Fortaleza Nobre | Resgatando a Fortaleza antiga : Avenida Carapinima - Um símbolo do Benfica [notification_tip][/notification_tip]
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sábado, 20 de outubro de 2012

Avenida Carapinima - Um símbolo do Benfica



Avenida Carapinima é a continuação da Tristão Gonçalves

A Avenida Carapinima é a continuação da Avenida Tristão Gonçalves. Antigamente, os trilhos que saiam da Estação da Estrada de Ferro de Baturité para a zona sul do estado tinham curso pela atual Av. Tristão Gonçalves, que era conhecida como Trilho de Ferro, que também se chamou Av. 14 de Março, Da Lagoinha e N° 8. Em 1917, os trilhos foram retirados daquela avenida e foram para o local onde ainda hoje estão só atingindo a Av. Carapinima na altura do início da Av. José Bastos. O início exato da Av. Carapinima fica no cruzamento com a rua Domingos Olímpio e prossegue até desaparecer ao lado do trilho que vai em direção à Parangaba, depois da Bela Vista. Constitui avenida apenas entre as ruas Domingos Olímpio e Padre Fco. Pinto. O restante ficou prejudicado pela aproximação dos trilhos e do muro da RFFSA.


Avenida Carapinima - Arquivo Nirez

O nome foi adotado por Feliciano José da Silva, militante da Confederação do Equador (movimento revolucionário, de caráter emancipacionista e republicano ocorrido no Nordeste do Brasil que representou a principal reação contra a política centralizadora do governo de D. Pedro I). Movidas pelo nacionalismo, famílias que aderiam à iniciativa adotavam nomes mais “abrasileirados”. Condenado à morte por sua participação militar na Confederação do Equador, Carapinima foi fuzilado no antigo Campo da Pólvora, atual Passeio Público.


Avenida Carapinima - Foto de Jairo Silas

Quero ressaltar que essas reminiscências, todas essas lembranças aqui relatadas, integram a realidade dos chamados “Anos Dourados”. Anos que vivi na Rua Carapinima que, a propósito, bem mereceria  o homenageado, Feliciano José da Silva Carapinima, que lhe deu o nome, um Cordel que celebrasse a sua bravura na épica Confederação do Equador, em 1824, que tanto desejou a implantação da República no Brasil
O belo Passeio Público, vivendo hoje um momento de recuperação, foi tinto do seu sangue assim como de outros mártires, como Azevedo Bolão, Padre Mororó, Pessoa Anta e Feliciano José Ibiapina. A propósito Carapinima era alferes oficial da tropa de linha. Nasceu em Minas Gerais e era Secretário do Governo de Francisco Alberto Rubim, Governador do Ceará Colonial.




A Rua Carapinima de hoje já não é a mesma. Principia pelo fato de que longe estão de 
fazer parte do mundo em que hoje vivo, as aventuras ali ocorridas. Quanta felicidade em mim havia por ter visto um ninho no jardim da Professora Dido Facó, maravilha da arquitetura do rouxinol, que só foi descoberto pelo piá de seus filhotes sem plumas. A Carapinima de então tinha casas com jardins de belas flores, volteando entre elas abelhas e borboletas sob o sol dos nossos quentes verões. Era uma rua tal como  hoje integrada no bairro do Benfica onde os leilões, as novenas de maio, as quermesses instaladas na rua adjacente, a Rua Padre Francisco Pinto, no trecho entre a Igreja dos Remédios e o Dispensário dos Pobres até hoje existentes, eram as grandes atrações. O Dispensário era  uma instituição filantrópica mantida pela Congregação das Irmãs de Caridade de São Vicente de Paulo, voltada para à assistência aos pobres e aos idosos, além de promover a educação para as pessoas carentes. Ali ainda vivem pessoas que conheci, dobradas pelos anos  e que talvez lembrem com enlevo o tempo que passou, mas não ofuscou as imagens. A minha  memória refaz, com nitidez, as figuras refesteladas nas cadeiras de balanço e espreguiçadeiras para animadas conversas em que de tudo se falava: futebol, festas, discos voadores, notícias da política e se externava o receio 
pelos rumos da economia brasileira numa frase única: “dessa vez o Brasil cai no buraco!” .



Originalmente, o bairro do Benfica abrigava  os segmentos mais expressivos da sociedade 
fortalezense que morava em bangalôs e palacetes. O bairro era muito visitado e nele estava o Hipódromo do Prado onde se dava a prática do hipismo, isto desde 1920, sendo que hoje este hipódromo e campo de futebol é a sede da Escola Industrial do Ceará. No Benfica estavam os clubes Maguari, de onde saiu a Miss Ceará e  depois Miss Brasil Emília Correia Lima em 1955; o Gentilândia, Nacional, Ferroviário  e Fortaleza, esses últimos, agremiações futebolísticas, decerto, a escolha do local de construção do nosso Estádio Presidente Vargas deveu-se à proximidade dos clubes mencionados. Muitos diretores e torcedores do Cearáoutro clube de futebol, frequentavam o Benfica, embora o Ceará ficasse em Porangabuçubairro vizinho. 



Mas, a importância do Benfica  refletia-se também no elevado número de escolas públicas e particulares. Àquela época as escolas públicas eram mais bem conceituadas e um exemplo disso era o Grupo Escolar Rodolpho Theóphilo, grande autor de Libertação do Ceará; Queda da Oligarquia Acioly, onde é contada a saga da sua luta pioneira contra a cólera e o tifo no estado. 


O Grupo Escolar Rodolfo Teófilo

O colégio religioso mais conceituado era o Santa Cecília, de freiras vindas de Garanhuns, em Pernambuco, e Damas da Instrução Cristã. Outro colégio religioso, o de Nossa Senhora das Graças, foi precedido pelo Colégio Americano, onde estudei quando criança. 

A Rua Carapinima, modernamente elevada à categoria de Avenida, nascia na confluência da Avenida do Imperador com a Avenida Tristão Gonçalves, perfazendo cerca de 
três quilômetros. Aproximadamente duzentos metros do seu curso margeavam a linha férrea, terminando na Rua Padre Cícero, no mencionado bairro de Porangabuçu, a poucos metros do campo de futebol do Ceará. A Carapinima, então uma bela rua, transformou-se, hoje, numa via de tráfego intenso com seu antigo cenário quase todo destruído. Na verdade, ultrapassando o seu espaço físico, a Rua Carapinima concentrava em sua órbita as ruas e bairros adjacentes, como Gentilândia, Granja e o mesmo Porangabuçu. Morei numa rua que era de fato um símbolo do Benfica.



...tudo permanece bem vivo em minhas lembranças... chegamos hoje a tal ponto em 
que já é difícil recordar como era antigamente. Saudades vivemos dos anos de 1960 e lá bem no fundo indagamos se a velha cultura humanística terá de fato ido pelos ares... A Rua Carapinima tinha mesmo era um quê de interior e encarnou uma época de amor e fortes relacionamentos humanos. Uma das razões  é que a Igreja dos Remédios assentada 
solenemente em 08.12.1878, nasceu de um sonho do português João Antonio de Amaraldevoto de Nossa Senhora. Ele faleceu sem realizar seu sonho e foi a sua esposa Maria Correia do Amaral quem o concretizou, cumprindo a sua promessa. A conclusão da obra foi feita com a ajuda de José Gentil Alves de Carvalho com a primeira missa rezada em 1910. Sei tudo isto porque fui coroinha da igreja e a sua imagem de Nossa Senhora dos Remédios, é uma das mais belas do Brasil. Esta igreja tinha na época um efeito aglutinador. As missas e as novenas, bem como os leilões, eram acontecimentos  sociais no bairro, pois  bem, os fundos da edificação davam justamente para a Rua Carapinima, funcionando, na prática, como uma passagem alternativa para os que não desejavam vir pela Rua Francisco Pinto. Muitas pessoas passavam pela Rua Carapinima, tornando-a uma espécie de corredor para dirigir-se aos bairros e ruas circunvizinhas. 



A rua era também o caminho para o Colégio Capistrano de Abreu e o Colégio Sete de Setembro, na Rua do Imperador. Era praxe as famílias do bairro estarem integradas aos movimentos sociais de evangelização da paróquia. 

Numa época em que não existiam supermercados, muitos iam  ao estabelecimento de Sr. Moisés, pessoa bondosa e muito querida no bairro. Ele instituiu no bairro a venda por caderneta onde as pessoas pagavam por mês, na base da confiança. Tudo isso passava pela Carapinima. Ainda pela passagem mencionada da Igreja dos Remédios, andavam moças e rapazes que iam se encontrar no patamar da igreja, bem ao lado da “Capelinha de Santa Liduína”, em frente à Gruta de Lourdes”... posso lhe assegurar que muitos namoros e casamentos começaram ali. 
Também bem próxima era a famosa Farmácia Arthur de Carvalho, que era a única do bairro e muito boa. Até hoje se usa as Ghottas Arthur de Carvalho, criadas pelo seu proprietário. Era ali que os meninos recebiam os primeiros socorros por conta de brigas e pedradas. Todos tomávamos, apesar do medo, injeções. 

Ah! E havia ainda a velha Maria Fumaça que atraia a criançada toda, arrastando-se como uma cobra nos velhos trilhos, soltando fumaça preta e como que cantando uma música que repetíamos aos gritos: “café com pão, bolacha não...  piúúúú”. Hoje, a velha Maria Fumaça, foi substituída pela máquina a diesel e o seu atraente apito deu lugar a uma estridente e incômoda buzina, deixando em nós a saudade de sua passagem pela nossa rua."


Paulo Maria de Aragão
(Advogado e professor universitário)

Continua...
Crédito: Carapinima: A história de uma rua -Regina Stela Ferreira Moreira 
(Formada em jornalismo pela Faculdade Celso Lisboa (Rio de Janeiro)

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