça Gustavo Barroso. O ano dessa foto é entre 1940 e 1943 - Arquivo Nirez

Um vento carregado de mar assobia entre as construções. Corta o calor do meio dia, levantando as folhas deitadas ao chão e também as saias das meninas. Os pássaros cantam enquanto os alunos gritam festejando o fim das aulas. De um canto, pouco mais à margem, vem um cheiro bom de comida feita na rua. Os carros passam, as motos buzinam e os ônibus tomam a frente de todos. O som agudo de uma sirene irrompe no espaço e identificamos o que lhe é particular. Vem do quartel do Corpo de Bombeiros.
Logo, veículos saem rapidamente e enfim reconhecemos a personalidade da praça.




Estátua de Gustavo Barroso - Livro Geografia Estética de Fortaleza de Raimundo Girão

Em 1945, o Liceu do Ceará teve sua administração transferida para as proximidades da então Praça Fernandes Vieira. Ainda que, com o passar do tempo, tenha havido mudança de nome para Praça Gustavo Barroso, sela-se a “vox populi”. Não importando qual o nome – aliás, quem sabe o verdadeiro nome da praça? - todos a conhecem somente como a "Pracinha do Liceu".


Antiga Praça Fernandes Vieira

Próxima ao Centro de Fortaleza, a pracinha do Liceu foi, e ainda é, ponto de encontro de pessoas das mais variadas classes sociais. No passado, recebera em seus bancos alunos do Liceu, hoje personalidades ilustres. Ainda continua a receber os alunos do colégio, mas muitos com perspectivas de um futuro não tão ilustre. 

Aprendizes de marinheiros vindos de todos os locais do país, moradores das redondezas, transeuntes, trabalhadores, idosos e pessoas que simplesmente gostam da praça. Enfim, todos os tipos e estereótipos, passam, sentam, encontram-se, fazem sua história nas calçadas da praça.

Foto do dia 31 de agosto de 1962 - Inauguração do monumento à Gustavo Barroso com as presenças de Luis Sucupira, Raimundo Girão, Albano Amora e Mozart Soriano Aderaldo - Arquivo Nirez

Em 1965, os restos mortais de Gustavo Barroso foram depositados aos pés da estátua, em cumprimento ao desejo do próprio homenageado. Agradecimento: Isabel Pires

Pela manhã, colorem suas calçadas os que começam a preparar as barracas para mais um dia de labor, os esportistas amadores, o jardineiro e os vizinhos do largo. Mais ou menos às 11:30 h, o toque avisa o término da aula. Os estudantes saem em multidão, rapidamente a praça fica tomada pelos que preferem ficar mais um pouco para bater um papo. Os bancos de concreto são ocupados por casais de namorados, os alunos reúnem-se à mesa de
pingue-pongue para o jogo. Para os que querem matar a fome, opção é o que não falta. Há duas barracas na praça servindo lanches, refeições e todos os tipos de petiscos.

A barraca do Silvestre*, localizada quase ao centro da praça e bem de fronte à saída do colégio, é a mais popular. São 25 anos enchendo o paladar de visitantes, famílias e dos trabalhadores das redondezas. O proprietário, Silvestre Neto de Oliveira Mota de 55 anos, é o caixa e afirma: “A praça é tranquila. Nunca fui assaltado. Dificilmente aparece algum menino se queixando de roubo de celular.”
A concentração da praça se volta para a barraca do Silvestre. Ninguém se preocupa com a vestimenta. O que mais chama à atenção são as opções de pratos. As mesas brancas dão lugar aos que saem da fila de pagamento. Os mais despojados estão de boné, sandália rasteira e, quase sempre, ficam sem camisa. Já outros, que trabalham por perto, usam uniformes. Cada um escolhe onde quer ficar.
Um casal maranhense almoça, tranquilo. E, em meio a tanta conversa, não percebe quem está mais interessado na comida: o cãozinho do casal. 

A companhia mais inesperada vem do céu. São os pombos que se alimentam de todas as migalhas que caem ao chão.



As árvores e as plantas, que embelezam os canteiros, recebem cuidados especiais.O responsável por manter o verde da praça é o jardineiro Francisco Monteiro da Silva de 37 anos. Sozinho, ele cuida das plantas e está atento a todo movimento da praça “Sempre some alguma placa. Já roubaram a placa da estátua do Gustavo Barroso e, recentemente, sumiu a placa que informava a última reforma da praça na gestão da prefeita Luizianne Lins, comenta o jardineiro, chamando a atenção para o descaso do policiamento durante o dia. Vestindo um uniforme verde, com a esperança de um dia o descaso acabar, o jardineiro molha a terra e ao mesmo tempo conversa com um menino descalço que se aproxima. Ele não se importa em dar atenção à curiosidade do garoto. A água é espalhada pelos canteiros dando vida às plantas. O dia ensolarado também ajuda o trabalho de Francisco. Quando se sente cansado, senta em um dos bancos, acomoda -se, tira um cigarro do bolso e passa a fumar pensativo. Vira a cabeça de um lado para o outro. Nada o tira a concentração, pois os 10 minutos servem para pensar na vida e contemplar a beleza da praça.


11 de agosto de 1944 - Inauguração do busto do Padre Antônio Tomás na Praça do Liceu

O nome que batiza a praça é em homenagem ao ex liceísta Gustavo Barroso. Advogado, professor, político, contista, folclorista, cronista, ensaísta e romancista, nasceu em Fortaleza, em 29 de dezembro de 1888, e faleceu no Rio de Janeiro, em 3 de dezembro de 1959. Em 8 de março de 1923, foi eleito para a Cadeira n.º 19 da Academia Brasileira de Letras, na sucessão de Silvério Gomes Pimenta.
Foi redator do Jornal do Ceará (1908-1909) e do Jornal do Comércio (1911-1913); professor da Escola de Menoresda Polícia do Distrito Federal (1910-1912); secretário da Superintendência da Defesa da Borracha, no Rio de Janeiro (1913); secretário do Interior e da Justiça do Ceará (1914); diretor da revista Fon-Fon (a partir de 1916); deputado federal pelo Ceará (1915 a 1918); secretário da Delegação Brasileira à Conferência da Paz de Venezuela (1918-1919); inspetor escolar do Distrito Federal (1919 a 1922); diretor do Museu Histórico Nacional (a partir de 1922); secretário geral da Junta de Jurisconsultos Americanos (1927); representou o Brasil em várias missões diplomáticas, entre as quais a Comissão Internacional de Monumentos Históricos (criada pela Liga das Nações) e a Exposição Comemorativa do Centenário de Portugal (1940-1941). Em honra à sua memória, ao centro da praça, ergue-se sua estátua que, a mercê do vandalismo e do descaso das autoridades, jaz pichada e sem a placa que lhe identificava.

As instalações do Corpo de Bombeiros, ao lado da praça, comemoraram 76 anos no dia 7 de setembro de 2010. As dependências do prédio vermelho, já serviram e ainda servem, eventualmente, de prisão. Pela livre expressão, a escritora Rachel de Queiroz foi mantida presa na época da ditadura. O preso mais recente é o juiz Pedro Percy que matou um vigilante na cidade de Sobral.



Foto de Chico Monteiro

A frase, “Corpo de Bombeiros Militar – Liceu do Ceará. Somos fortes porque somos unidos”, está pintada na lateral do colégio, em frente ao quartel dos Bombeiros, para lembrar o comando do coronel Leonel Pereira de Alencar Neto - 1995 a 2000. Os 5 anos foram marcados por uma parceria entre o Corpo de Bombeiros e o Liceu do Cearáquando foram ministradas palestras, a pintura das dependências do colégio e a poda das árvores. Com a mudança de comando, a ajuda ficou restrita ao socorro em caso de emergência, ressalta o cabo Sena, de 33 anos.

A vida desbrava na praça. Se durante o dia é parada certa para os que passam em seus arredores, à noite é reduto de uma alegria e lazer insondáveis. De tantas reformas sofridas, a última trouxe de volta o brilho das lâmpadas de néon e o calor de famílias, amigos e namorados que aproveitam o cair da noite para se deliciar com uma agradável brisa sob as estrelas.



Foto do livro Fortaleza Somos nós - 1994

As crianças correm, brincam, andam de bicicleta, jogam bola, ressuscitam os velhos pega-pega e esconde-esconde, mas gostam mesmo é do pula-pula e da cama-elástica. De quinta a sábado, das 17:00 às 23:00, Carlos Henrique faz a festa da criançada. Dono dos brinquedos, ele já está há seis anos na praça e gosta muito de ver a molecada pulando e dando cambalhota.

Bruno Azevedo, 21 anos, filho do vizinho Piauí, formando da Escola de Aprendizes de Marinheiros, vê na praça um ponto de encontro com os amigos. A diversão é garantida nas quadras, onde participa das boas e velhas peladas. “Também é bom usar os equipamentos de ginástica. A gente sai da escola e vem se exercitar aqui. Rola um clima de descontração e uma paquera com as meninas que vêm e vão”, afirma o jovem marinheiro, que está de partida para o Rio de Janeiro, após onze meses em Fortaleza, mas promete voltar. “A cidade é muito boa. Gente bem humorada, brincalhona. Vou voltar sempre que puder!”

A barraca do Silvestre também abre para a vida noturna. Agora, porém, a clientela tem outras exigências. Longe da pressa do dia, as pessoas que vêm à praça querem sentar, conversar, tomar uma bebida e relaxar. Mas a concorrência não dá mole. Barracas de caipirinha espalham-se pela praça e conquistam um público fiel, com o bom papo e a simpatia de quem está por trás do balcão.

Mas ir à pracinha do Liceu e não tomar um caldo de cana com salgado, é como ir à Roma e não ver o Papa! Há dez anos, com um preço sempre convidativo, Aki Lanches faz história.
A lanchonete está bem em frente à praça, especializada em caldo de cana geladinho e feito na hora. Às vezes, a quantidade de clientes é bem maior do que os dois únicos atendentes podem dar conta. “Tem horas que o negócio aqui é estressante. Só tem dois pra atender, receber o dinheiro e fazer o caldo. Quando está muito cheio a gente tem que ficar ligado, pois o pessoal pode ‘vazar’ sem pagar”explica Luís, irmão de Farias, o dono da lanchonete.




“Em geral, aqui fica cheio entre seis e oito da noite. É muita gente mesmo! Nós pedimos o dinheiro adiantado para evitar os engraçadinhos, mas sempre tem um esperto que ‘passa a perna’. O preço de R$ 0,50 por um copo de caldo e um salgado chama muita gente. Principalmente o pessoal de baixa renda”.
Entre salgados, copos, a moedeira e os pedaços de cana, uma mochila pendurada bem ao centro da lanchonete chama a atenção. Com o logotipo da Marinha bordado, a mochila é produto da confecção que lá funciona. “A gente faz todo tipo de fardamentos e acessórios. Mas o que dá dinheiro mesmo é o lanche”, afirma Luís.

A bela vista da praça é complementada pelas construções que a rodeiam. Casarões antigos, com arquitetura colonial, propriedades do patrimônio histórico de Fortaleza, lembram-nos de que no passado, o bairro fora o reduto das elites.

Seja pelas pernas das meninas que desfilam de minissaia, pelos corpos malhados dos jovens que jogam bola, pelas crianças que vem e vão, pelas pessoas que se sentam para colocar a fofoca em dia, a Pracinha do Liceu transborda em vida. O preconceito de que é um reduto de marginais cai quando pisamos em sua calçada. Todos os tipos de pessoas vão à praça, mas sempre com saudáveis objetivos: descontrair-se, relaxar e admirar a beleza que a praça esbanja. De dia ou de noite, aqui se respira vida.


Islene Moraes


* Silvestre não trabalha mais na praça! :/




quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Liceu do Ceará - II parte


Liceu Inaugurado em 7 de setembro em homenagem a independência do Brasil.

Liceu vem do grego lykeion, escola filosófica com ênfase para ciências naturais criada por Aristóteles em 336 a.C., rival da Acadêmica Platônica.
O Liceu de Aristóteles se tornou um modelo de ensino do antigo curso de humanidades, de modo a inspirar o estabelecimento de várias instituições de ensino, principalmente o ensino secundário e o profissionalizante, que em justa homenagem, recebem o nome de Liceus.

O Liceu do ceará é o terceiro colégio mais antigo do Brasil e, mesmo tendo passado por várias crises, comemorou seus 165 anos ininterruptos de funcionamento. 

Foto aérea

Foi criado no período imperial (século XIX), assim como alguns colégios contemporâneos de outras províncias, inspirado nos moldes do Colégio Dom Pedro II, uma instituição-modelo de ensino criada em 1837 no Rio de Janeiro, então capital do império. No intuito de agregar cadeiras já existentes e facilitar a inspeção do ensino público no Ceará, em 15 de julho de 1844, o presidente da província, Marechal José Maria da Silva Bittencourt sancionou a lei n.º 304, criando oficialmente o Liceu:

“Art. 1º - Fica creado nesta capital um lycêo que se comporá das cadeiras seguintes: phylosophia racional e moral; rethorica e poética; arithmetica; geometria; trigonometria; geografia, e historia; latim, francez e inglez.” 


Liceu do Ceará na atual Praça Gustavo Barroso, nova sede definitiva do Liceu que para lá mudou-se no dia 07 de setembro de 1935, quando a praça ainda tinha o nome de Fernandes Vieira. Depois ele ganhou acréscimos em ambos os lados, indo até as ruas Oto de Alencar e Av. Filomeno Gomes. Nirez

As atividades escolares tiveram início em 19 de outubro de 1845, com 98 matrículas, sob direção do Dr. Thomas Pompeu de Souza Brasil, o Senador Pompeu. O curso secundário tinha duração de 6 anos e, de início, as aulas eram ministradas nas próprias casas dos professores. Somente em 15 de março de 1894, no governo do Coronel Bezerril Fontenele, foi inaugurada a sede própria do Liceu, à Praça dos Voluntários, no centro de Fortaleza.

Sede do Liceu na Praça dos Voluntários, Centro de Fortaleza - 1894


Desenho de Gustavo Barroso, ex liceísta

No tempo em que o Liceu foi criado, Fortaleza era uma pequena cidade com pouco menos que 5.000 habitantes, resumindo-se a poucas ruas no centro da cidade. Nessa época, os colégios eram privilégio da elite. Não apenas porque os colégios eram poucos, mas também pelos custos que representavam a uma sociedade pobre em recursos. Além disso, na época era comum em colégios públicos a cobrança de taxas, como ocorria inclusive no Colégio Dom Pedro II, que reservava poucas vagas para pessoas que não tinham condições de pagar.


Arquivo Nirez

Com o crescimento da cidade e o surgimento de novos colégios, como a Escola Normal, o Colégio São João, Colégio Fortaleza, o Cearense, São José, entre outros, o ensino secundário foi se democratizando em Fortaleza, e inclusive no Liceu, que no século XX, passou a ter maior abertura para alunos pobres e oferecer o ensino misto, pois durante muito tempo foi um educandário estritamente masculino. As moças estudavam na Escola Normal.

Todos os ex-liceístas que estudaram até a década de 50 lembram o rigor da disciplina no Colégio. Os alunos só entravam no colégio de fardamento completo: calça, camisa com os 7 botões fechados e quepe. Numa época em que os costumes da sociedade eram muito mais rígidos, a disciplina marcou profundamente o Liceu. Qualquer deslize era motivo de punição. 

Foto do antigo prédio do Liceu, na Praça dos Voluntários. Livro 'O Liceu que conheci'. Acervo Renato Pires

Para ajudar o diretor e os professores no controle da disciplina, existiam os bedéis (inspetores), que fiscalizavam o fardamento dos alunos na entrada do colégio, faziam a chamada em sala e circulavam pelo colégio observando o comportamento dos alunos. Blanchard Girão, no seu livro “O Liceu e o Bonde” relata que os bedéis, extremamente fiéis, delatavam as travessuras dos alunos para o diretor até fora do colégio; e quando não era mais possível suspender um aluno, por ter feito travessuras depois das provas finais, a suspensão vinha no início do ano letivo seguinte. 

Correio do Ceará, 19/10/1979. Acervo Lucas

Mesmo toda a disciplina da época não conseguiu anular as criancices dos alunos, e até os mais ilustres ex-liceístas cometeram suas travessuras: aplicaram trotes, fugiram do colégio para matar aula, aprontaram com os bedéis, professores e outros alunos, fizeram pichações, e reuniram-se para fumar no banheiro.

Mas nada disso os impediu de tornarem-se admiráveis seres humanos, uma vez que estavam cercados pela elite cultural cearense e tinham formação da mais alta qualidade.

Liceu do Ceará nos anos 60, quando da inauguração da estátua de Gustavo Barroso.

Os professores do Liceu eram os melhores do estado e, às vezes, até de fora, pois para ser professor catedrático do Liceu era necessário passar por um rigoroso concurso público, tendo que defender tese e mostrar todo seu conhecimento e integridade moral. Além disso, os professores trabalhavam motivados: eram amplamente respeitados e admirados pelos alunos e o resto da sociedade. Ser professor era uma das mais nobres profissões e os salários dos professores equiparavam-se aos de desembargadores.

A escola funcionava e a educação realmente acontecia pois os professores eram bons, trabalhavam motivados e os alunos tinham interesse em aprender. Esses recebiam uma formação multidimensional. Além das aulas teóricas de português, matemática, história, biologia, etc, tinham aulas de música, praticavam esportes olímpicos, tinham formação política extracurricular e um grande crescimento pessoal devido à convivência com alunos de diferentes classes sociais.

Parte interna do Liceu. Foto de 1971. Acervo José Airton de Melo

Sala de aula do Liceu do Ceará. Acervo Aspasia Soares

Como diz Blanchard Girão, o Liceu era um espaço de politização e mobilização estudantil, uma vez que os professores já admirados pelos alunos, tinham total liberdade para discutir com os alunos os assuntos mais polêmicos da atualidade. O Liceu formava então alunos politizados e também atuantes. Era comum ver os alunos do Liceu em passeatas agitadas pelo centro de Fortaleza, protestando contra o aumento dos salários dos deputados estaduais, à favor da anistia de presos políticos ou contra o nazismo, durante a segunda guerra mundial.

Alunos do liceu na época da II Guerra Mundial em passeata a favor da democracia e contra o fascismo.

Por tudo isso, até a metade do século XX, o Liceu foi o expoente da educação no Ceará. Matricular-se no Liceu era tanto quanto ser aprovado no vestibular. Os alunos tinham orgulho de vestir sua farda. O liceu se projetava em todos os planos: tinha o melhor corpo docente, os melhores estudantes, o maior índice de aprovados em vestibulares, campeão de olimpíadas estudantis, vitorioso nas paradas cívicas da Semana da Pátria, a tinha a melhor banda, além de ex-alunos bem sucedidos nas mais diversas profissões no Brasil e no exterior.

Tamanho era o privilégio de estudar no Liceu, que os veteranos rotineiramente aplicavam trotes aos novatos, que eram chamados de bichos-fedorentos, como ilustra Gustavo Barroso, ex-liceísta do início do século XX, no seu livro Liceu do Ceará:

“Não houve bicho fedorento que escapasse totalmente aos trotes dos desalmados veteranos do Liceu. Todos fizeram discursos bestialógicos trepados na margela do cacimbão da praça, em riscos de cair lá dentro. Todos subiram ao cocuruto do chafariz Wallace, para fingir de estatua. Todos se escancharam nos galhos das árvores e fôram cassados a caroços de monguba, como guaribas. Um dia encheram de estrume fresco de cavalo o boné de xadrezinho que eu trazia do colegio e m’o enterraram até as orelhas. Lavei a cabeça, mas o boné ficou imprestavel e teve de ir para o lixo.”


Com toda sua qualidade de formação dos alunos e seu ambiente de erudição, o Liceu produziu inúmeros intelectuais, políticos, escritores, jornalistas, médicos, empresários, desportistas e músicos de projeção nacional e internacional – personagens importantíssimos da história de Fortaleza, do Ceará e do Brasil. Entre eles: Adolfo Bezerra de Menezes, Guilherme de Studart (Barão de Studart), Gustavo Barroso, Rodolfo Teófilo, João Brígido, Clóvis Beviláqua, Eleazar de Carvalho, Raimundo Girão, César Cals de Oliveira, Farias Brito, Plácido Castelo, Perboyre e Silva, Parsífal Barroso, Antônio Girão Barroso, Paes de Andrade, Edson Queiroz, Blanchard Girão, Fausto Nilo e Belchior. Além do “Bando Liceal”, do qual surgiram bandas de ex-alunos como “Quatro azes e um coringa” e os “Vocalistas Tropicais”, que fizeram sucesso em todo Brasil nas décadas de 40 e 50.

Hoje o Liceu é mais um colégio da rede estadual de ensino público. Oferta o curso de Ensino Médio – EM e funciona nos três turnos. Pela manhã e pela tarde, são em média 9 turmas por série (1º, 2º e 3º ano) e duas turmas de pré-vestibular. Pela noite, há 5 turmas de cada série e 6 turmas de pré-vestibular. No total são 30 turmas de manhã, 29 de tarde e 21 de noite. Cada turma possui no máximo 40 ou 60 alunos, dependendo do tamanho da sala. Devido à evasão, no período diurno as turmas possuem em média 40 a 50 alunos, e no período noturno, no qual a evasão é maior, possuem em média 30 a 40 alunos.



Saiba mais:


No dia 15 de Julho de 1844 é criado o Liceu do Ceará, pela lei nº 304, sancionada pelo presidente José Maria da Silva Bittancourt, e que se instalou no dia 19/10/1845, tendo como primeiro diretor Tomás Pompeu de Sousa Brasil.
É, no gênero, o 4º estabelecimento de ensino mais antigo do Brasil.
Em 1843 a Assembléia Legislativa Provincial votou o projeto que instituía o Liceu, sob nº 12.
Foi-lhe negada sanção e o projeto voltou para a Assembléia.
Novamente votada sem os artigos que a fizeram voltar, surge a Lei nº 304.
Para instalar o Liceu era necessário um prédio e foi alugado um pertencente a Odorico Segismundo de Arnaut, na esquina da Rua Dr. João Moreira com Rua Major Facundo, em frente ao Passeio Público, local hoje ocupado pelo prédio da Associação Comercial do Ceará.
Em seguida (1848) o Liceu passou para uma das frentes do prédio da Tesouraria Provincial, na antiga Avenida Sena Madureira, hoje Avenida Alberto Nepomuceno, entre o quartel e a praça, prédio onde funcionou uma tipografia do Governo, o Liceu do Ceará, o Correio e depois foi ocupado pela Biblioteca Pública, o Arquivo Público, o Museu Antropológico, Instituto do Ceará e, por fim, demolido para a construção do fórum Clóvis Beviláqua, que foi implodido, indo para a Avenida Washington Soares, na Água Fria, sendo construído no local o restante da Praça Caio Prado (da ).
Até 1894 o Liceu andou por vários prédios públicos ou particulares, inclusive a Santa Casa e o antigo quartel da Força Policial até que no governo do coronel José Freire Bezerril Fontenele (Coronel Bezerril) teve prédio próprio, inaugurado solenemente no dia 15 de março, na Praça dos Voluntários, embora fosse uma construção onde antes esteve o Batalhão da Força Policial.
Em 07/09/1935 ganhou nova sede própria, a atual, na antiga Praça Fernandes Vieira, hoje Praça Gustavo Barroso, prédio construído pelo Escritório Clóvis de Araújo Janja.



Fonte: Portal do Ceará

NOTÍCIAS DA FORTALEZA ANTIGA: