Fortaleza Nobre | Resgatando a Fortaleza antiga : Cine Theatro Polytheama - 1911 - Parte II [notification_tip][/notification_tip]
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quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Cine Theatro Polytheama - 1911 - Parte II



Outra investida da firma Rola & Irmão foi a conquista da distribuição exclusiva das produtoras americanas mais importantes, na época, e que gradualmente entravam no mercado brasileiro. A respeito diz o “Jornal da Tarde", em 25 de março de 1912:

POLYTHEAMA

A Empreza Hola & Irmão contratou com a firma Angelino Staurile & Ca., do Rio de Janeiro, as belíssimas fitas das fabricas americanas Vitagraph e Biograph, tornando-se a única recebedora neste Estado. Escusado é encarecer esta notícia visto que aquelas duas fábricas são sobejamente conhecidas por suas fitas de imenso valor artístico. Damos parabens ao público.


A programação, apesar da noticia, prossegue sendo notadamente de filmes franceses e italianos, com destaque para a vigorosa produção dinamarquesa que era então detentora de prestígio mundial. Um clássico do cinema francês, foi exibido pelo Polytheama, no dia 14 de julho de 1912, comemorando a Queda da Bastilha: “Assassinato do Duque de Guise"
(L 'Assassinat du Duc de Guise; 1908, 300 metros, primeira produção da Le Film d'Art, de Paris. Direção de André Calmettes, com assistência de Charles Le Bargy e argumento de Henri Lavedan. Interpretação pelo elenco da Comédie Française: Charles Le Bargy, Albert Lambert, Gabrielle Robinne, Berlhe Bovy, Rol/a-Norman e Dieudonné). Película tão importante que
para o genial cineasta americano David Wark Griffith esta foi sua melhor lembrança do cinema: “Este para mim foi uma revelação completa, um filme maravilhoso”.



Em 1913, há um retrocesso para o cinema exibidor de Fortaleza, enquanto perdurou a tentativa de se constituir um “trust” com o Polytheama, Rio Branco e Cassino Cearense, três dos quatro cinemas então existentes, de fora apenas o Cinema Di Maio. Nossos melhores cinemas, passavam a fazer parte de uma firma constituída sob a denominação de Empresa Cinematographica Cearensecom escritório à rua Barão do Rio Branco,98-A, figurando o empresário José Rola como gerente, responsável portanto pela operacionalização do sistema.

A imprensa mantinha o trust sob crítica constante, e destacava como alvo
de suas reclamações o Polytheama.
O Jornal “Unitár¡o" (27.3.1913), diz :

POLYTHEAMA

Já quasi ninguem mais se quer aventurar a entrar no outrora tão florescente
cinema-theatro, pois é um espantalho terroroso, a charanga que o sr. Gerente da “Empreza Cinematographica” poz alli.
Antigamente custava a entrada 500 reis, tendo o espectador a deliciar os seus tympanos, uma magnifica orchestra. Hoje, paga-se 600 reis, e ainda por cima, o gerente arruma no público com sua desafinada confusão musical, que dá dor de cabeça e opila o fígado.
A concurrencia vae rareando dia a dia, e si o sr. Rola não tomar tento, vae à
vela.

No dia seguinte, o “Unitário” volta à critica:

POLYTHEAMA

Pouco a pouco se vão descobrindo os propositos reservados que anteviamos
quando se fomou o trust cinematographico nesta capital. Os cinemas Rio Branco e Cassino estão quasi de portas fechadas, sem orchestra, sem luz e sem frequentadores. No Polytheama, cabeça do syndicato, e segundo nossas previsões, o unico que sobreviveria dos tres, a orchestra está disposta á La volonté do seu secretário, que resiste às reclamações de todo o público frequentador, em conservar alli uma sallada musical ou musica de Sant'Anna que faz mal aos nervos, e vae provocando o abandono dessa, outróra tão procurada casa de diversões.
E, si o trust conseguisse assambarcar também o DiMaio, então já estaríamos nas suas garras irremediavelmente: preço ao talante, musica e programmas à vontade.
Esperamos que o gerente da “Empreza Cinematographica” tome novo rumo sinão irá a matroca.

 O Jornal de 06 de outubro de 1916

Em maio de 1913, 0 “Unitário” (6.5.1913), protestava mais uma vez contra o
trust:

POLYTHEAMA 

A “Empreza Cinematographica Cearense” tem faltado ao compromisso
perante o publico. Ultimamente, as fitas de valor teem sido exhibidas para mais de cinco vezes, no Polytheama, deixando assim este cinema de projectar, todos os dias, novos films, como prometteu a “Empreza” em sua fundação.
Domingo passado assistimos, nessa casa de diversões, a prática de outro abuso que há tempo verberámos - a venda de lotação excessiva, a qual muito incommóda e prejudica os espectadores.
Quanto aos programmas, salvo quando faz parte delles, esporadicamente
alguma fita de arte, nada teem agradado nestes ultimos tempos, em que, com a formação do trust, deixou de haver competencia entre os cinemas para a exhibição das producções melhores da cinematographia modema.

Não se tem maiores detalhes dos acertos comerciais entre os empresários
cearenses, nessa primeira tentativa de eliminar a concorrência no setor de exibição cinematográfica. Percebe-se que o pioneiro Victor DiMaio resistiu a 
qualquer apelo para sua adesão, permanecendo o único exibidor independente. Outro fato visível é que José Rola, que capitaneava o trust,logo que decreta o seu final, em agosto de 1913, dinamiza o seu Polytheama para uma nova consolidação.

O fim do trust, noticia tão reclamada e esperada pelo público, é trazida pela "Folha do Povo" (24.8.1913) numa nota sobre o Polytheama:

POLYTHEAMA

Este bom centro de diversões, acaba de desligar-se da Empreza Cinematographica, assumindo a sua direção novamente o sr. José Rola.
O seu diretor está exercendo toda sua atividade para que o Polytheama venha a ser a primeira casa do genero: para isso recebeu ultimamente grande número de "films" de arte e está reformando os salões do edifício.

O sr. Rola inaugurou novamente as sessões infantis, para a petizada endiabrada que gosta do Bigodinho, Robinet, Cri Cri e outros comicos e disse-nos que sejam também proveitosas para o desenvolvimento intelectual dos mesmos.

Aqui pois, fica registrado a nota sobre o Polytheama.
Os preços de entradas continuam os mesmos.

Praça do Ferreira em 1934. Vemos ao lado do Majestic, o Cine Polytheama. Arquivo Nirez

No dia 28 de agosto de 1913, como cinema independente, o Polytheama exibia na sua Soirée Blanche, o filme “Cadáver Vivo" (II Cadavere Vivente), um drama da vida real, produção de 1913, da Savoia Film, de Turim, em 4 longas partes, 621 soberbos quadros cinematográficos, 1.500 metros. O romance de Leon Tolstoi era levado a tela, sob a direção de Nino Oxilia e Oreste Mentasti, com interpretação de Dillo Lombardi, Maria Jacobini, Lívia 
Martino, Arturo Garzes e Alberto Nepoti.


'O Jornal' de 1916

O sistema distribuidor de filmes, no Brasil, envolvia agora novos processos e
capitais de maior vulto. A Companhia Cinematographica Brasileira, com sede à rua Brigadeiro Tobias, 52, São Paulo, e capital de 4.000.000$000 (quatro milhões de réis), chegava à Fortaleza, em 1913, fazendo contratos para lançamento simultâneo de grandes filmes em todos os nossos cinemas: no Cinema Rio Branco“Quo Vad¡s?" (Quo Vadis?; Cines, 1913, 225m, de Enrico Guazzoni);e nos cinemas Polytheama e Júlio Pinto, “Branco contra Negro” (Bianco contro Negro; Pasquali, 1913, de Enrico Guazzoni, 3.000 metros, 150 quadros e 5 atos). O anúncio desse filme dizia: “Romance completamente popular de aventuras rocambolescas, fazendo o principal papel o renomado actor Alberto Capozzi. Este grandioso drama que enthusiasma até ao delírio diversas nações, foi pela fábrica Pasquali, de Turim, reproduzido e posto em scena com toda a arte que hoje offerece a cinematographia moderna".

A estratégia mercadológica das sessões especiais, com denominações em francês, a gosto da época, faz com que o Polytheama lance, na quarta-feira, 16 de abril de 1913, a “Soirée Blanche", sendo o filme inaugural "Rapariga sem Pátria” (Pigen unden Faeder/and; Monopol Film, de Copenhague, 1.035 metros), dirigido por Urban Gad. a história de uma cigana, com a célebre atriz dinamarquesa Asta Nie/sen e Max Wogritsch.

Transcorria o ano de 1914, tendo o Polytheama a mesma posição de bem
sucedido lançador de filmes europeus. Em janeiro, fato incomum, desaparecem filmes que se encontravam guardados no cinema.

As fitas "Os Cossacos”, “Entre Pinos e Rodi", “Sonho de Acesso" e “Suécia Pitoresca", talvez tenham sido levados por algum cinemeiro doente. 




Na programação do ano, espetáculos compostos por filmes e sessões liricas. No mês de maio, destacavam-se no palco os duetistas liricos DeMare e Beneck, e comenta o Unitário": "O Polytheama tem levado à tela esplendidos films naturais e artísticos das melhores fábricas do Velho Mundo, resenvando para as segundas sessões as audições lyricas”. O cinema era anunciado, então, como cassino familiar e tinha uma orquestra de sete exímios professores, destacando-se os maestros Vilalta, piano; Armando Lameira, violino; e Luiz Ancettidiretor de arquivo.

No ano seguinte, o Polytheama ganhava ainda maior destaque, após passar por reformas. Anúncio publicado no “Diário do Estado" (28.1 .1915) ressalta a qualidade do cinema:

CINEMA POLYTHEAMA THEATRO

Praça do Ferreira, 12
Empreza: ROLA, IRMAOS 7 CIA.
End. Teleg.: Polytheama, Ceará.
PRIMEIRA CASA DE DIVERSÕES DO ESTADO

Frequentado pelo que há de mais seleto em nossa sociedade e incontestàvelmente a que oferece melhor conforto.

GRANDE SALÃO DE ESPERA COM ORCHESTRA COMPLETA
de 8 professores sob a regência do Professor Armando Lamera.


O mesmo jornal, “Diário do Estado”, na edição de 26 de janeiro de 1915, 
publicava:

ATENÇÃO

Sábado, 30 de janeiro de 1915
Deslumbrante e suntuosa festa
Para solenizar a inauguração dos
importantes melhoramentos do 

CINEMA-THEATRO POLYTHEAMA.

3 sessões, às 6, 7 e 8 horas.
Salão de espera vasto e profusamente
iluminado, com uma harmoniosa orchestra.

Distribuição de mimosos brindes às crianças na
Matinée Infantil - às 6 horas da tarde.
Verdadeiro sucesso no Ceará.


Em 1916, a habilidade e decisão do jovem e emergente empresário Luiz Severiano Ribeiro, coloca-o à frente dos veteranos exibidores (José Rola, Henrique Mesiano, Raul Walker), com a firma Ribeiro & Cia. Era estabelecido um novo “trust” no circuito exibidor de Fortaleza, pelo qual os dirigentes decidiram pela manutenção de alguns cinemas e fechamento de outros, cujos proprietários receberiam como compensação parte dos lucros. A cidade contava então com cinco cinemas. De início, em janeiro, foram fechados o Amerikan Kinema, o Riche e o Cassino Cearensecujos dirigentes passaram a receber, os dois primeiros, 19% cada, e o último, 14% dos lucros que fossem gerados nos dois cinemas remanescentes e conservados em funcionamento por força do acordo: Polytheama e Rio Branco e, em seu lugar, reabrir o Riche.

Há protestos pelo retrocesso que se constituía a redução no número de cinemas.
Protestos maiores são veiculados pelo Correio do Ceará”, em sua edição de 30 de maio de 1916, condenando a nova programação de filmes italianos “imorais":

POLYTHEAMA

Esta casa de diversões tem infelizmente descido muito no conceito do público, devido às exhibições indignas de fitas altamente immoraes e que muito desabonam o critério dos seus proprietários.

Secundamos o brado dos nossos collegas do “Diário do Estado” que ainda hontem manifestaram o desagrado da família de Fortaleza, ante o procedimento daquella casa, que se está transformando numa escola de perversão social.

Lastimaram os nossos collegas que os directores daquelles cinemas, ao envez
de passarem em seu écran fitas innocentes, instructivas e agradaveis, exhibam os grosseiros productos immoraes e reprovaveis, das fabricas italianas.

São muito justas as reclamações do "Diário do Estado”, as quaes sinceramente applaudimos.

Ainda ante-hontem, a fita exhibida no "Polytheama” escandalizou o publico inteiro de Fortaleza.

Grave culpa cabe aos directores daquella casa. Numa sessão tão frequentada como a “soirée chic” de um domingo, quando as principaes familias se reunem ali para assistirem uma fita em torno da qual se fizeram largos reclamos não era admissível que se fizessem passar pela tela scenas degradantes de uma refinada baixeza.




Isto toma, de facto, proporções de um menosprezo à dignidade das famílias desta capital.

A fita “Dívida de Sangue” pode ser levada nos grandes centros; mas, somente em cinemas frequentados pela gente que não tem classificação moral.

Apresental-a às famílias distinctas de nossa catholica Fortaleza é um attestado triste de pouco caso que se tem para com os sentimentos de nossa sociedade.

O facto desgostou profundamente os frequentadores daquella casa.

Fazemos um sincero appello aos directores do “Polytheama” para que ora em diante não mais consintam na exhibição de fitas indecentes. Esperamos que as nossas palavras sejam attendidas, para que não tenhamos a tristeza de novamente reclamar contra coisas desta ordem.


O objeto das criticas eram os filmes ItalianosDívida de Sangue" (Debito di
Sangue; Sabaudo Film de Milão, 1915, 1500 metros, dirigido por Mario Roncoroni) e "A Confissão da Meia Noite" (Mezzanotte; Milano-Film, 1915, 780 metros, argumento e direção de Augusto Genina, com Mercedes Brignone, Livio Pavanelli, Ugo Gracci, Luigi Serventi, Rambaldo de Goudron e Franz Sala).


A pressão da imprensa curvou a firma Ribeiro & Cia., e o Correio do Ceará(6.6.16), festejava uma nova fase para o Polytheama:

POLYTHEAMA - Esta casa de diversões, que attendendo á reclamação justa que fizemos, suspendeu a exhibição de films offensivos à moral, espera pelo primeiro paquete a chegar do sul, uma remessa de fitas afim de serem passadas no écran. Por este motivo, os emprezarios promoverão, em homenagem a nova phase por que o Polytheama vae passar, uma festa popular, tocando por esta ocasião uma banda marcial para esse fim contractada.

A reabertura do Polytheama, sob a direção de Luiz Severiano Ribeiro. trouxe também de volta o cinema Riche, quando a 10 de junho, apresentaram simultâneamente a película italiana, com a grande estrela Francesca Bertini, “Assumta Spina” (Assunta Spina; Caesar Film, de Roma, 1915, 1690 metros, baseado na peça de Salvatore Di Giacomo, dirigido por Gustavo Serena), tendo no elenco Gustavo SerenaCarlo Benetti, Alberto Albertini, Antonio Crucchi, Amelia Cipriani e Albano Collo.
Era a estréia de Serena na Caesar Filmcomo seu primeiro ator e diretor artístico, percebendo 24.000 liras por ano, mais 300 por cenarização ou direção de fitas.


(Grafia da época) 


Continua... 
Parte I
Fonte:  Livro Fortaleza e a Era do Cinema de Ary Bezerra Leite 

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