Fortaleza Nobre | Resgatando a Fortaleza antiga
Fortaleza, uma cidade em TrAnSfOrMaÇãO!!!


Blog sobre essa linda cidade, com suas praias maravilhosas, seu povo acolhedor e seus bairros históricos.

terça-feira, 20 de março de 2012

A Fortaleza em suas Ruas, Avenidas, Travessas... Parte IV



Esse é o quarteirão da antiga Travessa São Francisco, hoje Rua Perboyre e Silva, entre as ruas do Rosário e Coronel Bizerril, atual General Bizerril. Hoje essas construções são ocupadas por casas que vendem produtos de informática, CDs, DVDs, tinta para impressora, reabastecimento de cartuchos... Arquivo Nirez

 

Av. Visconde de Cauipe hoje Av. da Universidade, esta foto foi feita entre a Avenida Domingos Olimpios e Antônio Pompeu - Arquivo Nirez

 

Avenida Duque de Caxias entre Rua General Sampaio e Rua 24 de Maio, lado par. Aos poucos essas casas foram sendo alteradas, com as portas alargadas para o comércio.  Não há toda essa quantidade de casas no local hoje em dia, talvez umas 5 ou 6. As que sobraram, viraram pontos comerciais e as portas e janelas foram substituídas por portas de enrolar de aço, deixando somente a parte superior da fachada inalterada. Arquivo Nirez

 

Avenida Rui Barbosa no seu início.  No fundo da foto, no lado esquerdo, podemos avistar o Ideal Clube. Foto de 1943 - Arquivo Nirez

 

Rua Floriano Peixoto esquina com Senador Alencar - Destaque para o maravilhoso Banco Frota e Gentil 

 

Esquina da Rua General Sampaio com Rua Guilherme Rocha
Esse era o Bar Americano, de Pedro Benício Sampaio, foto interna que data de 14 de janeiro de 1951, onde se vê algumas pessoas e coisas interessantes. Na porta, avistamos a Praça José de Alencar que ficava em frente. Era uma espécie de mercearia de primeira ordem misturada com bar. Próximo à porta vemos um juke-box (máquinas que tocava discos). Das pessoas presentes é possível reconhecer, da esquerda para a direita de quem olha: Iran Benevides, Assis Ibiapina, Bruno Maia, Arnolfo Fontenele, o locutor Aderson Braz, Carlito Costa, Luiz Cândido Costa Filho (o Rei Momo Luizão I e único), Pedro Benício Sampaio - proprietário do bar - e alguns fregueses. Arquivo Nirez

 

Esta foto é da Avenida João Pessoa, vendo-se o Bar Avião, inaugurado, em 23/10/1949, em Parangaba, na entrada da Rua 15 de Novembro, construído por Antônio de Paula Lemos, seu primeiro proprietário, que faleceu em 1958, ficando seu filho José Odacir Natalense Lemos à frente do bar. Depois foi alugado a Emanuel Sá Linhares. Atualmente funciona no local uma borracharia. 

 

Rua Liberato Barroso vendo-se a Diretoria do Centro de Saúde Pública e ao lado o Centro de Saúde e o Teatro José de Alencar - Arquivo Jaime Correia

 

Av. da Universidade -  Essa é a Casa de cultura alemã- Foto de 1966

 

Bairro do Benfica vendo-se o Estádio Presidente Vargas - Arquivo Nirez

 

 Av. Duque de Caxias e o Bloco Enviados de Alá. Este bloco surgiu como "En VIADOS de Alah", depois, com a receptividade popular, ele se transformou nos "Eviados de Alah" e fez muito sucesso. Eles cantavam a marcha de Nássara "Alá La Ô" em ritmo de samba, o que não dava certo, ficava forçada a letra na melodia. Aí estão em frente a Igreja do Carmo. Foto de 1972. A partir de 1973 o carnaval passou para a Av. Aguanambi. Arquivo Nirez

Antônio Luís Monteiro diz: O bloco antes era assim chamado: "HEIM? VIADOS DE ALÁ" e logo depois com a crise internacional do petróleo e o aparecimento em Paracurú virou "ENVIADOS DE ALÁ" e um dos primeiros temas e música foi "O PETRÓLEO É NOSSO!"

 

Bondinho indo pela Av. Pessoa Anta, Praia de Iracema, se preparando para entrar na Av. Alberto Nepomuceno, na esquina da SEFAZ, em direção a Fortaleza de N.S. da Assunção Nesse recanto bucólico ficava, além dos consulados a empresa marítima mais importante na cidade, o Loyde Brasileiro

 

 O famoso "Café Belas Artes", de Osvaldo José Azin, que ficava no térreo do Palácio do Comércio, inaugurado em 15 de maio de 1940 e fechou as portas em 16 de maio de 1973. Ficava  ao lado da Livraria Arlindo, em frente ao Museu do Ceará.

 


 

Café Vera Cruz, na Rua Paulino Nogueira na Gentilândia. Este que está encostado na Kombi é o Henrique Guimarães. Depois o Café se mudou para o Montese e passou a se chamar Café Guimarães.
Detalhe: Atrás ficava o portão do Estádio Presidente Vargas.

 

Caixas d'água do Benfica - Essa é a Praça de Pelotas, que unificava os espaços onde hoje ficam a Praça Clóvis Beviláqua , a faculdade de direito da UFC e as caixas d'água. Neste local funcionou o primeiro sistema de abastecimento público de água de fortaleza.
Essa foto deve ser de aproximadamente 1931 a 1934.
obs.:A Faculdade de Direito é de 1903, mas o atual prédio foi inaugurado em março de 1938. Nirez

Essas caixas d'água foram construídas no governo de Nogueira Acioly em 1911, mas com sua deposição, o serviço ficou parado até 1926 quando foram recobertas de concreto e inauguradas. Arquivo Nirez

 

Rua Floriano Peixoto próximo ao Passeio Público - Essa é Casa da firma J. Augusto Araújo & Cia - Esta casa, na época da foto, tinha os nºs 133 e 137. Abrigava na parte superior o Sindicato dos Condutores de veículos Rodoviários e os escritórios de Olímpio Galdino de Sousa, proprietário de salinas. No térreo era ocupado pela firma J. Augusto Araújo & Cia. Arquivo Nirez

Foto atual de Sidney Souto

Foto atual de Sidney Souto 


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domingo, 18 de março de 2012

Um Àlbum de Relíquias II


Praia do Peixe (em 1925 receberia o nome de Praia de Iracema) em 1921 – Da esquerda para direita: Adília de Moraes, Júlia Galeno e Henriqueta Galeno.

 

Praia do Peixe em 1921 – Da esquerda para direita: Adília de Moraes, Henriqueta Galeno, Demócrito Rocha, Júlio Maciel, Beni Carvalho e Gastão Justa.

 

Praia do Peixe em 1921 – Da esquerda para direita: Demócrito Rocha, Cruz Filho, Beni Carvalho, Júlio Maciel e Gastão Justa.

 

Praia do Peixe em 1921 – Da esquerda para direita: Demócrito Rocha, Henriqueta Galeno, Júlia Galeno, Beni Carvalho (em pé), Adília de Moraes, Gastão Justa e Júlio Maciel.

 

Praia do Peixe em 1921 – Da esquerda para direita: Júlio Maciel, Demócrito Rocha, Henriqueta Galeno, Júlia Galeno, Cruz Filho, Adília de Moraes e Gastão Justa.

 

Praia do Peixe em 1921 – Da esquerda para direita: Cruz Filho, Júlia Galeno e Henriqueta Galeno.

 


Agradecimento ao amigo Clóvis Acário Maciel

quinta-feira, 15 de março de 2012

A Vila Gentil III


Descrever a localização das casas com os nomes dos moradores é uma tarefa muito difícil, ou quase impossível. Foram dezenas de famílias que por ali passaram em um quarto de século. Uns mudaram de local na mesma vila, outros demoraram pouco, sendo ocupadas durante certo tempo por vários inquilinos. Vamos tentar dar informações gerais sobre esse fato sem descaracterizar o todo. As omissões ficam justificadas.


Ônibus da Empresa Santo Antônio que fazia a linha Maracanaú, estacionado em frente a sua primeira sede na Travessa Sobral, 91. Em 1962 – Arquivo Cepimar


Rua Redenção antiga Travessa Sobral. Conhecida, inicialmente, como Vila Gentil por ter sido a primeira vila construída, no ano de 1931.

Arquivo Elmo Júnior.

Aquelas construídas na Travessa Sobral, localizadas no outro lado dessa quadra eram, também, casas simples, menores que as citadas. Entre os dois conjuntos existia um terreno estreito, arborizado, onde existiam longas fossas para serventia delas. Lembro-me que morava ali a família de um cidadão que trabalhava de vigia e complementava seu salário vendendo carvão para a vizinhança. Moramos em frente a esse terreno na rua Padre Francisco Pinto, nº. 382, esquina com a Vila Santana, que falaremos mais adiante. O sistema de esgotos da Gentilândia nunca deu problemas ao longo de décadas, e se distribuía em vários locais da vila.


Vila Santana com entrada pela Rua Padre Francisco Pinto, 2006.

Arquivo Elmo Júnior

Na citada Travessa existiam casas mais simples no lado do poente, confrontando com estas, no outro lado da rua, as casas estavam fora dos padrões destas; possuíam um pequeno recuo, eram um pouco maiores e mais bem acabadas. Lembro-me que moraram ali, no lado do poente, um colega da Escola Padre Anchieta, chamado José Barrocas; outro o “Quim”, devia se chamar Joaquim, seguiu a carreira militar, na Aeronáutica, seu irmão Luiz, foi Agente Fiscal do Imposto de Consumo, seu pai era pequeno negociante no Mercado Central. No outro lado da rua o Sr. Aneuso Gurgel da Silva Rossas, sócio da Livraria Gurgel, e seus filhos Neuisa, Luciano, Hamilton, Neide, Rutênio e outras moças, que não me vem a lembrança; ele era irmão do Sr. Zenith Gurgel da Silva Rossas, casado com D. Betina, neta do coronel Gentil, que morava na Rua Nossa Senhora dos Remédios. O Fausto Pontes, irmão do Augusto Pontes, ex-Secretário da Cultura do Estado do Ceará. Muitos ali residiram de passagem; dentre outros o Sr. Marcelo Benevides.

Escola Industrial (atual Centro de Educação Tecnológica do Ceará – CEFET), instalada em sede própria na av. 13 de maio, onde existia o Campo do Prado. Arquivo MIS

Na rua 13 de Maio (depois avenida) correspondente a Vila Gentil existiam apenas três quarteirões pertencentes a Imobiliária. No primeiro, ocupando meia quadra, existia a mansão da família Gentil, no segundo quarteirão, apenas uma, localizada na esquina da rua Nossa Senhora dos Remédios, onde morava o subtenente Tobias, pai do Mauricio, que seguiu a carreira militar chegando a coronel do exército, e mais duas irmãs. O terreno que lhe seguia era todo murado, correspondendo a um quarto da respectiva quadra, não possuía construções, apenas muitas mangueiras onde foram guardadas capotas dos bondes desativados. Vem-me a memória uma frondosa mangueira de mangas coité, assim chamadas por serem muito grandes, existente naquele terreno, localizado na esquina da rua Rodolfo Teófilo. Alguns meninos da Gentilândia brincavam de pega-pega sobre elas. Esse lugar era vigiado por uma família humilde, recém- chegada do interior. Na quadra seguinte, existia um mangueiral, onde atualmente é o Parquinho da Gentilândia, ou Praça José Gentil,
onde jogávamos futebol.



Portão principal do palacete do Cel. José Gentil, localizado na esquina das avenidas 13 de maio e Universidade, antiga Visconde de Cauípe, durante algum tempo permaneceu como entrada principal da Sede da Reitoria da Universidade Federal do Ceará. Arquivo Nirez, 1959.

Naquela época o Antônio Gumercindo, famoso torcedor do time do Fortaleza, era um dos poucos “dono da bola” pois não era um objeto comum. A dele era grande e de borracha, aquelas de couro eram luxo.
As “bolas de meia” eram as mais comuns para se jogar “gol a gol”. As duas casas seguintes, no outro quarteirão, foram demolidas com o alargamento da rua 13 de Maio e faziam parte da Vila Santo Antônio. Habitaram nelas, por algum tempo, o Raimundo Elmo de Paula Vasconcelos, meu confrade no Instituto do Ceará e professor da Universidade Estadual do Ceará, e o Renan Montenegro, atualmente conceituado médico endocrinologista, nosso contemporâneo no Ginásio Sete de Setembro. Seguia-se o bar Ponto Chic, muito famoso naquela época, onde findava a linha do bonde do Prado.
O lado fronteiro a esse que descrevi não pertencia a Vila Gentil, mas era historicamente uma parte dela porque seus moradores se interrelacionavam. Na esquina da rua 13 de Maio com a avenida Visconde de Cauipe, encontrava-se a mansão do Sr. Francisco Queiroz, em estilo europeu, atualmente é o Centro de Cultura Germânica da UFC, em seguida vinha um sobrado onde residia o comerciante Francisco de Oliveira, casado com D. Maria Mendonça de Oliveira e filhos. A Marta de Oliveira Sampaio, sua filha, era casada com o Fernando Sales Sampaio (Fernandão), assim chamado pelos amigos devido sua estatura elevada. O Fernando teve morte prematura em um acidente, e quando solteiro,
morava na rua Rodolfo Teófilo. No sobrado que lhe seguia morava o médico oftalmologista Honório Correia Pinto. Após um terreno grande, murado, encontrávamos a sobrado de residência de outro médico, o professor Joaquim Alencar, e logo após, encontrava-se uma sequência de casas conjugadas duas a duas que iam até a esquina da Rua Rodolfo Teófilo. Na primeira delas morou meu colega de Escola Padre Anchieta e amigo, Luís Carlos Riquet Nogueira Aragão com sua mãe D. Corina (viúva) e três irmãs. Duas delas foram morar nos Estados Unidos. Seguiam-se outras onde residiam diversos membros da família Albuquerque de Souza, dentre as quais me lembro a de D. Souzinha, mãe do Deim, irmã
de D. Naninha, residente com suas filhas na Vila Santana, eram irmãs do desembargador Faustino de Albuquerque de Souza, ex-governador do Estado do Ceará; Wildson Monte Silva, contador, cunhado do Chico Periquito, assim chamado pelos amigos por falar muito; e D. Dodô, casada com o Sr Filipe, italiano. O Haroldo, filho deles, deu muito trabalho aos pais com diabruras, foi servir na Marinha. Seguia-se um terreno, depois ocupado pelas casas do advogado e professor do curso de jornalismo da UFC Luiz Queiroz Campos e aquela que pertenceu ao Artemilton Braga Arraes; antes moradores na Rua São José do Tauape, esse último residiu depois na rua Padre Francisco Pinto; seguindo-se residências já existentes, do Dr. Raimundo Araújo França, dentista, aquela do médico Dr. Pamplona, e mais outras.


Casa, 276 na rua Padre Francisco Pinto, onde residiu o Dr. Dorian Sampaio, 2006. Arquivo Elmo Júnior

A rua Paulino Nogueira não possuía muitas casas, mas confluíam para ela três vilas interiores, ditas particulares, denominadas Vila Santa Rita, Vila Santa Cecília e Vila Santa Luzia. No lado correspondente, onde atualmente encontram-se os blocos administrativos da UFC, existiam quatro frondosas mangueiras, junto ao meio fio, que eram usadas pelos namorados mais afoitos. Vizinho morava o Sr. Adolfo Gonçalves Siqueira, já idoso, casado com D. Amélia, foi ex-presidente da Câmara Municipal de Fortaleza, ex-prefeito interino de Fortaleza e presidente da Fênix Caixeiral por muitos anos; instituição essa considerada a de mais utilidade pública em Fortaleza. Essa casa fazia esquina com a entrada da Vila Santa Cecília. Na outra que lhe ficava fronteira, definindo a entrada dessa vila, morava o Dr. José Freire, agrônomo, que foi Inspetor Chefe da Defesa Sanitária Vegetal, no Ceará, casado com D. Consuelo Carvalho Freire, tinham oito filhos: José Geraldo, fiscal da Secretaria da Fazenda, Teodósio Mauro, comerciante, Maria Celina, funcionária pública, Maria Consuelo, professora do Parque das Crianças, casou-se com José Batista de Campos Paiva, funcionário dos correios, Maurício, funcionário da Defesa Animal, Maria Nilda (Anita) Freire Gomes, casou-se com o Gen. Valdir Gomes, Armado Máximo, comerciante, casado com Evangelina Barata Freire, Maria Helena Freire Arruda, casou-se com Eliano Arruda, advogado. Na casa vizinha, esquina com a rua Nossa Senhora dos Remédios, com frente para essa rua, morava o engenheiro da Prefeitura Nelson Machado, casado com D. Gabriela Fiúza Machado e seus filhos: Isnélio, Wanda, Nelson (Nelsinho), casou-se com a professora da UFC Maria Cecília Chaves, Helena, casou-se com o coronel do exercito Ney Borba.

Residência de Amélia Gentil de Aguiar na rua Paulino Nogueira, 1956.

Arquivo Elmo Júnior.


O quarteirão seguinte não possuía casas, apenas os muros laterais de residências de esquina que tinham frente para as ruas Nossa Senhora dos Remédios e Rodolfo Teófilo, respectivamente. Logo em seguida existia uma quadra, muito arborizada com mangueiras. Em sua primeira metade, funcionava o Serviço de Piscicultura da Inspetoria Federal de Obras contra as Secas (IFOCS) posteriormente chamadas DNOCS, depois de 1945. A segunda metade era ocupada pelo PARQUE DA GENTILÂNDIA já referido, um dos locais mais característicos da Gentilândia, com alamedas calçadas com piso de cerâmica vermelha, localizado entre as ruas Rodolfo Teófilo, Padre Francisco Pinto e São José do Tauape

Parque da Gentilândia, vendo-se ao fundo casas da rua São José do
Tauape. Na foto (1961) estão da esquerda para a direita: Ruth, Ângela, Valéria,
Maria de Lourdes, Simone. Maria de Lourdes ainda viva, lúcida, com 96 anos,
morando na Vila Santo Antônio. Arquivo de Pedro Alberto de Oliveira Silva

Na área da Piscicultura anteriormente encontrava-se um prédio muito bonito, onde funcionou o Gentilândia Club, logo após a criação da Vila Gentil, havendo ali festas muito concorridas, reunindo pessoas vindas de outros locais. Afirmava-se que ali havia jogo de baralho; o clube deixou de funcionar quando foi ocupado como sede do serviço de piscicultura.

 
Gentilândia Club, posteriormente sede da Piscicultura do IFOCS (Inspetoria

Federal de Obras Contra as Secas) e depois, DNOCS. (Arquivo Nirez).

Existiam, naquele local, muitos tanques de alvenaria cheios de água onde eram criados alevinos e peixes para estudos e distribuição para açudes. Existiam dois poços profundos, com respectivas caixas d’água, para uso da piscicultura e das casas que lhe ficavam adjacente na rua São José do Tauape, sendo uma delas localizada num pequeno local do lado de fora. Todo dia vinha um servidor da Gentilândia ligar um motor para encher a caixa. Esta quadra encontra-se totalmente ocupada por casas de aspecto variado e um prédio pertencente à UFC, funcionando como residência universitária.

No último, localizavam-se cinco casas. Na esquina com a São José do Tauape, residia o Sr José Gondim, pelo que me lembro, era viajante comercial, casado com D. Cristina Sales e seus filhos: Glice, casou-se com o professor Heródoto, Gelsa, casada com Joahannes Maehlmann (Rani), exportador. Posteriormente mudaram-se para a rua São José do Tauape no primeiro quarteirão. A casa que lhe seguia, fora dos padrões de outras da Vila, habitou o médico Hyder Correia Lima, casado com D. Sara, e seus filhos Iaci, Mário, médico destacado no Rio de Janeiro e a Emília Correia Lima (foi Miss Brasil), casou-se com um oficial da Aeronáutica. Depois foram morar na rua Carapinima, por trás da Igreja dos Remédios. Nesta mesma casa, morou um filho de um advogado chamado Renato, que me vem à memória, pois era o “dono da bola” de couro com a qual jogávamos futebol. Posteriormente o desembargador Zacarias Amaral Vieira, casado com D. Elza Amaral Vieira. Conhecemos dois de seus filhos: Francisco José Amaral Vieira, professor da UFC e o Roberto Amaral Vieira que foi Ministro da Ciência e Tecnologia, por algum tempo. A casa seguinte pertencia ao Dr. Roberto Bezerra de Menezes, casado com D. Eduarlinda. Vizinho encontrava-se três garagens que eram alugadas. Logo em seguida foi construído um sobrado por D. Amélia Gentil de Aguiar Figueiredoneta do Sr. José Gentil, casada com o Sr. Alceu Figueiredo. Dona Amélia negociava com jóias de Juazeiro, e depois que se mudou da Gentilândia abriu uma joalheria na rua Barão do Rio Branco. Eram filhos do casal: o Edson, o Dirceu, Alceu Carlos, chamado por nós, carinhosamente, de Brocoió, e a Alcélia (Nena). 
Finalmente encontramos no final desse quarteirão a casa do Sr. Renato Batista Carneiro casado com D. Maria Luiza Carneiro e tiveram onze filhos: João Batista, Eduardo, Osmar, Aldemar, José, Renato Filho, Maria Luiza, Maria de Lourdes, Mercedes, Iolanda e Fernando. Seu Renato era muito conhecido na Gentilândia, foi o primeiro motorista do coronel Gentil e depois, como funcionário da Imobiliária, era o cobrador dos alugueis das casas. Era mais um serviço especial para os moradores que não precisavam se deslocar para o Banco. Sua casa era bem ampla, alta e antiga, com um quintal bem grande. Ficava na esquina, bem em frente ao portão de entrada de carros para o Estádio Presidente Vargas. Nos quarteirões em frente a estes, na mesma rua, começando na avenida Visconde de Cauipe, havia o muro lateral da segunda casa daquela avenida construída por José Gentil para seus filhos. Nela morou seu neto Nestor Gentil, depois o Sr. José Albuquerque Monteiro, “Seu Pepino”, como era conhecido, que posteriormente mudou-se para a Rua Marechal Deodoro. Entre essa casa, de luxo, e a que lhe seguia, na esquina com a Vila Santa Rita, morava D. Francisca da Frota Gentil (Dona Chiquita) a filha solteira do Coronel Gentil. Sua casa era ampla, em um terreno de profundidade, mas sem luxo. Era uma pessoa muito simples, caridosa, e ajudava muito a Igreja dos Remédios. Presenteava, também, os padres com petiscos. Na referida esquina da Vila Santa Rita o Sr. Amélio João Terceiro Fiório, caminhoneiro e depois funcionário da Prefeitura Municipal de Fortaleza, casado com D. Luzanira Cabral de Araújo Fiório, irmã do conhecido radialista e ex-prefeito de Fortaleza Paulo Cabral de Araújo. No outro lado residia o Sr. Raul Memória, telegrafista dos Correios e Telégrafos (DCT), casado com D. Ester Maravalho e três filhos: Raimundo, postalista do DCT, José Afrânio Memória, médico oftalmologista, nosso colega do Liceu do Ceará, e um seu irmão, bem mais novo. Vizinho morava o Sr. José Domingos; o José Domingos (filho), casou-se com a teatróloga Glice Sales, e sua irmã Mirsa casou-se com um membro da família Mesquita. Essa casa fazia esquina com a Vila Santa Luzia. Fronteiro a ela, esquina com a rua Nossa Senhora dos Remédios, morava o advogado Francisco Vale. Filho do citado Lauro Vale. No quarteirão seguinte havia as laterais de duas casas. Após elas estava o atual Parque da Gentilândia (Praça José Gentil); era uma quadra sombreada com muitas mangueiras, onde a meninada e adolescentes do bairro jogavam futebol. Na esquina do parque, com a rua São José do Tauape, morou um cidadão da família Teles Campos, por algum tempo, e depois o Dr. Agamenon Frota Leitão; vizinho a essa casa residiu o Sr. Virgílio Alves Barata, depois residente na Vila Santa Rita. Era avô da Evangelina Barata Freire, e do Virgílio Alves Barata Neto, nosso grande amigo de adolescência. Seguia-se o outro parque arborizado, atualmente conhecido como Parque da Feira da Gentilândia, mas seu nome oficial é Isaac Amaral conforme a Lei 1422/05/10/1959, publicada na gestão do Prefeito Manuel Cordeiro Neto. Secretário Raimundo Girão.



Continua...

A Vila Gentil I
A Vila Gentil II

Crédito: Revista do Instituto do Ceará - 2010 
A Gentilândia e o bairro do Benfica de 
Pedro Alberto de oliveira Silva 
(Sócio efetivo do Instituto do Ceará)


terça-feira, 13 de março de 2012

A Vila Gentil II


Igreja Nossa Senhora dos Remédios na época da
Vila Gentil.

A presença da Igreja dos Remédios, foi uma das recordações queridas para nós e penso que para contemporâneos. A dedicação dos padres Lazaristas holandeses para com os paroquianos foi memorável. Atendiam aos fieis a qualquer hora do dia ou da noite que necessitassem de seus préstimos religiosos. As missas dominicais, dos dias santos e diárias, eram lembradas aos fieis pelo dobrar dos sinos, o Ângelus sempre nos levava a reflexão. O relógio, doado pelo coronel Gentil, batia os quartos, meia hora e as horas; ecoando para bem longe, estava sempre lembrando a Igreja. As aulas de catecismo ministradas por zelosas catequistas supervisionadas pelos padres era um reforço à fé católica. Havia, também, nos fundos da Igreja, o Salão São Vicente de Paulo onde ocorriam reuniões de várias natureza e a realização de aulas de alfabetização para adultos, geralmente ministradas por confrades da Sociedade de São Vicente de Paulo, os vicentinos, como eram chamados.
Foi marcante a participação histórica dela na vida social do bairro, como polo centralizador de pessoas das mais diferentes classes socioeconômicas, que tinham ali um lugar em comum. Por ser uma grande Vila, constituída por casas de aluguel com qualificações e preços diferentes,
vivendo num mesmo ambiente, formou-se nela uma verdadeira comunidade, no sentido exato do termo. Habitaram ali: profissionais liberais, comerciantes, comerciários, bancários, militares, funcionários públicos. Muitos foram temporários, outros permaneceram até a extinção da Imobiliária José Gentil, quando puderam comprá-las a prestação.

Além das missas que agregavam os moradores, pondo em contato direto uns com os outros, havia as novenas, principalmente as do mês de maio, dedicadas a Nossa Senhora, que atraiam grande número de fiéis do Benfica e de outros locais. Não era apenas o zelo religioso, era também o divertimento, principalmente para os jovens que iam ali para flertar, paquerar, somente que isso era um ato mais sentimental e casto. Os valores morais e éticos eram outros. Inesquecíveis foram as quermesses e os leilões organizados para angariar dinheiro para a realização de obras beneficentes da paróquia.

Os leilões eram uma vez ou outra realizados no pátio da Igreja, com doações de pessoas mais generosas. E pasmem, iam para leilão um frango ou peru assado, às vezes acompanhado com uma garrafa de vinho; um bolo confeitado, meia dúzia de garrafas de cerveja ou outros objetos de mais valor. Os arrematadores pagavam preços muitas vezes mais altos do que o valor real das prendas, a título de ajudar a renda do leilão ou para mostrar destaque financeiro. As quermesses duravam uma semana ou mais e tinham a mesma finalidade dos leilões. Algumas delas foram realizadas na rua Padre Francisco Pinto, ao lado da Casa das Missões, e o Dispensário dos Pobres, entre a avenida Visconde de Cauipe e a rua Carapinima, fechada ao tráfego de veículos que por sinal era muito pequeno, por não ser passagem de ônibus.
Outro local, coberto de mangueiras, onde se realizaram quermesses foi um terreno grande que havia entre a casa do senhor Joahannes Maehlmann, alemão de nascimento, gerente das Casas Pernambucanas, localizada na esquina da rua Padre Francisco Pinto e aquele onde existiu a mansão do senhor João Gentil depois Escola Doméstica, Ginásio Americano e Ginásio Nossa Senhora das Graças. Aquele cidadão possuía dois filhos: o Joahannes (filho), conhecido também por Rany, e sua irmã Aída, considerada uma das moças mais bonitas da Gentilândia.
O Rany afirmou que seu pai pagava Cr$ 400,00 de aluguel.


Mansão do Senhor João Gentil, posteriormente: Escola Doméstica, Ginásio
Americano e Ginásio Nossa Senhora das Graças. Foto tirada do alto da Igreja Nossa Senhora dos Remédios (Arquivo Nirez).

Atualmente todo aquele local está ocupado pelos blocos administrativos da Universidade Federal do Ceará. Alias, naquela época existiam apenas esses imóveis na avenida Visconde de Cauipe, confrontando com a Igreja dos Remédios e a Casa das Missões. No quarteirão que lhe seguia existia o terreno da mansão do coronel Gentil e mais duas casas de luxo que ele mandou construir para os filhos. O tradicional bairro do Prado estava localizado onde se encontrava o citado hipódromo e campo de futebol, e arredores. Logo após a construção do Estádio Presidente Vargas, no começo da década de 1940, aquela área ficou dividida pela rua Paulino Nogueira; ficando uma parte ocupada por aquela praça de esportes, e a outra desocupada. Nela funcionou por pouco tempo, durante a Segunda Guerra Mundial, o Serviço Nacional de Trabalhadores para a Amazônia (SENTA) onde ficavam em rudes telheiros os chamados soldados da borracha, esperando embarque para o Amazonas onde deveriam extrair borracha dos seringais como esforço de guerra. É um assunto pouco conhecido de nossa história. Aqueles operários ficaram ao findar a guerra completamente abandonados pelo poder público, entregues a própria sorte.

Vista aérea, mais recente, onde se localizava o Hipódromo e campo do Prado.
(Arquivo Nirez).

Maquete do projeto de construção do estádio Presidente Vargas na gestão do
Prefeito Raimundo Alencar Araripe. (1936 - 1945). - Arquivo Pedro Alberto de Oliveira Silva

Detalhe do estádio Presidente Vargas. Arquibancada de cimento armado,
lugar especial, vendo-se ao alto à esquerda, cabine da imprensa. (Arquivo Nirez).

Nessa época, os bondes do Prado tinham seu final de linha na esquina da rua 13 de Maio com Marechal Deodoro. Em maio de 1947 o serviço de bondes elétricos foi desativado pela Prefeitura Municipal de Fortaleza. Quando foi prefeito, (1936-1945), Raimundo de Alencar Araripe possuía um passe para andar gratuitamente nos bondes. Após a extinção do SENTA, abarracavam temporariamente naquele lugar os circos que vinham a Fortaleza apresentar seus espetáculos. Lembramos de dois deles o Nerino e o Garcia. O primeiro apresentava o trabalho de palhaços, demonstrava espetáculos de acrobacia e peças de teatro; dentre essas haviam duas de muito gosto dos espectadores: Sempre no meu coração. 
A cabana do pai Tomás. A participação do palhaço Piculino era muito apreciada. Um amigo nosso, residente na Travessa Sobral, foi apelidado com esse nome, o que muito lhe desagradava. O segundo, o Garcia, era muito maior e mais rico, pois apresentava além do peculiar, muitos animais selvagens domesticados, tais como leões, elefantes, zebras e outros. Posteriormente foram construídos naquele local estabelecimentos educacionais profissionalizantes do governo federal, sendo o último o Centro Federal de Educação Tecnológica (CEFET). O Prado praticamente havia desaparecido.

Passe Livre” para o prefeito municipal de Fortaleza usar os bondes da Light.
Arquivo Pedro Alberto de Oliveira Silva


Empresário empreendedor, como já foi dito, o coronel Gentil vislumbrou no mercado imobiliário (década de 1930) uma boa oportunidade de aplicar parte de sua fortuna. Fortaleza era uma cidade relativamente pequena, crescendo, porém pobre. O trabalho assalariado pequeno preponderava na maioria da população, constituída por funcionários públicos, comerciários, e outras atividades de pequena ou média renda. 
O poder aquisitivo de grande parte dela considerava a posse de uma casa própria como um desejo difícil de ser realizado. Não havia crédito fácil, apesar dos juros serem relativamente baixos. As pessoas consideradas ricas ou de posses possuíam suas residências e imobilizavam parte de seu capital em casas para alugar. 
A Imobiliária José Gentil S/A surgiu nessa conjuntura. Na Vila Gentil a maioria das residências era padronizada variando de tamanho e acabamento conforme o preço do aluguel, apresentando os seguintes tipos: as conjugadas, as livres de um dos lados, e aquelas fora do padrão das demais. As primeiras foram construídas a partir de 1931, exatamente na avenida Visconde de Cauipe na primeira metade do primeiro quarteirão, situadas entre as ruas Adolfo Herbster e Padre Francisco Pinto. Eram conjugadas com um recuo de bom tamanho onde foram plantados fícus-benjamim para fazer sombra, pois eram do lado do sol. Eram simples e não tinham forros, mas possuiam o teto muito alto, dentro dos padrões 
de outras mais antigas localizadas na mesma avenida próximo ao Grupo Escolar Rodolfo Teófilo, onde atualmente funciona a Faculdade de Economia da UFC. Numa delas morou nosso amigo José Silvio de Oliveira Freitas, colega no Ginásio 7 de Setembro, com seu irmão Pedro, filhos do Sr. Altino de Freitas, proprietário de uma bomba de gasolina localizada na Praça Clóvis Beviláqua, e na última, esquina com a rua Adolfo Herbster, residiu o advogado Lauro Vale. Na frente delas terminava a linha do bonde e ficava o ponto final dos ônibus do Benfica, pertencentes à Empresa São José, passando depois para a Empresa Severino



Ônibus da Empresa Severino que servia à Gentilândia -1945 (Arquivo Nirez).


As demais não eram uniformes e ficavam em frente ao Dispensário dos Pobres e o convento das Irmãs de Caridade. O Cine Benfica ficava no meio desse quarteirão.


Cine Benfica - 1926. Arquivo O Povo



A Vila Gentil I

Crédito: Revista do Instituto do Ceará - 2010 
A Gentilândia e o bairro do Benfica de 
Pedro Alberto de oliveira Silva 
(Sócio efetivo do Instituto do Ceará)

segunda-feira, 12 de março de 2012

A Vila Gentil


O presente artigo é um testemunho de quem nasceu e viveu a adolescência na Gentilândia, quando era Vila Gentil, em uma época que merece não ser esquecida. Há uma curiosidade muito natural das pessoas em conhecer o passado, pois o tempo está apagando tudo. Lembranças são acontecimentos e fatos que foram guardados em nossa memória.
Infelizmente ficam irremediavelmente perdidas se não tiverem sido relembradas por escrito. Geralmente as recordações carregam emoções.

Poderemos também dizer que há emoções que traduzidas em palavras, perdem grande parte de seu encanto.
Cada época e bairro de uma cidade têm uma história que lhe caracteriza e dá existência. O ambiente, as casas e, principalmente, as pessoas se inter-relacionando em uma teia socioeconômica característica. Aqueles que nela viveram são os únicos que sentiram o pulsar pleno de seu dia a dia.

É difícil descrever, objetivamente, o que foi a Vila Gentil conciliando os métodos narrativo, descritivo e interpretativo nos limites de um artigo, tal o número de informações que podem ser trabalhadas de forma coerente para o entendimento de quem está interessado. Lembramos que ela existiu há mais de setenta anos e seus contemporâneos remanescentes possuem mais de sessenta.

Fortaleza em 1930 possuía uma população estimada de 117.000 habitantes, em 1940, 180.000, em 1950, 270.000, em 1960 já contava 515.000. O cotidiano de seus moradores possuía um estado de espírito todo especial, calmo, tranquilo e pacífico, muito diferente da realidade existente na Fortaleza de hoje com mais de dois milhões (2.000.000) de habitantes, embrutecida pelo seu tamanho, pela quantidade e variedade de sua população, oriunda dos mais variados locais do Ceará, convivendo um contexto socioeconômico caótico. Reconstituir detalhes da história de um bairro, mesmo sendo de uma cidade relativamente pequena do meado do século XX como Fortaleza, em comparação a metrópole atual, não é tarefa fácil. No caso específico do Benfica e da Gentilândia, são poucos os testemunhos pessoais de seus contemporâneos, pois quase todos já morreram. A maioria das casas foi demolida ou descaracterizada e mudados alguns nomes de ruas tradicionais. Tudo concorreu para não ser preservada sua história. Com a extinção da Vila Gentil, consequência da liquidação do Imobiliário José Gentil S/A e do Banco Frota Gentil, a Gentilândia daquele tempo
desapareceu, atualmente essa designação é apenas uma tradição.

O bairro do Benfica é um dos mais antigos e tradicionais de Fortaleza e surgiu em um trecho da então chamada Estrada de Arronches, depois avenida Visconde de Cauipe e, atualmente, Avenida da Universidade; em um percurso pouco menor de dois quilômetros. Sobre o Visconde de Cauipe (Severiano Ribeiro da Cunha), o Barão de Studart escreveu no seu Dicionário biobibliográfico cearense, em 1915, que foi “o maior filantropo que o Ceará produziu. Seu nome batiza um dos mais lindos e opulentos boulevards da cidade”. No começo do século passado era um lugar onde existiam muitas casas, chácaras e árvores, o que lhe dava excelentes condições de morada. 


Avenida Visconde de Cauipe esquina com rua 13 de Maio, onde dobrava o bonde do prado, em frente a mansão do Sr. José Gentil.
No detalhe: homem sentado no jumento.

Mais exatamente, situava-se entre as ruas Antônio Pompeu (próximo a Faculdade de Direito da UFC e ao lado das Caixas d’Água) e a rua Padre Cícero, já no bairro do Jardim América. Para outros, seu limite seria a rua Adolpho Herbster, onde terminavam os trilhos do “bonde” da linha Benfica, e o calçamento de granito, em formato de paralelepípedos.

Nesse local existia a “mercearia de primeira ordem ”do senhor Rabelo. Atualmente localiza-se um “motel”. A partir dali, até Parangaba (antigamente Arronches), hoje um bairro, a estrada era de “concreto” com o nome de avenida João Pessoa. Pelo nascente, fazia limites com as ruas Senador Pompeu e avenida dos Expedicionários, e pelo poente, com as ruas Tristão Gonçalves e Carapinima. Essa localização já era estabelecida pela Prefeitura de Fortaleza.


 
Trecho da avenida Visconde de Cauipe pouco antes da Igreja dos Remédios, onde pode-se ver lampiões, vendedores ambulantes (boleiro, padeiro e outros. (Arquivo Nirez).

A Gentilândia, como parte dele, localizava-se entre a avenida da Universidade (antigamente avenida Visconde de Cauipe), ao norte, a rua Marechal Deodoro, ao sul; a rua 13 de Maio (depois avenida), ao nascente; e rua Adolfo Herbster, ao poente. Era formada em seu interior pelas ruas: Paulino Nogueira e Padre Francisco Pinto, ambas começando na avenida Visconde de Cauipe e terminando na Rua Marechal Deodoro, ao lado do Estádio Presidente Vargas. Paralela à Avenida Visconde de Cauipe existiam a rua São José do Tatuape (atualmente); Rodolfo Teófilo (atualmente rua Waldery Uchôa) entre a avenida Treze de Maio e Adolfo Herbster, e as ruas internas: Nossa Senhora dos Remédios, entre a avenida Treze de Maio e rua Padre Francisco Pinto; Nossa Senhora de Lourdes (atualmente rua Costa Sousa), Rua Santo Antônio, entre a avenida Treze do Maio e rua Paulino Nogueira; Travessa Sobral (atualmente rua Redenção) entre Padre Francisco Pinto e Adolfo Herbster; e as chamadas vilas sem saída, ditas particulares: Vila Santa Cecília, Vila Santa Rita, Vila Santa Luzia, todas começando na rua Paulino Nogueira, e finalmente a Vila Santana, começando na rua Padre Francisco Pinto; iniciando-se nesta, existia ainda, a rua Júlio César, indo até a rua Adolfo Herbster. Logo depois dessas ruas começava uma grande área coberta de capim onde se encontrava a Lagoa do Tauape, alimentada pelo riacho do mesmo nome procedente das bandas do bairro do Parangabuçu e outros menores que se formavam na época do inverno. As Vilas Santa Rita e Santa Luzia foram demolidas pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e ocupados seus espaços pelo terreno da Reitoria e uma agência do Banco do Brasil

Final da avenida Visconde de Cauipe, m da linha dos bondes do benca e ponto dos ônibus do benfica. (Arquivo Nirez).

A Vila Gentil (Gentilândia) foi um lugar bem definido e privilegiado do Benfica. Basta dizer que as únicas grandes praças desse bairro, ainda existentes, estão localizadas ali. Talvez tenha sido o mais arborizado de Fortaleza. Árvores cobriam grande parte de sua área, principalmente com mangueiras. Poucas, quase centenárias, ainda sobrevivem. Esse lugar tão especial para quem lá morou, existiu nas décadas de 1930, 1940, desaparecendo no decênio seguinte, quando suas casas começaram a ser vendidas pela Imobiliária José Gentil S/A, preferencialmente aos seus moradores, e para a Universidade Federal do Ceará.



 
Mansão do coronel Gentil, atualmente Reitoria da Universidade Federal do Ceará. (Arquivo Nirez)

Seu fundador, José Gentil Alves de Carvalho, nasceu em Sobral, em 1866, e faleceu em Poços de Caldas, Minas Gerais, em 1941. Com a esposa D. Maria Amélia da Silva Frota (D. Melinha) teve quinze filhos: três homens, um dos quais, José da Frota Gentil era padre jesuíta, e doze mulheres; seis seguiram a vida religiosa e Francisca (D. Chiquita Gentil) ficou solteira. Os sete casados deram-lhe 69 netos. Seus descendentes tomaram GENTIL como sobrenome. Durante sua existência de 74 anos exerceu atividades como comerciante, empresário e banqueiro. 

O coronel Gentil foi um empresário empreendedor e em certos aspectos original. É certo que construiu casas para alugar, porém não se esqueceu de fazê-las da melhor maneira para fruição de seus moradores. Todas possuíam água encanada, esgoto e outros serviços básicos de qualidade funcionando. Para isso havia uma administração central chefiada pelo senhor José Vitorino de Menezes, na rua Padre Francisco Pinto, que dispunha de uma equipe de operários especializados para realizar os serviços relacionados com a manutenção e serventia das casas. Tudo gratuito e rápido.

Na praça principal da Gentilândia existia um pilar de alvenaria, pouco mais de dois metros, com um formato especial (a parte superior era oval) com os dizeres: PARQUE DA GENTILÂNDIA, em letras maiores, e PARA USO E GOZO DOS MORADORES, pintado de branco sobre fundo vermelho de uma placa de ágata. Já naquele tempo, suas letras serviam de alvo para alguns “vândalos” atirarem com “baladeiras”. Vale recordar que aquele local era sombreado com mangueiras.

Aquele empresário era um cidadão com forte convicção católica. A maioria das ruas tinha nomes de santos, e sete dos seus quinze filhos seguiram a vida religiosa. Destacamos que a Igreja de Nossa Senhora dos Remédios foi elevada a paróquia, em 1934, e concluída em 1936, sendo que em grande parte, foi obra da família Gentil que tinha lugares cativos nos primeiros bancos do templo. Os beneficiários daquele privilégio pagavam uma mensalidade. Como já afirmamos a Vila Gentil era um pequeno bairro do Benfica, portanto inter-relacionado com ele. 

Eram pontos de referência: o Colégio Santa Cecília, só para moças, na esquina com a rua Treze de Maio (naquela época rua), a Igreja de Nossa Senhora dos Remédios com a Casa das Missões, vizinha a ela, morada dos padres Lazaristas holandeses que davam assistência religiosa a paróquia, o Dispensário dos Pobres dirigido pelas Irmãs de Caridade ou filhas de São Vicente de Paulo, todos localizados na avenida Visconde de Cauipe; o Prado, também chamado bairro, antes hipódromo e campo de futebol, localizado na rua Marechal Deodoro. Gozando desse status porque era o fim da linha do bonde do Prado. A Lagoa do Tauape, apesar de não estar vizinho a Gentilândia, era considerada uma parte dela porque as ruas transversais terminavam no capinzal que se estendia até a avenida João Pessoa. Era um belo postal do bairro, ou mesmo de Fortaleza, principalmente porque era emoldurada por um lindo bambuzal que a franqueava pelo lado do Marechal Deodoro. Foi aterrada por volta de 1955, sendo atualmente a chamada avenida do Canal. Dizia-se que as “muriçocas” que infestavam o local provinham dela.


Continua...


Crédito: Revista do Instituto do Ceará - 2010 
A Gentilândia e o bairro do Benfica de 
Pedro Alberto de oliveira Silva 
(Sócio efetivo do Instituto do Ceará)

quinta-feira, 8 de março de 2012

Bodega de um tudo

Diferenciada, a bodega de Antônio Firmino destacava-se. “Tem de um tudo”. Dizia o proprietário, também dessemelhante em hábitos mercantis. Enquanto concorrentes usavam gravura conhecidíssima na época, com figuras de “antes e depois”. Aquela, de um comerciante corpulento, bem vestido, exteriorizando riqueza e, a última, de um magérrimo, mal vestido e demonstrando pobreza. Nelas, os dizeres respectivos: “Vendi a dinheiro” e “Vendi fiado”. Antônio inovou com o letreiro: “Fiado foi até ontem.”.
Pouco mais de metro e meio de altura. Achaparrado e fanho. Jamais alguém o viu rindo, sem o chapéu, o slack de mescla azul e um palito permanentemente ao sabor da língua, dentes e lábios. Em movimento de um canto ao outro da boca. Certa feita, esse vezo levou-o à luta corporal. Freguês indagou-lhe se, depois de sair da latrina, ele continuava com o papel no local do uso. Mas, isso, é outra conversa. A nossa, vem agora.
O estranho entrou na mercearia, postou-se defronte ao fiteiro e ficou a olhar as mercadorias expostas. Carretéis e meadas de linhas, agulhas, zíperes, botões, dedais, sianinha e bicos. Brilhantinas Glostora, Royal Briar e Fixador Gumex. Colônias English Lavander, Leite de Rosas, Leite de Beleza e Perfume Coty. Pílulas de Vida do Dr. Ross. Óleo de Rícino, Limonada Purgativa, Aguardente Alemã e Violeta de Genciana. Afora um mundo de miudezas de armarinho.

O merceeiro, de olho no desconhecido, indagou-lhe se desejava alguma coisa. Resposta rápida. “Como dizem que aqui tem tudo, desejo uma bainha para foice.”. Réplica instantânea: “Tem as medidas?”.
O não esperado, veio, entretanto, dia seguinte, o encomendeiro trouxe a ferramenta e o bodegueiro firmou prazo de três dias para a entrega.
Colocou o instrumento sobre uma folha de papel, riscou seus contornos, com folga, e recortou dois moldes. Chico Sapateiro talhou-os em couro, uniu por costura a curvatura superior e, na inferior, colocou fechos de pressão.
A esperada gozação custou caro ao encomendador. E o dito “Tem de um tudo.” foi acrescido de “Até bainha de foice.”.


Texto do amigo e colaborador Geraldo Duarte do Diário do Nordeste


  • A Mercearia do Antônio Firmino existiu nos anos 50 e início de 1960. Funcionava onde hoje é a rua Rio Grande do Sul, entre as ruas Sergipe e Alagoas, no bairro Demócrito Rocha. Na época, o bairro denominava-se Vila Marupiara ou, mais usualmente, Marupiara. Era a mais sortida e diversificada em produtos da área.

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