Fortaleza, uma cidade em TrAnSfOrMaÇãO!!!


Blog sobre essa linda cidade, com suas praias maravilhosas, seu povo acolhedor e seus bairros históricos.


domingo, 31 de maio de 2009

Paixão pela história



Narcélio Limaverde, um apaixonado por Fortaleza.

Aos 76 anos, Narcélio Limaverde se orgulha de ainda estar em atividade. Nos 54 anos de carreira, ele já passou pelas maiores rádios AM do Estado e também teve experiências em jornais e na televisão. Narcélio é referência ainda quando o assunto é a Fortaleza de sua infância, de um tempo de cordialidades e de mais solidariedade.

Narcélio Sobreira Limaverde, de 76 anos, é um homem apaixonado. Seu primeiro amor foi pela cidade em que nasceu. Da Fortaleza de sua infância guarda lembranças quase tangíveis para quem o ouve contá-las. Quase se experimenta as brincadeiras de infância, a macaca (amarelinha), a arraia, o castelo, o futebol de campo. Do tempo de rapazinho, as memórias dos cinemas de bairro, oportunidade para embalar as primeiras paixões das moças e rapazes da redondeza da rua Imperador, no Centro. Memorialista, Narcélio não se cansa de recordar do bairro então cheio de efervescência onde famílias mais abastadas e mais humildes compartilhavam em harmonia o dia-a-dia. Gosta de lembrar das bodegas e mercearias e dos personagens que passaram por lá. Memória de um tempo em que as pessoas tinham identidade com o local em que viviam. Foi também nesse tempo que Narcélio foi seduzido por uma nova paixão. Na verdade, um amor que nasceu em casa. Filho do radialista José Limaverde Sobrinho, Narcélio já nasceu embalado pelas ondas da rádio AM. Mas não foi o pai quem o incentivou a seguir a trilha. Fez concurso para a Ceará Rádio Clube, passou em terceiro lugar e esperou uma vaga. Assim, ela veio e hoje são 54 anos de romance. Hoje, orgulha-se de ser um dos radialistas mais antigos em atividade. "Coisa pra entrar no Guiness Book", gaba-se. Sua trajetória passa pelas principais rádios AM do Ceará, por canais de TV e hoje está inclusive em uma FM (Assembléia), coisa que antes parecia impensável. A popularidade ganha o seduziu e o levou a mais um amor arrebatador. Mas que, dessa vez, não teve um final feliz. Candidato a vice-prefeito em 1985, a chapa de Narcélio perdeu a eleição. Mas seu nome já tinha apelo eleitoral e resolveu tentar sozinho a trajetória. Candidato a deputado estadual, foi eleito com mais de 30 mil votos. Mas na reeleição, ironia do destino ou não, levou o fora das urnas. Recebeu pouco mais de 10% dos votos da primeira eleição. Narcélio não esconde que se decepcionou com a política. Assume seus erros e não se envergonha de dizer que não se enveredaria novamente nessa paixão. Arriscada demais e "pra quem tem jogo de cintura", mas não era desses tipos. Hoje, no rádio, seu vício como bem assume, e fora dele, ao lado da esposa Helenira, dos quatro filhos e netos, continua se apaixonando pela vida.
O senhor morou muito tempo no Centro, na rua do Imperador, e o senhor fala muito dessa época...
Eu falo muito na rua do Imperador porque lá nós moramos em dois locais. Um que hoje em dia é o (colégio) 7 de Setembro, na rua do Imperador, entre as avenidas Clarindo de Queiróz e Duque de Caxias. O número da casa é 1.055. E a outra 1.164, mesmo defronte à antiga Igreja de São Benedito. Então a minha infância toda aconteceu na Imperador.
E o senhor nasceu lá também?
Não, nasci na rua 24 de maio, também no Centro. Uma rua residencial mas com algumas bodegas e mercearias. Bem próximo das ruas Duque de Caxias, Imperador, Tristão Gonçalves, 24 de maio, Princesa Isabel.
Quais são as lembranças mais fortes da sua infância?
Eu me lembro muito que tinha a fábrica do Tó (abreviação de Antônio) Diogo. Diogo era uma família muito importante e rica. Tó Diogo era filho do Antônio Diogo que deu nome a um distrito de Aracoiaba, onde ainda hoje existe um leprosário mantido pelo Diogo. Então, a fábrica dele tinha uma sirene que apitava às dez e meia da manhã. E isso chamava muita atenção porque nós todos sabíamos, sem termos relógio, que era dez e meia por causa da sirene. E o que também marcou muito a minha infância foi a bodega de seu Gambetá. Era uma loja de secos e molhados que tinha tudo, e os funcionários, praticamente todos, eram sobrinhos ou filhos dele. Seu Gambetá foi o pai do padre Arquimedes Júnior, um religioso muito importante nessa cidade. E também foi pai do Roberto Bruno que era médico e foi jogador de futebol (zagueiro da seleção cearense e do time Maguary Sport Club). Seu Gambetá foi quem inaugurou o doce gelado. O doce gelado eram aquelas pedrinhas de gelo feitas numa fôrma - porque ainda não tinham inventado esse redondo, o chamado picolé. O doce gelado era comprado na caderneta de fiado. Recordo que na minha casa tinha duas pitombeiras. Um tempo a gente inventou de comercializar essas pitombas, lá na bodega... De meia em meia hora, a gente ia lá olhar pra ver se já tinha vendido alguma coisa. Eu sempre fui um péssimo comerciante. Lendo comerciais no rádio até que vendo, mas ao vivo, não.
E das brincadeiras de criança. De que os meninos daquela época brincavam?
colocou "festival de pipa na Praia de Iracema" e eu fiquei chateado. Aqui é arraia não é pipa. Existia também o futebol na calçada que era na calçada da casa do Inácio Parente, dono da Casa Parente, onde hoje funciona o (Colégio) 7 de Setembro, aquele ao lado do Patronato das irmãs de caridade. E também a gente brincava de castelo. Pegávamos uma lata pequena, enchia de sabão pra ficar pesada. No chão, desenhávamos um triângulo. Em cada canto e no meio ficava uma castanha de caju. Ganhava quem acertasse o maior número de castanhas com a lata. Agora o futebol tinha predominância.
Hoje, essa convivência entre ricos e pobres é mais difícil, já que a maioria das pessoas de classe mais baixas foram, de certa forma, deslocadas para as regiões periféricas...
O bairro dos ricos naquela época era Jacarecanga, depois a Aldeota... Sabe como é que minha mãe, dona Ledinha, chamava a Aldeota? Cemitério dos vivos. Sabe por quê? Por que não botavam cadeira na calçada.
Então, essa divisão ocorreu por que a cidade cresceu e houve esse espaçamento mesmo ou porque a cidade ficou mais desigual?
Eu acho que ela cresceu e ficou desigual. O negócio está terrível. Hoje a gente tem medo de sair de casa. Quando eu era jovem, a gente ia a pé para o Maguary (Sport Club), que ficava ali perto no 23 BC (Batalhão de Caçadores), na Barão do Rio Branco (hoje fica a Coelce). Aí, no final da festa, sabe o que a gente fazia? Ia eu e um amigo meu. Ele me perguntava: 'Rapaz, a gente vai de sanduíche ou a pé?' Eu respondia: 'De sanduíche'. O sanduíche cai duro era comprado, partia no meio - que a gente só tinha dinheiro pra comprar um sanduíche - e ia a pé. Ele morava no Otávio Bonfim, eu morava na rua Clarindo de Queiroz, já chegando na praça São Sebastião. E era naquela maior escuridão porque não tinha essa iluminação como hoje em dia e nunca aconteceu problema. E não era só uma vez não. Porque não era toda vez que a gente tinha dinheiro pra pegar transporte. Não havia táxi, era carro de corrida. A vida era assim. A cidade era tranqüila. Eu digo que eu sou do tempo que quando você gritava pega o ladrão, o ladrão corria. Então, naquele tempo, até os ladrões eram mais amigos, né?
algumas crônicas que contavam o clima dessa época. Em uma delas, o senhor fala da saudade dos cinemas de bairro. Hoje, eles foram substituídos pelas salas de cinemas nos shoppings. O senhor sente saudade desse tempo?
Ah, eu ia ao cinema segunda-feira e de tanto comparecer já conhecia as vozes dos artistas. Tinha o Charles Boyer, que tinha a voz muito grave, o Hunfrey Bogart, o astro de Casablanca. Conhecia todos pela voz. Às vezes, os colegas perguntavam: - E agora, Narcélio? Eu dizia é fulano de tal, é fulano, é Dorothy Lamour, que eu era apaixonado por ela. E quem não era? Ia muito ao cinema. Eu ia muito no Cine Centro, na Tristão Gonçalves com Duque de Caxias, que uma empresa que vende material de construção demoliu. Achei um absurdo. Vejo que as grandes lojas aproveitam o arcabouço de uma coisa antiga e modernizam dentro. Infelizmente, o Centro foi destruído. Esse era o cinema que a gente mais freqüentava. Filmes mexicanos, brasileiros e série (filmes em capítulos, como as novelas de hoje), a fila arrodeava o quarteirão. E a partir da tabuleta que era colocada na esquina do seu Gambetá, a gente sabia qual era o filme do dia. E um deles foi um escândalo. Nunca houve uma mulher como Gilda, com a Rita Hayworth. E todos nós nos apaixonamos por ela. Naquele tempo você mandava buscar retrato de artista e vinha: 'To Narcélio, sincerely, fulano de tal'. Elas mandavam pra gente (risos). E o cinema era também um refúgio dos namorados. Eu me lembro que nesse tempo, as moças, as namoradas da gente, ou iam escondidas ou com o irmão menor. O irmão menor, a gente comprava com bombom, guloseimas ou chocolate. Mas quando era irmão maior, a gente não comprava de jeito nenhum. (risos)
O senhor acha que nessa Fortaleza as pessoas eram mais cordiais, viviam mais em comunidade?
Eu moro num prédio de apartamentos e eu ainda me encontro com a minha vizinha. Não vejo costumeiramente os outros moradores. Então esse convívio diminuiu. Antes a gente ia nas casas e não precisava nem ligar avisando. Hoje em dia, se você vai na casa de alguém, tem que avisar. Na Europa, nem um filho vai na casa do pai sem avisar. Nós estamos quase chegando a essa situação. Eu acho que isso também se deve à velocidade do tempo... As pessoas não têm mais tempo.
Quando sua família morava no Centro, vocês viviam no mesmo bairro de famílias mais ricas, mas vocês não eram ricos. Como era esse convívio?
Minha família não era miserável, mas também não tinha folga. Na minha rua, tinha gente rica. Tinha o dono de grandes empresas, a Cidao, cujos donos eram da família Moreira, de Iguatu. Tinha um empresário de uma grande loja de tintas, Pedro Américo. O vizinho, seu Gadelha, dono de plantação de cera de carnaúba, a grande riqueza da época. Sabíamos que era surdo e falava muito alto. Porque a nossa rua era de classe média alta, com algumas pessoas ricas. Mas, por exemplo, meu pai era bancário e radialista. Depois ele deixou o banco e acabou sendo funcionário da Cenorte (Companhia Elétrica do Norte), uma empresa de eletricidade. Quando meu pai morreu em 71, morreu mais novo que eu, num domingo, ele tinha trabalhado até tarde no sábado.


Para ler a entrevista na íntegra, acesse:
http://www.opovo.com.br/opovo/paginasazuis/800393.html

Nenhum comentário:

Postar um comentário