Fortaleza Nobre | Resgatando a Fortaleza antiga : Bar do Anísio
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quinta-feira, 21 de março de 2019

Bar do Anísio - Parte III


Beira-Mar, de Ednardo

Na Beira-Mar, entre luzes que lhe escondem
Só sorrisos me respondem
Que eu me perco de você
Você nem viu a lua cheia que eu guardei
A lua cheia que eu esperei
Você nem viu, você nem viu
Viva o som, velocidade
Forte praia, minha cidade
Só o meu grito nega aos quatro ventos
A verdade que eu não quero ver
Na Beira-Mar, entre luzes que lhe escondem
Só sorrisos me respondem
Que eu me perco de você
E o seu gosto que ficando em minha boca
Vai calando a voz já rouca
Sem mais nada pra dizer
E eu fugindo de você
Outra vez me desculpando
É a vida, é a vida...
Simplesmente, e nada mais
E um gosto de você que foi ficando
E a noite, enfim findando
Igual a todas as demais
E nada mais.


Fachada do bar do Anísio. Acervo Roberto Aurélio

A namorada de Ednardo, à época, costumava reclamar dizendo que ele trabalhava e estudava muito e, por isso, “não comparecia” ao relacionamento. Ele respondeu dizendo que faria uma canção para ela, como pedido de desculpas. O resultado é a romântica Beira-Mar, uma declaração de amor que, na realidade, foi uma maneira de se “livrar de uma suja”, como o próprio músico disse em reportagem publicada pelo jornal O Povo no dia 17 de abril de 2005.


Ao lado: Anísio sentado. Marisa abraçando a “Pingo”*, outra frequentadora do bar. Acervo da família


A verdade é que, além de declaração à namorada, Beira-Mar é uma homenagem à praia de todos os dias, à vista que se tinha do Bar do Anísio. ComoBeira-Mar, outras canções eram apresentadas na varanda do Anísio – espécie de primeiro palco dos jovens compositores. Raimundo Fagner, em entrevista ao jornal O Povo, no dia 11 de abril de 2004, revelou que as primeiras músicas que compôs com Belchior começaram ali, no bar. Fagner era um dos mais novos do grupo – três anos a menos do que Belchior – e não frequentava o bar de forma assídua como os outros. “O Fagner não era muito da noite nessa época não. Ele ia às vezes de dia, no fim de semana”, rememora Fausto. Mas, ainda assim, muitas composições de Fagner foram feitas e/ou apresentadas no Anísio. Afinal, ali estavam as grandes promessas da música cearense da época.

As mesas do bar falavam por si. A letra de “Cavalo Ferro” foi feita de uma sentada só, por Ricardo Bezerra e Fagner em uma noite no local. “O violão estava sempre na mão. Já burilávamos poesia e dávamos vazão à arte”, sintetizou Ricardo Bezerra. (Trecho da reportagem publicada no jornal O Povo, no dia 11 de abril de 2004)

Ricardo Bezerra também era estudante de Arquitetura na UFC (como Fausto e Brandão) e compunha músicas em parceira com os colegas de curso, e também com Augusto Pontes, Rodger e, principalmente, Fagner. Cavalo Ferro é uma das composições de maior destaque da parceria de Ricardo com Fagner.



Cavalo Ferro, de Fagner
com parceria de Ricardo Bezerra

Montado num cavalo ferro
Vivi campos verdes, me enterro
Em terras trópico-americanas
Trópico-americanas, trópico-americanas
E no meio de tudo, num lugar ainda mudo
Concreto ferro, surdo e cego
Por dentro desse velho, desse velho
Desse velho mundo
Pulsando num segundo letal
No planalto central
Onde se divide, se divide, se divide
O bem e o mal
Vou achar o meu caminho de volta
Pode ser certo, pode ser direto
Caminho certo sem perigo, sem perigo
Sem perigo, sem perigo fatal.

A música é, dentre outras e muitas interpretações possíveis, uma explosão de juventude. Achar-se-á o caminho, certo ou não, direto ou não, e, ainda por cima, sem perigo fatal. O importante é seguir pulsando e montando num cavalo ferro em busca do que ainda não se sabe. Esse era o espírito de Fagner, Ricardo e tantos outros que se permitiam sonhar nas mesas no Anísio.
Outro dos grandes parceiros musicais de Fagner era Belchior. Este, que fora colega de classe de Fausto Nilo e, posteriormente, tentou seguir a vida eclesiástica, mas logo desistiu para voltar à companhia dos amigos boêmios.
Juntos, Fagner e Belchior compuseram canções memoráveis. Dentre elas, a belíssima Mucuripe. A música foi tocada pela primeira vez por Belchior no Bar do Anísio, numa noite estrelada. Na letra, observa-se claramente a imagem que se via (e se sentia) das mesas do bar: velas, pescadores, mar, vento e estrelas. Vista que inspirou e embalou a juventude desses e de tantos outros frequentadores do Anísio.


Mucuripe, de Belchior e Fagner

As velas do Mucuripe
Vão sair para pescar
Vão levar as minhas mágoas
Pras águas fundas do mar
Hoje à noite namorar
Sem ter medo da saudade
Sem vontade de casar
Calça nova de riscado
Paletó de linho branco
Que até o mês passado
Lá no campo inda era flor
Sob o meu chapéu quebrado
Um sorriso ingênuo e franco
De um rapaz moço encantado
Com vinte anos de amor
Aquela estrela é bela
Vida vento vela leva-me daqui
Aquela estrela é bela
Vida vento vela leva-me daqui.

No trecho “Vida, vento, vela leva-me daqui” evidencia-se a vontade latente de se ir embora (como emCarneiro, de Ednardo), de buscar e encontrar novas perspectivas em outros ares, mais ao sul. Quem sabe lá, distante do provincianismo alencarino, fosse possível afundar as mágoas e sorrir, mesmo que ingenuamente.
Entre uma música e outra, as noitadas na Beira-Mar eram, muitas vezes, interrompidas por uma tradição da época, também musical: as serenatas. Nos anos 1960 e 1970, os prédios ainda não eram maioria na cidade, sendo possível cantar para as namoradas ou mesmo surpreender uma paquera e conquistar corações no meio da madrugada.
Grande parte dos frequentadores do Anísio eram músicos, futuros músicos ou aspirantes a cantores. Ou seja, todo mundo participava das tais serenatas, nem que fosse apenas para apoiar um amigo apaixonado. Patrícia*, amiga de Annuzia e de Maria Zélia, era lésbica. Se a homossexualidade ainda é vista, nos dias de hoje, com bastante preconceito, pode-se imaginar como era nos anos 1970. Muitos homossexuais tinham medo de se assumir em determinados ambientes, principalmente aqueles mais conservadores que se apresentavam hostis.
Ataliba em pé de óculos. Um dos inimigos do ritmo sentado, com o violão. Acervo da família.

Ao lado: Da esquerda para a direita: Maria Zélia, Airam, Annuzia, Mineiro* sentado e os Inimigos do Ritmo. Não se sabe quem são os outros homens. Acervo Maria Zélia.

Mas no Anísio não havia essa atmosfera de repressão. Pelo contrário, ali cada um podia ser e agir como bem entendesse. Patrícia, nos primeiros dias de frequentadora do bar, ainda não se “assumia”Foi dizer-se lésbica depois, talvez ao perceber que ali, sim, estava segura.
Mudou inclusive a maneira de se vestir, ficando mais à vontade para usar as blusas do pijama, como gostava de fazer.
Certa vez, ela levou Annuzia e Maria Zélia para ajudarem-na a fazer uma serenata para a namorada à época. Para acompanhá-las no violão, as meninas chamaram os Inimigos do Ritmo. As três passaram no Anísio e “botaram” os irmãos dentro do carro para irem todos juntos à serenata.

A gente comprou um violão pra eles. Era muito legal. A gente ia fazer serenata na puta que pariu e eles iam com a gente. Tudo eles faziam pra gente. (Maria Zélia)

Já no caso dos rapazes era mais fácil, pois a maioria já sabia tocar algum instrumento. Não era preciso “laçar” violeiros para compor a banda. Eles próprios se reuniam e formavam uma espécie de conjunto musical. A serenata tornava-se uma espécie de show particular.
Flávio se lembra de que, nessa época, Rodger tocava contrabaixo na banda do padrasto. Assim, os amigos se relacionavam com todos os músicos do grupo. As serenatas que faziam, portanto, eram de “primeira grandeza”. “Era o melhor pianista da cidade tocando escaleta
(instrumento de sopro e teclas). Serenata de alto estilo, menina! De qualidade”, conta Flávio.


Esquerda para direita: Elizete*, Marisa com o copo na mão, abraçando Anísio (sentado) e “Pingo”. Acervo da família.

Na lembrança de Rodger, porém, as serenatas eram feitas apenas com voz e violão. “Eu fazia muitas. Aliás, eu comecei a me soltar mais fazendo serenata”, lembra-se, divertido. Poucos rapazes tinham carro próprio. Por isso, na maioria das vezes, Flávio era o motorista.
Primeiro, no fusquinha. Depois, ganhou do pai uma Kombi que logo se transformou no transporte oficial dos amigos.


À esquerda, Isabel Lustosa de cabeça baixa. Ao lado de Isabel, a jornalista Ângela Borges. Na cabeceira, Cláudio Pereira. Todos no Anísio. Acervo Roberto Aurélio.

Cabia uma turma enorme, né? (risos) Então a gente comprava um balde, isopor de gelo, tirava aquele banco do meio e a Kombi era um bar. Era cheio de rum, coca-cola, gelo. E cabia todo mundo! Aí eu era o transportador oficial da turma. (Flávio)

Guto Benevides também adorava fazer serenatas. Desenrolado e sociável, o jovem chamava cantores de outros estados, que vinham a Fortaleza se apresentar, para o acompanharem nas tais serenatas. Na época, Guto já trabalhava no jornal O Estado e tinha uma coluna intitulada Curtição do Guto. Assim, estava sempre em contato com os artistas que passavam pela cidade.

Cauby Peixoto, Altemar Dutra. A gente convidava eles [sic] para beber. Depois, parava o carro na casa da namorada e pedia pra eles cantarem uma música. Elas abriam a janela ou davam sinal: acendiam a luz e apagavam. Aí todo mundo ficava feliz no outro dia. (Guto)

Casa do Pereira no início dos anos 1970. Acervo Roberto Aurélio.

Guto começou a frequentar o Bar do Anísio no início dos anos 1970. Acabara de ganhar um prêmio publicitário, por uma campanha que fez, e queria comemorá-lo. Foi, então, ao Anísio – que nessa época já era bastante conhecido – e disse: “Eu quero saber se tem alguém aqui pra beber até de manhã”. O alguém que levantou o dedo e disse “eu” era Cláudio Pereira. Iniciou-se, assim, uma grande amizade entre os dois, que passaram a virar noites no bar e a compartilhar brincadeiras etílicas e conversas, por vezes, sóbrias.

*Nomes fictícios


Crédito: Livro Bar do Anísio - Casa de Liberdades de Isabela Bosi - 2012

terça-feira, 5 de março de 2019

Bar do Anísio - Parte II


Na maioria das vezes, a noitada no Bar do Anísio costumava ir até de manhã. A ideia de não ter hora para acabar era levada ao pé da letra. Mas, às vezes, Anísio e a esposa fechavam o bar mais cedo (entenda-se por volta de seis horas da manhã) e o grupo seguia em busca de outro lugar para continuar bebendo.

Um dia, Fausto, o jovem Antônio Carlos Coelho e Rodger saíram do Anísio de manhã. O trio ia dormir na UFC, no campus do bairro Benfica. Como não tinham carro, iniciaram uma caminhada em direção à universidade. Sem um tostão no bolso. Foram a pé até a Praça José de Alencar, no Centro. Na esquina da Rua Guilherme Rocha havia um bar que todos consideravam ter a “melhor cerveja gelada de Fortaleza”.


A gente estava doido pra tomar uma cerveja, mas sem dinheiro, sabe? O Antônio Carlos olhou e tinha um ceguinho numa lojinha da Guilherme Rocha. A loja fechada e o ceguinho tocando flauta. (Fausto Nilo)

Ao ver o cego tocar flauta, Antônio Carlos teve uma ideia:
— Olha, vai ser o seguinte: Rodger, você toca violão. Fausto, você canta. Eu recolho o dinheiro e o ceguinho fica na flauta. Antônio perguntou ao cego se ele topava tocar com eles. A resposta foi um animado: “Vamos lá! Qual vai ser a música?”.




Cantei uma música do Vicente Celestino. “Noite alta, céu risonho” (Fausto
canta trecho da canção “Noite Cheia de Estrelas”). Dez horas da manhã
de um sábado. Nós fomos até as 11 e pouco cantando. Era dinheiro pra
caramba! (Fausto)

Ao final, os rapazes dividiram a quantia arrecadada: metade para eles e outra para o cego. Com a parte que ficaram, os amigos tomaram três cervejas com tira-gosto e ainda pagaram um táxi até a universidade. “Foi um dinheiro bom! O ceguinho pediu: ‘Na próxima semana, vocês vêm de novo?’. O cego ficou achando uma maravilha!”, diverte-se Rodger.



Meia oito

 
O penúltimo ano da década de 1960 foi marcado por diversos festivais de música, espalhados pelo Brasil: I Festival Universitário de Música Popular, em Porto Alegre; Festival de Juiz de Fora; II Festival Fluminense da Canção, em Niterói; III Festival Nacional da Música Popular Brasileira, no Rio de Janeiro, entre outros.
Fortaleza não ficou de fora. Em dezembro de 1968, realizou-se na cidade o I Festival de Musica Popular Aqui no Canto, da Rádio Assunção, organizado por Aderbal Freire Filho. A comissão julgadora era composta por músicos, entre eles Fausto Nilo e Mércia Pinto.



O nome do festival era uma brincadeira com o ato de cantar e o fato de a maioria dos festivais de música da época ocorrer no Rio de Janeiro. Esse era diferente, “aqui no canto do Brasil”. As apresentações aconteceram no auditório do antigo Colégio Jesus Maria José, no Centro.
Na primeira eliminatória, a música Tempo de Ciranda, de Braguinha e Dedé Evangelista, ficou em primeiro lugar. Entre as concorrentes, havia Andante, de Rodger, eO Santo, de Sérgio Pinheiro. O festival, porém, não tinha a intenção de premiar vencedores, e sim de selecionar as 12 melhores canções para compor um disco.
Entretanto, pouco antes da final do Aqui no Canto, o então presidente do Brasil, Artur da Costa e Silva, aplicou aquele que seria o mais duro golpe na democracia, o Ato Institucional número 5 (conhecido como AI-5). No dia 13 de dezembro de 1968, o AI-5 entrou em vigor.

Entre as principais determinações do decreto federal, destacavam-se a proibição de manifestações populares de caráter político; a censura prévia para jornais, revistas e expressões artísticas (como música e teatro); e a suspensão do direito de habeas corpus em casos de crimes que iam “contra a segurança nacional”.
Nesse ano, diversos estudantes, artistas e jornalistas foram presos. Fausto Nilo foi um deles. Em outubro de 1968, ele foi levado pelos policiais do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) durante o 30º Congresso da UNE, em Ibiúna – cidade a 70 quilômetros de São Paulo. Fausto ficou detido por uma semana, mas faz questão de deixar claro que nunca foi torturado.

Em contrapartida, a juventude da época criou o lema “é proibido proibir”. Movimentos estudantis de todo o País encabeçaram protestos contra a política tradicional e a favor da liberdade de expressão. Ao mesmo tempo, outras mobilizações ocorriam em diversos países, como a Revolução de Maio de 68, em Paris, liderada por estudantes e considerada a maior greve geral da história.

Apesar de os anos 1969 e 1970 não terem sido fáceis, devido ao clima de tensão instaurado com o AI-5, os jovens não deixaram de sonhar – e festejar. A esperança em um futuro melhor e na reinstauração da democracia no País servia de estímulo para que a luta e os encontros da boemia continuassem.
Como prova disso, em 1970, inicia-se o período de maior movimento no Bar do Anísio. De segunda a segunda, o local era invadido (no melhor sentido da palavra) por estudantes universitários, artistas, jornalistas e boêmios. Muitos deles, novos no recinto, como José Ednardo – ou, como ficou conhecido posteriormente, Ednardo. O jovem músico costumava ir ao antigo Cine Diogo aos sábados, assistir aos chamados “filmes de arte”. Nesse tempo, Anísio ainda se dividia entre o bar e o emprego de ascensorista no Edifício Diogo.


A gente acabou fazendo amizade com o Anísio. Ele disse: “Olha, eu tenho um barzinho que fica ali na Beira-Mar. Se vocês quiserem ir lá, sempre vou guardar umas cervejinhas, tem biquara frita”. Aí pronto. De uma maneira espontânea, o Bar do Anísio começou a ser um ponto de referência. De manhã, de tarde, de noite, sempre tinha alguém lá. (Ednardo)

O grupo de novos fregueses começou a aumentar. Além de Ednardo, Augusto Benevides (Guto); Isabel Lustosa; Pedro Carlos Álvares (Pedrão); Alano Freitas; Mércia Pinto, Emília Augusta; Campelo Costa; o já citado grupo de amigas Annuzia, Maria Zélia, Marisa, Airam e Denise; entre outros. Cláudio Pereira, que se tornaria vizinho do Anísio em pouco tempo, também passa a frequentar o bar com mais assiduidade no início dos anos 1970.

Começou a aumentar (o número de fregueses). O Anísio ficava superfeliz. A gente tocava muito nas mesas. Não era um show de bar. Era uma reunião
onde se juntavam várias mesas, um ficava mostrando música pro outro, combinando parcerias. Várias músicas foram feitas lá. (Ednardo)


Em meio a conversas divertidas e sinceras, piadas e copos de cerveja, diversas frases inspiradas e acordes de violão iam surgindo. Foi assim que a canção “Carneiro”, parceria de Ednardo com Augusto Pontes, foi composta, por exemplo.
Já no início dos anos 1970, esses e outros jovens artistas sonhavam em sair de Fortaleza em busca de sucesso e realização profissional no Rio de Janeiro ou em São Paulo. Certa noite, Ednardo, ansioso por gravar e tornar conhecidas as composições que fazia, colocou esse assunto em pauta nas mesas do Anísio, ao lado do amigo Augusto. “Quero ir-me embora daqui pro Rio de Janeiro”, disse Ednardo.


Na outra vez em que nos encontramos, ele (Augusto) chegou com umas 10 páginas datilografas com uma letra enorme, enorme! (risos) Era quase um roteiro musical, porque ele misturou várias situações daquele momento, como a vontade de sair de Fortaleza para alcançar um lance mais amplo. (Ednardo)
Ednardo “pinçou” uns pedacinhos da letra de Augusto e complementou com algumas ideias pessoais. Na outra vez em que os dois se encontraram no bar, a música já estava pronta. “Carneiro” acabou sendo resultado de uma mescla das frases de Augusto com as de Ednardo, como numa conversa.

— Amanhã, se der o Carneiro, vou-me embora daqui pro Rio de Janeiro. As coisas vêm de lá, eu mesmo vou buscar, diz Augusto.
— Vou voltar em vídeo tapes e revistas supercoloridas, complementa Ednardo.
— Pra menina meio distraída repetir a minha voz, continua Augusto.
— Que Deus salve todos nós e Deus guarde todos vós, arremata Ednardo.


“Aí pronto. Ela ficou sintética, sincrética e disse tudo. Até hoje essa música é um referencial”, orgulha-se Ednardo. A verdade é que a música evidenciava o desejo real desses jovens de viver da própria arte, das próprias ideias. Trabalhar numa empresa, dentro de uniformes e seguindo regras, não preencheria a vida de nenhum deles.
Era preciso sair de Fortaleza, ganhando ou não no jogo do bicho (como sugere Augusto, ao dizer “se der Carneiro”), e voltar à terra natal como músicos bem sucedidos e não mais aspirantes a artistas.
Voltar, quem sabe, em gravações de vídeo e em revistas supercoloridas. 


Carneiro, de Ednardo
em parceria com Augusto Pontes


Amanhã se der o carneiro
O carneiro
Vou m’imbora daqui pro Rio de Janeiro
Amanhã se der o carneiro
O carneiro
Vou m’imbora daqui pro Rio de Janeiro
As coisas vêm de lá
Eu mesmo vou buscar
E vou voltar em vídeo tapes
E revistas supercoloridas
Pra menina meio distraída
Repetir a minha voz
Que Deus salve todos nós
E Deus guarde todos vós
 


Outra música que Ednardo lembra-se de ter composto no Bar do Anísio, junto com o poeta Brandão, chama-se Alazão. Brandão havia escrito uma carta ao músico Belchior contando que estava com a ideia de fazer uma música chamada “Alazão”. Belchior respondeu agradecendo-o pela lembrança e dizendo que faria a canção.
Brandão ficou apreensivo. “Será que Belchior entendeu errado, achando que dei a ideia para ele fazer a música sozinho?”, questionou-se. Antes de obter  qualquer resposta, decidiu-se por compor logo a canção em parceria com o amigo Ednardo. Quando terminou de escrevê-la, levou a letra pronta, manuscrita, ao Bar do Anísio.
Ednardo, que estava com o violão, fez alguns acordes iniciais, apenas a “estrutura básica”. Mas, aos poucos, foram chegando muitas pessoas às mesas, alguns muito “zoadentos” (palavras de Ednardo; significa “barulhentos”), a ponto de desconcentrar os músicos. Ednardo, então, disse a Brandão que terminaria a música em casa. No dia seguinte, já com a canção pronta, apresentou-a no bar.



O Anísio, sentado em uma mesa ao lado, prestando atenção. Depois, foi
pegar duas cervejas, botou na mesa, sem a gente pedir, e disse: “Sei que vocês
vão comemorar. Tá muito legal esta aí.” (Ednardo)

 
Alazão, de Ednardo
em parceria de Antônio José Soares Brandão

 
De qualquer jeito é cedo
De qualquer jeito há medo
De qualquer jeito
A força vem do braço
Ou da palavra sai
Corre
Toca o alazão, meu pai
Na poeira cinzenta, o sol
E o cavalo vai
Na poeira cinzenta, o sol
E o cavalo vai
Estrela branca na testa, alazão
Me veste de perneira e gibão
Arranca meu sorriso do chão
Abre os meus braços na imensidão
Qualquer soluço é pressa
Qualquer dinheiro é pouco
Qualquer desejo é reza
Qualquer promessa só da boca sai
Corre
Toca o alazão, meu pai
Na poeira cinzenta, o sol
E o cavalo vai
Na poeira cinzenta, o sol
E o cavalo vai
Há um direito e um torto, cavalo ê
Eu não estou bem morto, cavalo ê
Corre na areia, no vento, cavalo ê
No mato seco do tempo, cavalo ê
Pula da torre da igreja
Pula por cima da mesa 


“Alazão” é uma música quente e densa. Uma poesia que fala da insuficiência de desejos e dinheiro, de promessas que saem da boca e só, da corrida solitária de um cavalo sertanejo. Já outra canção de Ednardo, uma das mais famosas do músico, trata exatamente do oposto, de amores e sorrisos à beira-mar, esta que dá nome à música.
Nessa época, Ednardo conciliava as aulas do curso de Engenharia Química na UFC com o emprego na fábrica de asfalto da Petrobras, no Mucuripe – posteriormente conhecida como Lubnor. Foi numa noite de carnaval, durante o trabalho, que o estudante compôs uma das canções mais marcantes da trajetória musical dele, intitulada “Beira-Mar”. 


Mas ela foi terminada no Bar do Anísio, que ficava a caminho da fábrica.
Muitas vezes, antes de ir trabalhar, eu passava lá, tomava umas cervejinhas.
Mas sem me embriagar muito, porque eu ia trabalhar numa fábrica de alta periculosidade. (risos)(Ednardo)



Crédito: Livro Bar do Anísio - Casa de Liberdades de Isabela Bosi - 2012

sábado, 23 de fevereiro de 2019

Bar do Anísio

Anísio fazia as vezes de garçom, cozinheiro,
cobrador, jogador de cartas e, principalmente, pai. Além dos cinco filhos biológicos, assumiu a paternidade de um sem número de jovens que iam diariamente ao bar, o qual também era a casa de Anísio, em busca de um espaço acolhedor e libertário.

Eu reconheço pela praia. Se eu for andando pela praia, eu sou capaz de saber: o Anísio era ali. Mas, se eu for olhando pelos prédios, eu não sei.
Fausto Nilo

 
Eu vejo aquele pé de oiti e é a minha referência. Lembro-me muito bem de que a gente sentava no Anísio e o pé de oiti estava um pouco à esquerda. Pé de oiti grande que ainda está lá.
Flávio Torres




É exatamente... Hoje, tem o Edifício Trapiche no lugar onde era o Restaurante Trapiche. Se você estiver olhando para o mar, ele ficava logo à esquerda desse prédio.
Guto Benevides

No estacionamento do Edifício Scala. A entrada do estacionamento era a entrada da casa. É tanto que tem uma árvore na frente que é a história da gente.
Nísia Muniz (filha de Anísio)

Sabe onde tem o Scala? Era por ali. Tem um transformador grande da Coelce. Era ali colado na casa dele.
Rodger Rogério




Era o ano de 1958. A cidade de Fortaleza começava a deixar antigos costumes para tornar-se grande, ampliando as fronteiras do Centro em direção ao mar. O Porto do Mucuripe comemorava o quinto aniversário da atracação do navio Vapor Bahia – a primeira de muitas. O Iate Clube completava quatro anos de vida e festas. Iniciava-se um período de movimentação na Beira-Mar. A região, antes vista com preconceito, povoada por pescadores e prostitutas, passou a ser visitada pela alta sociedade, que se hospedava em pequenas casinhas na areia durante as férias.



Foi nessa Beira-Mar em construção, mistura de casas de veraneio e jangadas, que a família Muniz escolheu morar. No final da década de 1950, Anísio Muniz de Souza e a esposa, Maria Augusta Pessoa Muniz (dona Augusta), tinham quatro filhos. Nísia, caçula na época, tinha apenas dois anos e uma recente coqueluche. Para que a menina ficasse boa logo, a prescrição do médico foi categórica: pelo menos um banho de mar ao dia. Anísio passou a visitar diariamente o irmão Cristovão, que morava na Beira-Mar havia algum tempo, como desculpa para acelerar a cura da filha.

As idas, porém, tornaram-se cansativas. Sair do bairro Parque Araxá para ir à praia era quase uma viagem diária. Anísio ainda trabalhava como ascensorista do Edifício Diogo, o que tornava a viagem mais longa: da casa no Parque Araxá à Beira-Mar, da Beira-Mar ao Centro, do Centro à casa novamente. Todo o percurso sem carro. Mas Nísia
melhorava aos pouquinhos e deixar de levá-la para banhar-se no mar não era alternativa. Os pais decidiram, então, mudar-se para uma casa próxima à de Cristovão e morar na beira da praia.



Em pouco tempo, a coqueluche deixou o corpo de Nísia, e a vida no novo bairro tornou-se prazerosa para a família. O mar perto de casa, a maresia entrando sem pedir licença, vizinhos que se convertiam em amigos. Entre eles, donos daquelas casas de veraneio. Homens que durante a semana também frequentavam o Edifício Diogo a negócios.

– Bom dia, seu Anísio. Vou pro terceiro andar. O senhor está morando na Beira-Mar agora, né? Eu costumo passar as férias lá, com minha família! O que faz falta é um lugarzinho bom para comer por ali, viu? A sua esposa cozinha bem, não é? Já ouvi maravilhas da comida dela! Por que vocês não começam a vender uns salgadinhos por ali? Garanto que eu e muitos amigos iríamos! Vou ficando por aqui, Anísio. Bom dia!


Dona Augusta, que adorava cozinhar e o fazia com maestria, gostou da ideia. A venda de alguns pratos certamente ajudaria na renda familiar. Começou fazendo croquete. A cabeça de lagosta, dispensada pelos pescadores que só aproveitavam a cauda, servia maravilhosamente para rechear o salgadinho feito com esmero por Augusta. Tapioca,
café e água de coco também compunham o cardápio da cozinheira.
Os amigos do Edifício Diogo passaram a visitar o Anísio. Sentavam-se na varanda da casa e deliciavam-se com os quitutes de dona Augusta. 



Um dia, entre uma mordida e outra na tapioca com manteiga, o amigo Valdir Peixoto pediu: 

“Anísio, bota uma cervejinha quando a gente vier aqui”

O pedido era pertinente. O movimento estava crescendo e gerando até certo lucro para a família, que agora contava com uma nova integrante: Maria da Graça, a caçula. Vender cerveja com certeza atrairia mais clientela ao local. Havia apenas um empecilho: a família não tinha uma geladeira apropriada para colocar a bebida.

– Não tem problema! Eu compro a geladeira e trago os amigos. – disse Valdir.
Em 1961, junto com a pequena Graça, nascia o bar e restaurante O Anísio – Peixada – popularmente conhecido como Bar do Anísio. Algumas mesas de madeira na varanda da casa, com chão de tijolo vermelho. Era ali que os amigos se reuniam para conversar, comer e agora beber uma cervejinha gelada, com vista privilegiada para o mar.




O início dos anos 1960 foi também o início da gestão de Parsifal Barroso. Durante o mandato do governador do Ceará (1960-1963), o arquiteto Hélio Modesto foi contratado para elaborar o Plano Diretor de Fortaleza. Nele, estava prevista a construção de um sistema viário que conectaria as diversas regiões da cidade. O projeto não teve continuidade, a não ser pela pavimentação da Avenida Beira-Mar. Responsável por ligar a região do Mucuripe à Barra do Ceará, a via foi construida com investimentos dos setores público e privado.
Assim, iniciava-se a urbanização da Beira-Mar, que mudaria por completo a paisagem e a história da cidade. O imenso areal, cheio de casinhas de taipa, foi ocupado por máquinas e trabalhadores. A obra, feita em etapas, durou cerca de cinco anos. A avenida foi inaugurada
em 1965, convidando os fortalezenses a colorirem a beira da praia com seus fuscas.





Bar que também era casa

O Bar do Anísio ficava na parte da frente da casa. Na cozinha, dona Augusta fazia delícias gastronômicas para os fregueses e também as refeições da família. “Da cozinha pra frente, era o bar. Para trás, era a casa. Mas a nossa casa era tudo, porque a gente vivia mais no bar do que na casa”, rememora Nísia.


Os limites de público e privado eram nebulosos, quase inexistentes. Se para Nísia e os demais filhos de Anísio o bar também era a casa, para os frequentadores assíduos não era muito diferente. A sensação era a de estar em casa.



A intimidade com os donos era tanta que, muitas vezes, Anísio ia dormir e deixava o bar aberto. Em vez de expulsar a garotada, dava boa noite, pedia para separarem as cervejas que bebessem no canto e voltassem no dia seguinte para pagar. “Ele deixava o cadeado, a gente fechava o bar e no outro dia ia lá pagar”, lembra Flávio.

"Se um passasse mal, dormia por lá, sabe? Eles botavam uma rede nos coqueiros lá do outro lado. Aquele que capotava dormia e acordava de manhã com o Sol na cara." (risos) (Annuzia)
 

Sempre que alguém bebia além da conta, Anísio e Augusta cuidavam para que ninguém voltasse para casa dirigindo. Por isso, no quintal dos fundos, tinha uma rede preparada para receber quem precisasse dormir um pouquinho antes de pegar no carro. Alguns grupos tinham certa prioridade em relação aos demais. Fausto, Flávio, Rodger, Augusto, Annuzia, Maria Zélia e Marisa eram alguns dos jovens que sempre teriam vaga na redinha.



Tinham uns que a mamãe e o papai adotavam. Quando estava bêbado, ela
pegava a chave (do carro), guardava e não deixava sair de jeito nenhum. Não
eram fregueses, era gente da família. É tanto que todo mundo chamava ela (Augusta) de mãezona, de tia.
(Nísia)


As histórias que aconteceram ali são inúmeras. Muitas se perderam no tempo e na memória dos que viveram o bar. Outras, porém, permanecem guardadas na lembrança, inesquecíveis. Como o dia em que Rodger provou do chá de zabumba, grande novidade na época que
prometia alucinações.
 

Um dia, chegou um grupo de rapazes mais jovens no bar, comentando sobre a bebida. “Eu fiquei mangando deles: ‘Isso faz nada, rapaz! Adianta nada! Aí (eles disseram:) ‘Pois bebe!’. Aí eu bebi um bocado”, conta Rodger. Flávio recorda que, às três horas da manhã, neguim (como chama carinhosamente o amigo Rodger) atravessou a rua e foi para o lado da praia – em frente ao Bar do Anísio e ao lado do pé de oiti – experimentar o tal do chá.



Aí pronto. Não tinha quem fizesse ele voltar pra rua. O neguim lá sozinho, abraçado com esse pé de oiti. (risos) E não vinha, não vinha. O Rodger, com medo, disse que a rua era um buraco. Agarrado no pé de oiti e a gente arrastando. Um negócio doido essa zabumba. (Flávio)
(muitos risos) Não foi bem assim. Eu fiquei louco, completamente louco. Eu queria atravessar a rua, mas não conseguia, porque a rua ficou como se fosse água, ondulando. Os carros vinham e eu dizia que não conseguia passar com a rua ondulando daquele jeito. Eu não me agarrei ao pé de oiti, mas fiquei sentado do lado. (risos) (Rodger)

Rodger permaneceu do outro lado da rua até o dia clarear e ele se sentir “com forças” para deixar a companhia da árvore e atravessar a avenida. O pé de oiti era um grande (talvez o maior) espectador das noitadas do Anísio. Testemunha de todas as histórias do bar. A árvore
acompanhou o início de tudo, permaneceu de pé após a pavimentação da Beira-Mar e segue ali até hoje, guardando para si todas as histórias que presenciou.
 


Antes mesmo de Anísio mudar-se para o Mucuripe, a árvore já existia no mesmo local: em frente ao que se tornaria o bar, na fronteira da avenida com a praia. A diferença é que, antes de a família chegar à Beira-Mar, o oitizeiro ficava dentro de um terreno baldio rodeado de
lixo. Durante o calçamento da avenida, em 1960, esse pequeno monturo e diversas árvores também foram removidos – menos o oiti.

Ainda bem. Porque ela era muito linda. Linda, linda. A copa dela parecia um cabelo. O vento batia e ela se movia. É a única árvore que ficou ali. Lá em casa, tudo era ali (no oiti). Tomava-se café, botava-se a mesa lá. Aquele pé de oiti, se falasse, contava toda a história de tudo, de tudo! (Nísia)



Crédito: Livro Bar do Anísio - Casa de Liberdades de Isabela Bosi - 2012

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