Fortaleza Nobre | Resgatando a Fortaleza antiga : Março 2014 [notification_tip][/notification_tip]
Fortaleza, uma cidade em TrAnSfOrMaÇãO!!!


Blog sobre essa linda cidade, com suas praias maravilhosas, seu povo acolhedor e seus bairros históricos.


quinta-feira, 27 de março de 2014

A Saga dos Jangadeiros - Uma nova aventura



"...Eu contei um fato que me causou grande impacto na infância: a chegada à Porto Alegre de uma jangada tripulada por cinco jangadeiros, vindos do distante Ceará, lugar que eu mal podia imaginar como seria.
Aos olhos dos gaúchos, os veteranos e bronzeados navegantes nordestinos chefiados pelo lendário Mestre Jerônimo, surgiram (com justiça) como verdadeiros heróis, como se tivessem descido do espaço, vindos de outro planeta. E durante alguns dias, só se falou deles, com justa admiração.
Mas quando, 60 anos depois, resolvi escrever sobre este fato, fiquei surpreso com a quase total falta de informações sobre o assunto, como se aquilo nunca tivesse acontecido!"



Passados dez anos da viagem dos jangadeiros cearenses ao Rio de janeiro, sede do governo Federal, eis que novamente dos “verdes mares bravios”, parte uma nova jangada, dessa vez batizada de Nossa Senhora de Assunção.
O Presidente da Republica era, mais uma vez, repetindo 1941, Getúlio Vargas, que agora estava no poder em um regime democrático e eleito pelo voto dos brasileiros, com expressiva votação entre os operários.
A bordo da Nossa Senhora de Assunção, o mesmo mestre Jerônimo (com 52 anos), o sexagenário Raimundo Correia Lima, o Tatá (com 62 anos), e Manuel Pereira da Silva, o Manuel Preto (com 49 anos), antigos companheiros de Jacaré¹, que fizeram com ele a viagem até a capital da República, a bordo da jangada São Pedro, em 1941.
Mais dois vieram juntar-se aos veteranos: eram os pescadores Manuel Lopes Martins (59 anos) e o sobrinho de Mestre Jerônimo e mais novo do grupo, Manuel Batista Pereira (com 30 anos), a quem o jornalista do Unitário (14/10/1951) descreve como “moço e forte como um touro”.

Na viagem de 1941, se Jerônimo exercia a função de mestre, isso parecia se limitar ao saber técnico indispensável para guiar com segurança a jangada, já que os jangadeiros na época não utilizavam qualquer aparato técnico para orientação, a exemplo da bússola, astrolábio ou carta de navegação. Uma jangada, sendo uma embarcação a vela, movimenta-se, principalmente, pela ação do vento, mudando a posição da vela de acordo com o sentido dos ventos. Aliás, esse saber e o desprezo por aqueles instrumentos eram motivos de assombro por todos que toparam com os jangadeiros da São Pedro, ao longo da costa brasileira.
À admiração de seus contemporâneos, os pescadores respondiam com larga risada, dizendo que os pescadores se guiavam mesmo pelas estrelas.

Em outubro de 1951, os cinco tripulantes da jangada Nossa Senhora de Assunção, partem rumo a Porto Alegre, levando na bagagem, além dos apetrechos necessários a tão longa e arriscada travessia, memoriais contendo a reivindicações da classe. Mas, como disse Mestre Jerônimo a um jornalista, não iam pedir nada de novo, apenar cobrar o cumprimento das promessas feitas.


O “CHEFE DOS PESCADORES” FICA OMBRO A OMBRO COM O “CHEFE DO ESTADO: O PACTO TRABALHISTA, GANHOS SIMBÓLICOS E AS PROMESSAS DE GANHOS MATERIAIS

A VIAGEM DE JACARÉ E DE SEUS COMPANHEIROS EM 1941.


Jacaré, desde quando assume a direção da Colônia de Pesca Z-1, da Praiade Iracema, em 1939, procura a professora da instituição revelando seu sonho de ir até a Capital Federal falar com o presidente. O jangadeiro precisava da professora para aprender a ler e escrever, condição, para ele, necessária para aquela ação. Junta-se  ao companheiro Tatá, mais antigo naquela comunidade pesqueira, agrega outros companheiros, mobiliza os “amigos graúdos”, acionando a rede paternalista que o envolvia, recorre aos jornalistas e autoridades civis e religiosas e parte para “pedir direitos”.  

Leia: A Saga de 1941.


Os pescadores da jangada São Pedro, ouviram de Getúlio Vargas “promessa” de ganhos materiais, vislumbrados com a assinatura do decreto incorporando-os no importante Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Marítimos. Jacaré, matreiro e esperto como era, declarou ao jornalista cearense Paulo Cabral, em seu retorno a Fortaleza: “aquele decreto, se for cumprido, pra nós é um colosso”.
O decreto assinado por Vargas, como resposta às reivindicações dos jangadeiros, se mostrou ineficaz para resultar em benefícios concretos para a categoria. Sendo a pesca artesanal uma atividade semiautônoma, que gera uma baixa acumulação de capital financeiro aos pescadores, e ainda em decorrência da parcial subordinação desses trabalhadores aos proprietários dos meios de produção, em especial a jangada, não era possível contribuir com o sistema previdenciário e dele obter benefícios sociais.

Como parece ter vislumbrado Jacaré, aquelas promessas sinalizadas com o decreto não foram cumpridas.

EM OUTROS MARES, SEMPRE A MESMA JANGADA CABOCLA: A COBRANÇA DAS
PROMESSAS E O ACERTO DE CONTAS

Em 1951, passados dez anos da viagem da São Pedro, novamente os jangadeiros do Ceará visitam recorrentemente a redação dos jornais locais, em especial o jornal dos Diários Associados, o Unitário, a fim de sensibilizar as autoridades e a opinião pública para a miséria em que continuavam vivendo. Os Diários Associados, de Assis Chateaubriand, fizeram o patrocínio jornalístico em 1941, tanto os jornalistas e os jornais do Ceará, como aqueles de outros estados por onde passou a São Pedro, cobrindo com farto material aquela viagem. Mesmo antes dela, os jangadeiros já se utilizavam da imprensa como um canal de divulgação de seus protestos e demandas, a exemplo do protesto realizado em 1939, ano em que Jacaré assume a presidência da Colônia Z-1, quando cerca de 100 jangadeiros vão aos jornais reclamar da lei municipal que fixava certos pontos para a venda do pescado.


Em julho de 1951, Jerônimo, a quem o jornalista se refere como alguém “sensível à miséria dos pescadores”, procura a redação do Unitário e revela que havia ido até o Presidente Vargas reivindicar, dentre outras coisas, a retirada do atual titular da Delegacia de Caça e Pesca no estado, e autorização para que os pescadores pudessem, eles próprios, fiscalizar a movimentação financeira das colônias.

Essa viagem, feita na terceira classe de um navio do Loyde, resultou em uma “acerto”, segundo expressão do jornalista, entre o pescador e o presidente, tendo esse último se comprometido a atender as reivindicações. Aos pescadores, segundo o “acerto”, cabia a escolha de alguém representativo da categoria. Em reunião, os pescadores escolheram o pescador José Pinto Pereira para representá-los.

A demora no cumprimento dessa promessa parece ter estimulado o veterano Jerônimo a novamente arrumar uma jangada e partir – dessa vez não falam em “pedir direitos”, o tom é de cobrança. Mais uma vez, é acionada a estratégia política de provocação da opinião pública e das autoridades, com uma viagem de jangada. Veja o tom da decisão de Jerônimo:

O que queremos é que melhores condições de vida, tantas vez prometidas, nos sejam dadas. (...) Somos obrigados a ser heróis (...) desde uma vez que nossa vida nos obriga continuamente a ser heroicos. Nosso raid ao Rio Grande do Sul será apenas para cobrar as promessas feitas, e essa cobrança só poderá ser feita de corpo presente, como vamos fazer.


Mas, de “corpo presente”, a demanda já tinha sido feita em julho desse mesmo ano. Na verdade, o que a viagem de 1941 ensinou a esses jangadeiros era a imensa capacidade de sensibilização, pela visibilidade que confere, de uma viagem de jangada.
Apesar de serem “outras águas” a serem singradas, me refiro tanto os mares no trajeto ao Rio de Janeiro ou Porto Alegre, como ao ambiente político. A embarcação era a mesma velha e rústica jangada de seis paus de piúba e no poder um velho conhecido dos pescadores, o Presidente Getúlio Vargas.

Diferente, também, era o tom das matérias jornalísticas que trataram da viagem e das demandas dos jangadeiros. A euforia dos tempos do Estado Novo foi substituída por ironias e cobranças ao presidente e à sua política. No caso dos jangadeiros, os jornalistas enfatizavam a questão das promessas não cumpridas. Mas, contrariando as expectativas dos jornalistas, e mesmo demonstrando um certo cansaço, Mestre Jerônimo continua a insistir na via do Estado para a solução dos problemas dos jangadeiros. Falando a um jornalista, criticou o Ministro da Agricultura, mas continuou a dar mostras que a confiança em relação ao Presidente não foi abalada: 

Nada temos. O pescador do NE vive como Deus é servido, sem amparo, sem assistência de qualquer de qualquer espécie. A jangada é sua única riqueza. (...) O Ministro da Agricultura mandou ao NE um técnico desses ensacados, que nada entendem do assunto, e vivem a atrapalhar os jangadeiros. O jangadeiro, no entanto, não perdeu esperança no presidente da República.

Continua...

¹Manuel Olímpio Meira, conhecido como Jacaré, morreu nas águas da Guanabara, em 19 de maio de 1942, quando filmava para o diretor americano Orson Welles as cenas da chegada da Jangada São Pedro ao Rio de Janeiro.


Crédito: Berenice Abreu de Castro Neves (Os jangadeiros de Vargas: Reflexões acerca das viagens reivindicatórias de jangadeiros cearenses)


terça-feira, 25 de março de 2014

A União trouxe a Liberdade - Ceará Terra da Luz


Jangadeiros usaram suas embarcações para lutar contra a escravidão no Ceará.


"Acompanhados de seus escravos, alguns negociantes aguardavam na Praia do Peixe – atual Iracema – a chegada das jangadas que iriam transportar quatorze cativos numa viagem até o Sul. Aparentemente, a cena era corriqueira, mas, naquela manhã de 27 de janeiro de 1881, todos foram surpreendidos pela atitude dos jangadeiros. Eles se recusaram a pôr os cativos em suas embarcações, num episódio que marcou para sempre a luta contra a escravidão no Ceará.

Desde o período colonial até os tempos do Império, o comércio interno de escravos, ou tráfico interprovincial, era uma constante no atual território brasileiro. Ele envolvia a transferência de cativos de uma região para outra, fosse por compra, troca, venda ou doação. Desde o século XVIII, o escravismo no Ceará foi, em grande parte, resultado desse tipo de negócio. Os escravos, em sua maioria, eram oriundos de províncias vizinhas, como Pernambuco, Maranhão e Bahia, e também vinham da África pelos portos de São Luís e Recife. Mas foi a partir de 1850, com a proibição do tráfico de cativos procedentes do continente africano, que o tráfico interprovincial passou a se intensificar e a ganhar relevância em todo o território do Império brasileiro.

Enquanto traficantes ganhavam cada vez mais dinheiro com esse comércio, começou a ser organizado um movimento abolicionista local, que teve mais força depois que três anos de seca (1877-1879) que se abateram sobre Fortaleza. A estiagem prolongada vitimou principalmente os escravos, que sofreram com a fome e com diversas doenças, e acabaram servindo de moeda corrente em tempos de penúria, transformando-se na salvação de senhores arruinados. Em 1879, um grupo de jovens que não suportava mais ver as humilhações impostas aos cativos que chegavam com as caravanas vindas do interior, resolveu fazer alguma coisa. Influenciados pelas ideias liberais que estavam em voga, eles organizaram uma associação destinada à compra das alforrias de escravas, já que os homens eram a principal mercadoria do comércio interno. A entidade abolicionista criada por esses jovens ficou conhecida como Sociedade Libertadora Perseverança e Porvir.


Segundo informações do livro de atas da associação, na noite de 26 de janeiro de 1881, o abolicionista José do Amaral sugeriu que se tomasse alguma medida para impedir, à força, que continuasse o tráfico de escravos que saía de Fortaleza. O mais curioso nessa história é que estava presente ao encontro um mulato chamado Francisco José do Nascimento, o Chico da Matilde, prático-mor do porto, que posteriormente receberia a alcunha de Dragão do Mar. Ele liderava o grupo dos jangadeiros ao lado do negro liberto Antônio Napoleão, que chegara a juntar vintém por vintém para comprar sua alforria, a da família e a dos amigos, gesto que foi determinante para torná-lo muito respeitado entre a classe.

O fato é que ninguém podia imaginar que homens simples afrodescendentes seriam capazes de desafiar uma organização extremamente poderosa. Mas a proposta dos abolicionistas só poderia dar certo com a participação dos jangadeiros. E foi o que ocorreu. Sem eles, que eram os últimos a ter contato com os escravos embarcados, o movimento não teria sucesso.

Napoleão, Nascimento e seus colegas tinham motivos de sobra para aderir a essa causa. Muitos escravos devem ter pedido a eles que não fossem embarcados e relatado terríveis histórias de sofrimento por terem sido separados dos seus. Assistir a esse teatro de horrores provavelmente fez crescer entre os jangadeiros a consciência de que aquela situação precisava mudar. Mas para que pudessem se organizar a ponto de paralisar o tráfico, teve que surgir entre eles um consenso sobre o que representava aquele ato.


Foi na Perseverança e Porvir que a classe encontrou o apoio necessário para acabar com o  transporte de cativos. E reuniu forças para realizar um feito até então inusitado. Tanto que, naquela manhã de 27 de janeiro, os encarregados do embarque de escravos foram surpreendidos com a recusa dos jangadeiros em transportá-los. Diante da situação, conforme foi noticiado no jornal O Libertador, “os negreiros recorreram a todos os expedientes: oferecimento, promessas, suborno, ameaças; tudo, tudo foi baldado”.

A notícia dessa ação dos jangadeiros se espalhou, e as pessoas começaram a se dirigir à praia para ver de perto uma cena inédita. Afinal, um grupo de pescadores pobres, liderados por negros, pardos e mulatos, enfrentava os representantes de uma elite de poderosos comerciantes e traficantes. Segundo O Libertador, “mais de 1,500 homens de todas as classes e condicções” se encontravam ali, acompanhando a resistência dos jangadeiros. Em solidariedade ao protesto, muitos gritavam: “Nos portos do Ceará não se embarca mais escravos!”. O movimento, que se repetiu algumas vezes nos dias seguintes, até 31 de janeiro, ganhava sua primeira batalha.


Meses depois, em 30 de agosto de 1881, haveria uma nova tentativa de embarcar escravos, desta vez para o Norte. Apesar de o presidente da província e o chefe de polícia recém-nomeados apoiarem francamente os negreiros, os jangadeiros obtiveram outra vitória, e o porto de Fortaleza acabou sendo fechado definitivamente para o comércio interno de escravos. Tudo isso com o apoio do tenente-coronel Francisco de Lima e Silva, parente do duque de Caxias, que estava à frente do 15º Batalhão de Infantaria.

Mesmo com todas as mudanças em curso na sociedade cearense, os negreiros ainda eram capazes de dar algumas demonstrações de força. Os abolicionistas podiam ter o suporte do comandante do 15º Batalhão de Infantaria, mas os comerciantes de escravos ainda conseguiam se valer de todos os meios para manter seus lucros. Segundo o Livro de Actas da Sociedade Perseverança e Porvir, chegou a ser ordenado que uma flotilha da Marinha de Guerra fosse enviada para proteger o tráfico e até bombardear a cidade dos revoltosos. Mas, com o tempo, esse esforço acabaria provando ter sido em vão.

Os abolicionistas teriam muito a perder, pois os negreiros fariam de tudo para não deixar nenhum de seus adversários impune, valendo-se de perseguições, medidas repressivas e punições. Segundo o Livro de Actas, Lima e Silva foi removido do seu cargo, assim como o promotor público da capital, Frederico A. Borges, e de dois oficiais da guarda urbana.Além disso, o Dragão do Mar foi destituído de seu posto de prático-mor do porto.


Os acontecimentos no Ceará acompanharam mudanças na legislação a respeito da escravidão em outros cantos do Império. Nas principais províncias do Sudeste, começaram a ser adotadas leis que restringiam a entrada de escravos vindos do Norte, medidas que geraram um movimento com forte participação popular. Com o fechamento do porto de Fortaleza ao tráfico em 1881, a venda de cativos para outras províncias acabou sofrendo um duro e decisivo golpe, fortalecendo a luta abolicionista, que no dia 25 de março de 1884 acabou levando a Província do Ceará a proibir a escravidão. A luta para acabar com o tráfico interprovincial na região, com a fundamental ação dos jangadeiros, saiu vitoriosa, fazendo a “abolição” chegar ao Ceará alguns anos antes da Lei Áurea, de 1888."


José Hilário Ferreira Sobrinho 
(Professor da Faculdade Ateneu no Ceará 
e autor de Abolição no Ceará: 
um novo olhar(Imeph, 2009).

Bibliografia

AMARAL VIEIRA, Roberto Attila do. Um herói sem pedestal – a Abolição e a República no Ceará. Fortaleza: Imprensa Oficial do Ceará, 1958.

GONÇALVES, Adelaide; FUNES, Eurípedes. “Abolição – manifestação e herança. A Abolição da Escravatura no Ceará: uma abordagem crítica”. Cadernos do NUDOC nº 1. Fortaleza: Departamento de História/UFC, 1988.

MOREL, Edmar. Vendaval da liberdade: a luta do povo pela abolição. São Paulo: Global, 1988.


 

domingo, 23 de março de 2014

Especial - 130 Anos da Abolição da Escravatura no Ceará



“No Porto do Ceará não se embarcam mais escravos" 
Francisco José do Nascimento, Dragão do Mar - Janeiro de 1881. 

"A Província do Ceará influenciada pelas ações da Sociedade Cearense Libertadora teve no grito do líder jangadeiro Dragão do Mar, sua mais forte expressão e repercussão. Mas, Como começou o processo escravocrata no Brasil? E Por que a corajosa ação de 'Chico da Matilde' é lembrada até hoje? Se em alguns casos é possível dissociar História do Ceará da do Brasil, pelo menos nesse caso isso é impossível. Para entendermos melhor esse universo de revolta que tomou conta de intelectuais, profissionais liberais e gente do povo como o Dragão do Mar, na segunda metade do século XIX, precisamos voltar um pouco no tempo... 

Sociedade Cearense Libertadora

Como Começou o Processo Escravocrata no Brasil? 
Logo depois de sua 'descoberta’? 

Em 1500, e da implantação do sistema de capitanias hereditárias pela coroa portuguesa, e para dar suporte aos colonos no povoamento e exploração da mais nova colônia lusitana, Vossa Majestade D. João III cria o cargo de Governador-Geral. O primeiro a ser empossado na função foi Tomé de Sousa (1549 a 1553), e trouxe junto com ele, mulheres, o Padre Jesuíta Manuel da Nóbrega e os primeiros escravos africanos a pisar em solo brasileiro. 
Duarte da Costa chega em 1553 trazendo consigo o Padre da Companhia de Jesus - José de Anchieta, (que lançaria base ao que é hoje a maior capital da América Latina - São Paulo). Mesmo o sistema de capitanias hereditárias tendo fracassado, se manteve de pé a São Vicente e a de Pernambuco, principalmente a última devido ao cultivo de cana de açúcar, fazia grande uso do trabalho braçal. Como não tinham escravos africanos em número suficiente, os senhores de engenho começaram a levar cativos - índios. 

Os jesuítas foram terminantemente contra essa ação, pois era função deles catequizá-los, e não aceitavam sua escravidão. Aí toma forma em larga escala a página mais vergonhosa de nossa história - a escravidão. 


Durante todo o século XVI, (1501 a 1600), vindo em navios negreiros abarrotados, (uma parte morria antes de chegar ao destino, e eram jogados ao mar), foram transportados cerca de 100.000 escravos africanos. Já ao final do século XIX, um pouco antes da assinatura da Lei Áurea em 13 de maio de 1888, que pusera fim a escravidão no Brasil, esse número ascende a 1600.000. Submetidos a trabalho forçado, maus tratos e açoites (quando rebeldes), os escravos receberam um tratamento desumano, com o passar dos séculos tornara-se uma vergonha nacional. 

A Inglaterra, logo após a revolução industrial, movida por interesses próprios, começa a pressionar o Brasil para pôr fim ao tráfico negreiro. E aí nasce um termo muito conhecido em nossos dias "lei para inglês ver", devido a inúmeros acordos celebrados com a maior potência mundial, Pré-Eusébio de Queirós, nunca cumpridos. 

Por que a Corajosa Ação do 'Chico da Matilde' é Lembrada Até Hoje? 

Á partir da segunda metade do século XIX, (1801 a 1900), depois da implantação de leis como a Eusébio de Queirós, pregava-se no Brasil como fato o fim do tráfico negreiro, e boa parte da elite; médicos, advogados e jornalistas como José do Patrocínio passaram a se dedicar a causa abolicionista. Mas, a verdade é que ainda havia o vergonhoso tráfico de escravos. E então nós passamos a entender a relevância histórica no grito do líder jangadeiro - Dragão do Mar, quando da chegada de navios negreiros ao Porto do Ceará, (os navios de grande calado não conseguiam aportar devido aos bancos de areia, por isso se fazia necessário o trabalho dos jangadeiros no transporte dos escravos.) Foi com a ação heroica do Dragão do Mar que a Província do Ceará pôs fim de vez ao tráfico negreiro. Como consequência, o Ceará torna-se pioneiro como a primeira província a libertar seus escravos em 25 de março de 1884, portanto a exatos 130 anos. Por isso até hoje é conhecida como - 'Terra da Luz'


Abre também caminho para a assinatura da Lei Áurea, que viraria essa triste página de nossa história, manchada de sangue. O Estado do Brasil em meio a culpa para compensar as enormes desigualdades criadas pela escravidão, criou o sistema de cotas, Lei n.12711/2012, que não chega a ser unanimidade, mas já é um passo importante para a diminuição das desigualdades acumuladas por mais de 400 anos. 


Para homenagear o feito do herói cearense a Petrobrás, por meio de sua subsidiária, a Transpetro batiza um Navio Petroleiro em Pernambuco com o nome de Dragão do Mar

Ainda seguindo como parte das homenagens ao 'Chico da Matilde' o Estado do Ceará dá a um importante equipamento de cultura em Fortaleza seu nome - CentroDragão do Mar de Arte e Cultura
E a Assembleia Legislativa do Ceará em 2011, em proposta do Deputado Lula Morais (PC do B), institui 25 de março - feriado estadual - Abolição da Escravidão!"

Santana Júnior 
(Colaborador do Fortaleza Nobre)



Bibliografia;VICENTINO,Cláudio. História Para o Ensino Médio, História Geral e do Brasil. Editora Scipione. Pág.189, páragrafos 31 ao 38. /AZEVEDO, L. de. História de Um Povo. Editora FTD. Pág.105, pár.6. Web; Wikipédia.



sexta-feira, 21 de março de 2014

A saga dos jangadeiros do Mucuripe - A chegada ao Rio e uma nova aventura...


Há 70 anos, quatro jangadeiros entraram para a história...

Em 1941, Manuel Olímpio Meira (Mais conhecido por Jacaré) e mais três jangadeiros - Mestre Jerônimo (Jerônimo André de Souza), Tatá (Raimundo Correia Lima) e Manuel Preto (Manuel Pereira da Silva) - saíram do Ceará com destino ao Rio de Janeiro.
Foram reivindicar junto ao Governo de Getúlio Vargas, melhores condições para a comunidade de pescadores de sua região, tentando fazer com que sua profissão fosse reconhecida e os pescadores pudessem obter seus direitos trabalhistas.

Foi então que a presidente da Associação de são Pedro (entidade religiosa que prestava assistência às famílias dos pescadores), empreendeu juntamente com Fernando Pinto, presidente do Jangada Clube, uma Campanha entre as autoridades e membros da sociedade local a fim de levantar fundos para a realização do sonho dos pescadores.
A campanha foi bem sucedida e ao final, eles conseguiram dinheiro para a construção da jangada e para deixar suas famílias assistidas enquanto ficassem ausentes.

Veremos toda essa travessia através de fotos do filme de Orson Welles de 1942: 
A triste despedida na partida dos jangadeiros





"Às nove horas em ponto, quando soprava um bom nordeste, empurramos a jangada pra dentro d'água. Ia começar a nossa aventura. O samburá estava cheio de coisas, a barrica cheia d'água e os nossos corações cheios de esperança. Partimos debaixo de muitas palmas e consegui ver de longe os meus bichinhos acenando. Mais de vinte jangadas, trazidas por nossos irmãos de palhoça e de sofrimento, comboiaram a gente até a ponte do Mucuripe. A igreja branquinha foi sumindo e ficou detrás do farol. Rezei pra dentro uma oração pedindo que a Padroeira tomasse conta dos nossos filhinhos, pois Deus velaria por nós. E assim começou nossa viagem ao Rio de Janeiro...". 
Jacaré




E lá se foram nossos heróis...


Eles navegaram por sessenta e um dias em condições precárias, enfrentando tempestades, tubarões e calmarias, de Fortaleza ao Rio de Janeiro...


A chegada em Recife...


A chegada em Salvador...


Pedindo proteção em Salvador...


A chegada ao Rio de Janeiro - na época a capital da República - distante 1.500 milhas náuticas (Mais de 2.700 Km), navegando na jangada "São Pedro". 

 




Em 15 de novembro a jangada São Pedro entrou nas águas da Baía de Guanabara, acompanhada por muitos barcos que formavam uma procissão...


















Logo depois, a jangada foi retirada apoteoticamente da água e colocada em um caminhão sob aplausos de uma multidão que se aglomerava para ver de perto a chegada dos heróis. O cortejo seguiu pelas principais avenidas do Rio de Janeiro e na Praça Mauá um palanque estava montado para os discursos. Ao final do dia eles foram atendidos por Vargas.


Getúlio Vargas cumprimenta Jacaré.
Foto: Firmino Holanda

Dos Verdes Mares Bravios mais uma vez parte uma jangada...

"Passados dez anos da viagem dos jangadeiros cearenses ao Rio de janeiro, sede do governo Federal, eis que novamente dos “verdes mares bravios”, referidos no romance de José de Alencar, parte uma nova jangada, dessa vez batizada de Nossa Senhora de Assunção. Apesar de, nessa década, como nos informa Câmara Cascudo em Jangada e Jangadeiros, já está acontecendo a substituição da velha jangada de paus pela jangada de tábua, que acrescenta à antiga estrutura um pequeno convés, os jangadeiros ainda preferem a antiga e é uma dessas que servirá de transporte aos cinco jangadeiros. Quem a fabrica é “Quinta-Feira”, segundo informações dos pescadores, um dos melhores fabricantes de jangada do Ceará; na vela uma pintura de Nossa Senhora de Assunção, padroeira de Fortaleza, pintada pelo artista cearense Antônio Bandeira."

Berenice Abreu de Castro Neves 

Depoimento

“Aquela miniatura de jangada, cheia de detalhes, que ganhei ainda menino, de uma “tia” nordestina, casada com um amigo do meu pai, fez mais sentido quando, maiorzinho, visitei o Museu Júlio de Castilhos e conheci, além de uma jangada de verdade, em tamanho natural, a história fantástica de uma viagem improvável. Aquela precária embarcação que eu via diante dos meus olhos tinha vindo desde muito longe, navegando pelo mar e trazendo a bordo alguns homens.

Foto: Antonio Ronek - Revista do Globo (Acervo Ricardo Chaves)

Foto: Antonio Ronek - Revista do Globo (Acervo Ricardo Chaves)

Esta semana, quase meio século depois, examinando uma antiga Revista do Globo, encontrei o registro documental dessa aventura, que nunca saíra da minha cabeça. Numa bela reportagem de Rubens Vidal com fotos de Antonio Ronek, publicada em março de 1952, estava o relato da chegada, depois de 127 dias e 4 mil quilômetros, da jangada N. S. de Assunção, trazendo de Fortaleza (CE) quatro pescadores e um jornalista. Vinicius Lima, repórter do jornal O Globo, que patrocinava a travessia, aproveitou o desembarque do pescador Tatá – que, enfermo, ficou no Rio, quando a expedição fez uma escala por lá – e juntou-se a Jerônimo, João Pereira, Manuel Preto e Manuel Frade na segunda etapa da jornada.

Foto: Antonio Ronek - Revista do Globo (Acervo Ricardo Chaves)

Foto: Antonio Ronek - Revista do Globo (Acervo Ricardo Chaves)

Foto: Antonio Ronek - Revista do Globo (Acervo Ricardo Chaves)

O objetivo dos viajantes era chamar a atenção e protestar contra as más condições de vida dos pescadores nordestinos. Foram recebidos como heróis por uma multidão e, depois, pelo governador e pelo prefeito.
A jangada foi exposta à curiosidade popular no Paço Municipal e posteriormente recolhida ao Museu – onde, após alguns anos, acabou por desfazer-se.”

Ricardo Chaves (Almanaque Gaúcho)





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