Fortaleza Nobre | Resgatando a Fortaleza antiga
Fortaleza, uma cidade em TrAnSfOrMaÇãO!!!


Blog sobre essa linda cidade, com suas praias maravilhosas, seu povo acolhedor e seus bairros históricos.

 



quinta-feira, 5 de maio de 2011

Chico Albuquerque - O talento



Chico Albuquerque manifestou cedo o talento para a fotografia. Em Fortaleza, cidade onde nasceu em 1917, aventurou-se no cinema aos 15 anos fotografando um documentário  de curta-metragem. Aos 17 já figurava entre os fotógrafos profissionais. Mas foi em 1942, aos 25, que aprendeu a compor fotografia, ouvindo falar pela primeira vez em divisão áurea do retângulo. O professor: o cineasta Orson Welles, para quem fez still do filme "It's All True".

Fortaleza dos anos 40 ficou pequena para o universo fotográfico de Chico Albuquerque e, em 1945, mudou-se de mala e câmeras para São Paulo. A conquista do mercado veio rápida. Em 1948 fez a primeira fotografia publicitária no Brasil, ao registrar modelo e produto para uma campanha da Johnson & Johnson, da agência J.W. Thompson.

Dez anos depois de sua chegada a São Paulo, Chico Albuquerque já ocupava posição privilegiada no mercado, antes exclusivo para retratos. Assinou portraits de personalidades como o presidente Juscelino Kubitschek, o paisagista Burle Marx, o pintor Aldemir Martins, as atrizes Odete Lara e Cacilda Becker e tantos outros.

De volta ao Ceará 30 anos depois, teve papel decisivo na estruturação e expansão do mercado publicitário, assim como na transformação do fotojornalismo local. Paralelo a toda esse universo comercial, Chico Albuquerque produziu ensaios autorais que se tornaram célebres e lhe renderam prêmios no Brasil e no exterior.

Chico Albuquerque fez escola e foi mestre dos grandes fotógrafos de hoje na publicidade nacional. Ele nunca deixou a fotografia. Seu último trabalho foi aos 83 anos, em 2000, quando assinou campanha publicitária nacional para a Del Rio.

Uma das lendas da fotografia brasileira é sem sombra de dúvida o mestre Chico Albuquerque. Nascido em 1917, em Fortaleza, teve seu nome projetado nacionalmente graças à sua intensa atuação profissional. Mas, como ele mesmo afirmava, começou sua carreira de maneira invertida. E explicava: iniciou-se timidamente com o cinema, aos 15 anos de idade, atendendo a um pedido do seu pai, o também fotógrafo Adhemar Albuquerque, que necessitava filmar algumas sequências sobre o drama da seca no nordeste brasileiro, mas estava com problemas que o impediriam de participar do trabalho. Esse aprendizado inicial de dez dias transformou a vida do então adolescente Chico Albuquerque, que se tornou um exímio profissional e um profundo conhecedor dos mistérios da luz. A ligação com o cinema se fortaleceu e o levou à fotografia. Criar imagens passou a ser prioridade e, mesmo habituado com o ofício paterno, saiu em busca de seu próprio caminho. Para isso, passou por um longo percurso de aprendizado. Isso o levou até o Rio de Janeiro, em duas diferentes ocasiões, entre 1934 e 1946, para aprofundar os conhecimentos e melhorar sua técnica. 

Os responsáveis diretos nesse segundo momento da sua formação profissional foram Erwin Von Dessauer e Stephan Rosenbauer, em períodos distintos. Em 1942, aos 25 anos, Chico Albuquerque foi o responsável pelo still do filme documentário É Tudo Verdade (It’s All True), do cineasta norte-americano Orson Welles, que havia se instalado momentaneamente em Fortaleza. Foi exatamente nessa experiência que aprendeu com o próprio Welles os princípios estéticos mais importantes que irão posteriormente direcionar sua fotografia para um inquestionável padrão de qualidade. O documentário foi realizado na Praia do Mucuripe, em Fortaleza, cenário de seu primeiro grande ensaio realizado dez anos mais tarde, quando retornou com o objetivo de produzir uma coleção de imagens em preto e branco que documentasse o cotidiano dos jangadeiros da aldeia.

Depois da experiência com Orson Welles, organizou seu portfólio e criou coragem para enfrentar o mercado do Rio de Janeiro. Mas foi o fotógrafo alemão, Stephan Rosenbauer, que o estimulou a se instalar em São Paulo. Em 1947, Francisco Albuquerque chega a São Paulo e começa a apresentar o seu trabalho para diferentes pessoas da cena fotográfica local. Trazia algumas recomendações e uma indicação do Foto Cine Clube Bandeirante, local onde poderia encontrar algum auxílio para iniciar suas atividades profissionais e aperfeiçoar-se. Os amadores do clube ficaram surpresos com as fotografias apresentadas, basicamente retratos e algumas paisagens. Pouco tempo depois já circulava com alguma desenvoltura no circuito paulistano das artes visuais. O Boletim Foto Cine Clube Bandeirante publicou a primeira capa assinada por F. Albuquerque na edição de nº 15, de julho de 1947. Era um retrato muito bom, denominado “Marujo Americano”, e a página 12 da mesma edição registra um comentário não assinado de uma mostra que se realizava na Livraria Jaraguá, ponto de encontro de artistas e intelectuais da cidade de São Paulo. Sob o título Exposição F. Albuquerque. Abaixo o comentário na íntegra: 



“Desde 10 de julho p. p. está aberta com o patrocínio do F. C. Bandeirante, na Livraria Jaraguá, à R. Marconi, uma exposição individual de “RETRATOS ARTÍSTICOS” de autoria de F. Albuquerque, a qual vem atraindo grande interesse. O jovem artista patrício que acaba de montar seu estúdio fotográfico nesta Capital não é desconhecido entre nós, pois já vem aureolado pela consagração da crítica no norte do país e no Rio de Janeiro. Com efeito, seus retratos vigorosos e fortes uns, delicados e suaves outros, dizem bem o quanto Albuquerque se identifica com a personalidade do modelo que consegue traduzir fielmente, imprimindo ao mesmo tempo ao trabalho aquelas características próprias que o distinguem desde logo dentre os melhores profissionais aqui radicados.
Dominando a técnica com maestria ímpar, as composições e paisagens expostas ao lado dos seus retratos, de elevado teor artístico, estão a demonstrar que Albuquerque não encontrou na fotografia um simples meio de vida, mas a satisfação de suas inquietudes espirituais por onde se reconhece o verdadeiro artista.”

A família e a fotografia

No livro O Ceará, datado de 1939, constata-se a presença de dois grandes estúdios de fotografia em Fortaleza através dos seus anúncios. Na página 447, o Foto Brasil se declara como “o mais antigo da cidade e produz retratos artísticos e inalteráveis”, localizado na rua Major Facundo, 665; e a Aba Film, fundada em 1934, se propaga como “a mais moderna foto do Ceará”, situado na mesma rua Major Facundo, 660, telefone 1526. O fato de disponibilizar o número do telefone em anúncio público talvez signifique certa modernidade em relação ao “mais antigo da cidade”. O pai transmitiu ao então adolescente Francisco as primeiras noções básicas de cinema para que ele pudesse realizar o seu primeiro trabalho. Depois disso, ele se aprimorou no mundo da fotografia. Além de Chico, três dos nove irmãos também se dedicaram à fotografia: Antonio Afonso, que sucedeu o Chico na empresa, Paulo, que se tornou fotógrafo profissional em Belo Horizonte, especializando-se em cartões postais, e Luís, que optou pelo fotojornalismo, atuando em Brasília. Enfim, uma família de fotógrafos. O pai, Adhemar Albuquerque, também foi o responsável por instruir e preparar o comerciante sírio Benjamin Abrahão, de Juazeiro, responsável pela primeira série de fotografias de Lampião e seu bando, datada de 1936. Mais tarde realizou um pequeno filme documentário que posteriormente foi confiscado pela polícia política de Getúlio Vargas e se perdeu para sempre.

O Turco, apelido de Benjamin Abrahão, foi encaminhado ao fotógrafo que se encarregou de fazer os contatos para que tudo fosse feito com o máximo de segurança. Em relação ao filme desaparecido, conhecemos o depoimento de 1970 que Chico Albuquerque deu a George Love: “Em 1941 os sócios da Aba tentaram reaver o filme: receberam 20 contos de indenização (não pagava nem um décimo dos gastos). Em 1950, nova tentativa, mas o filme tinha desaparecido dos arquivos do antigo DIP. Acreditase que seu paradeiro seja conhecido por um fotógrafo do Rio de Janeiro, Alexandre Wolff, cinegrafista na época de Getúlio. Uma cópia andou em poder dos irmãos Marvin, ex-proprietários da empresa Brasil Oiticica. Em seguida, no mesmo depoimento, Albuquerque fez um apelo: “Embora ingênuo, é um documentário de excepcional valor histórico. Peço ao governo todas as providências para recuperá-lo. É digno de figurar entre as relíquias do Museu da Imagem e do Som”. Na verdade, trata-se de uma experiência singular na fotografia brasileira. Um fotógrafo instalado profissionalmente, após passar as instruções mínimas de funcionamento da câmera ao comerciante, financiou e viabilizou um trabalho de documentação fotográfica. Tudo foi feito em segredo e o resultado representa um documento inédito do ponto de vista da sua realização, sem precedentes para o país e particularmente significativo para a história da fotografia brasileira. Parte do material fotográfico pertence hoje ao Instituto Cultural Chico Albuquerque.

Estúdio da Avenida Rebouças

Logo após estabelecer as novas relações de amizade e tornar-se conhecido profissionalmente na cidade de São Paulo, Albuquerque instalou-se na avenida Rebouças, 1700, numa ampla casa que servia de residência e de estúdio. Foi ali que realizou parte significativa de sua produção de retratos e sua fotografia publicitária, uma passagem que ocorreu naturalmente. Lorca lembra que o estúdio da Rebouças mudou o tom da qualidade fotográfica profissional que se praticava em São Paulo. Chico Albuquerque era “um exímio retocador e conseguia aplicar luzes no retrato, macetes que aprendeu com Otto Schiedanz, o grande laboratorista da Kosmos Foto, loja situada na rua São Bento, centro”. Por tudo isso é que seu trabalho teve plena aceitação nas agências de publicidade, tornando-se um profissional bastante requisitado e uma referência num mercado que estava começando a ganhar visibilidade”. Os seus retratos são assumidamente produzidos e eram maneiristas segundo ele mesmo, pois sua mão forte está na direção, no tratamento da iluminação e até mesmo na apresentação final para o cliente. Por tudo isso ganhou espaço entre a burguesia paulistana e criou fama.



Ele soube impor seu estilo, sua competência técnica e sua eficiência para resolver problemas de toda ordem, o que lhe valeu no mercado profissional a referência como fotógrafo que conseguia realizar o impossível. Seu desempenho na publicidade o levou a montar um invejável conjunto técnico de equipamentos – câmeras de grande formato 4x5 e 13x18, de médio formato, a Rolleiflex e a câmera 35mm Leica, todas com conjunto de lentes específicas para enfrentar qualquer tipo de trabalho. Lorca lembra também que Chico foi o primeiro profissional de São Paulo que comprou um sofisticado conjunto de flash eletrônico, abandonando as altas temperaturas da luz contínua e criando com isso novas possibilidades de produzir efeitos de luzes que diferenciaram a sua fotografia e caracterizaram seu estilo forte e sintonizado com seu tempo. Sua versatilidade, associada ao seu conhecimento técnico, o transformou num profissional de alto gabarito. “Um clássico da fotografia brasileira”, segundo palavras de German Lorca, opinião que é compartilhada por vários dos fotógrafos que foram seus assistentes em diferentes momentos, principalmente após a experiência do Estúdio Abril, entre eles Sergio Jorge e Bob Wolfenson.

As experiências do Estúdio Abril e do jornal O Povo

Depois do reconhecimento e do sucesso profissional, o cearense Chico Albuquerque começa a ser solicitado para assumir outros desafios. O primeiro deles foi assumir o Estúdio Abril entre 1967 a 1973, período em que foi o responsável direto pelo mais ousado projeto de formação profissional que temos conhecimento na história da fotografia brasileira. Convidado pela Editora Abril para coordenar um grupo de fotógrafos e criar uma identidade visual, no caso fotográfica, para cada revista publicada pela editora, Chico elaborou um projeto baseado numa formação centrada na excelência técnica e num profissional que fosse capaz de produzir a fotografia no prazo determinado, independentemente das dificuldades. Essa versatilidade, somada à competência técnica e eficiência, espelhava de certa forma toda sua trajetória profissional com a fotografia. Primeiramente, o Estúdio Abril ocupou o endereço da avenida Rebouças, centro nervoso do estilo e da produção fotográfica de Chico Albuquerque.

Depois se transferiu para um espaço muito mais amplo, situado à rua do Curtume, e neste momento ele passou a ser o Diretor Técnico assessorado por Sergio Jorge e pelo inglês Roger Bester, então Diretor Criativo. Esse passo inovador da editora foi possível graças à dedicação do seu Chico, como era carinhosamente tratado pelos jovens fotógrafos, entre eles Bob Wolfenson que naquele momento se iniciava na fotografia. A direção de pulso forte e exigência técnica impecável transformaram aos poucos o Estúdio Abril na primeira grande escola de fotografia do Brasil. E lá estava Chico Albuquerque, fazendo exatamente o que mais gostava, ou seja, experimentando equipamentos, testando novas situações de iluminação, montando cenários e criando soluções que atenderiam às diferentes demandas do estúdio. O projeto do estúdio ganhou projeção internacional e criou uma espécie de sinergia onde todos estavam aprendendo a aprender sob a batuta inquestionável de Chico Albuquerque.

Em 1975 retornou a Fortaleza, mas não parou, pois realizou o segundo ensaio sobre o Mucuripe e um ensaio sobre frutas tropicais da região. Em 1981, foi convidado a assumir, como consultor, a coordenação de um grupo de 12 repórteres fotográficos do jornal O Povo, que deveria ser transformado numa equipe de trabalho. Iniciou alterando radicalmente o laboratório, espaço fundamental para desenvolver o trabalho com qualidade. Depois colaborou na formação técnica dos fotógrafos. Um dos jovens fotógrafos participantes deste projeto, Ed Viggiani, lembra que sua presença naquele momento no jornal era inspiradora e que essa experiência foi fundamental para sua formação. Salienta que seu Chico “era uma universidade da fotografia viva, ali presente e ensinando a todo momento. Apesar de trabalhar muito no estúdio, soube aproveitar e explorar a luz ambiente. Dizia sempre que nunca havia luz ruim, apenas falta de inspiração. (...) Seu Chico era modesto e sincero. Não fazia elogios gratuitos e nem era dado a modismos”. Como vemos, tanto nas oficinas do Fotoclube no final dos anos 1940, como nas experiências da Editora Abril e no jornal O Povo, temos um profissional disposto a compartilhar informações técnicas e estéticas, além de enfatizar a importância de construir um repertório cultural amplo e diversificado para poder dar conta das mais diferentes situações enfrentadas pelo fotógrafo profissional.

O livro

No Brasil, nós não temos a tradição do livro de fotografia autoral. Só mais recentemente é que vimos aflorar uma indústria gráfica de qualidade, um avanço na pesquisa da história da fotografia e a necessidade de publicar livros autorais, com trabalhos de artistas que marcaram época na fotografia brasileira. Apesar de ter produzido uma fotografia quase que essencialmente utilitária, centrada no retrato, na publicidade e na fotografia comercial, Chico Albuquerque tem sua fotografia presente em poucas publicações. Em 1951, constatamos sua presença no livro Isto É São Paulo, Edições Melhoramentos, que publicou uma série de livros sobre os estados brasileiros, ao lado de fotógrafos como Alice Brill, Leon Liberman, entre outros. Outra edição importante é Brazil – portrait of a great country, de 1959, editado pela Colibris Editora Ltda., destinado a divulgar a imagem do país.
Depois temos as duas edições do livro Mucuripe, que contam com os ensaios realizados em 1952 e 1988. Mais recentemente, foi incluído nos livros Mar de Luz – litoral do Ceará, da editora Tempo d’Imagem, de 2000, e Ceará Terra da Luz, publicado pela Terra da Luz Editorial, em 2005. Ambos reúnem praticamente os fotógrafos da terra e são bastante eloquentes do ponto de vista imagético.

Como deixou claro em inúmeras entrevistas, fotografia é domínio técnico e para isso é preciso saber enxergar e saber dar importância ao assunto, ao fundo e à luz que incide sobre os objetos e sobre as pessoas. Essa é a condição mínima para despertar a emoção e a criatividade, romper as convenções e transpor os limites da imaginação. Francisco Albuquerque, por todas as razões expostas ao longo deste texto, pela sua incrível trajetória no mundo da luz, por sua disponibilidade em compartilhar os seus momentos especiais em magníficas fotografias, por sua fiel amizade com outros artistas e intelectuais, pela sua ousadia e competência, está entre os grandes nomes da fotografia do século XX produzida no Brasil.


Vítima de um enfarte fatal, Chico Albuquerque faleceu em 26 de dezembro de 2000 sem assistir ao lançamento de Mucuripe – livro coletânea de 63 fotos em preto e branco registradas na praia da capital cearense, dez anos após as filmagens de It’s All True. Chico Albuquerque faleceu na madrugada seguinte ao dia em que conferiu a prova do livro que estava fazendo.Vítima de um enfarte fatal, Chico Albuquerque faleceu 26 de dezembro de 2000 sem assistir ao lançamento de Mucuripe – livro coletânea de 63 fotos em preto e branco registradas na praia da capital cearense, dez anos após as filmagens de It’s All True. Chico Albuquerque faleceu na madrugada seguinte ao dia em que conferiu a prova do livro que estava fazendo.


Fotos da Galeria Mucuripe



Vídeo Terra da Luz Editorial 



terça-feira, 3 de maio de 2011

Antiga Assembléia Provincial - Atual Museu do Ceará

Palácio Senador Alencar construído entre os anos de 1856 e 1871, abrigou: Academia Cearense de Letras, o Legislativo da Província, a Faculdade de Direito e a Biblioteca Pública. Hoje abriga o Museu do Ceará.

No início do século XIX, no quadrilátero entre as Rua São Paulo, General Bezerril, Floriano Peixoto e Travessa Morada Nova, no terreno onde hoje se levanta o Palácio Senador Alencar, havia uma igreja, demolida 34 anos antes da construção do prédio. 
Em 1835 o Presidente da Província, Joaquim Vilela de Castro Tavares, apresentou à Assembléia Provincial do Ceará um relatório chamando a atenção para a necessidade de uma casa condigna aos legisladores da Província, visto que a existente mais parecia um edifício destinado às sessões de alguma municipalidade de aldeia. Esse foi o pitoresco começo da historia do edifício com 663 metros quadrados de área que hoje abriga o Museu do Ceará.

No ano 1856, o presidente do Conselho da Intendência Municipal, Vicente Pires da Mota, mandou levantar a planta do edifício e encarregou o presidente da Câmara Municipal, Antônio Rodrigues Ferreira (o Boticário Ferreira), a adquirir as casas denominadas “quartos da Agostinha”, movimentado ponto de venda de alguns gêneros alimentícios, para instalação da futura sede da Assembleia Provincial. Em 25 de outubro daquele ano, as obras de construção do Palácio tiveram início. O empreiteiro da obra foi Joaquim da Fonseca Soares e Silva. Entre os anos de 1857 e 1863, a obra esteve paralisada. Posteriormente, o projeto e a execução da obra foram incumbidos ao engenheiro Adolpho Herbster (responsável pela primeira planta detalhada e precisa de Fortaleza), o qual elaborou a planta a partir dos alicerces já prontos da primeira fase da construção.

Arquivo Assis Lima

O prédio foi entregue oficialmente em 03 de março de 1871 para instalação da Assembleia Legislativa, sendo inaugurado em 04 de julho daquele ano, com a presença de políticos ilustres, como o deputado Gonçalo Baptista Vieira, o Barão de Aquiraz, e o presidente da Província do Ceará. O local foi denominado Palacete Senador Alencar, uma justa homenagem a José Martiniano Pereira de Alencar, famoso político do Império, pai do romancista José de Alencar.


Na ditadura Getúlio Vargas (1937-1945), o prédio recebeu outro uso, pois as casas legislativas foram fechadas; a parte de cima ficou com o Tribunal de Contas e a de baixo com a Faculdade de Direito. No dia 21 de março de 1973, o Palácio foi oficialmente tombado pelo Patrimônio Histórico Nacional. O Ofício foi assinado por Renato Soeiro, diretor do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN. Em 1977, quando foi construído o atual prédio da Assembleia Legislativa na Avenida Desembargador Moreira (Palácio Deputado Adauto Bezerra), o Palácio Senador Alencar ficou desocupado por algum tempo, até que, em 30 de setembro daquele ano, a Lei nº 10.121 cede, em comodato, pelo prazo de 20 anos, o Palácio para a Academia Cearense de Letras ACL.

O prédio ocupado na época pela faculdade de direito

O imóvel ainda mantém suas características arquitetônicas originais. Seu estilo neoclássico é expresso principalmente através das colunas, janelas e frontão triangular. É sem dúvida, um dos belos exemplares da arquitetura produzida no Ceará. Mais do que isso, constitui um marco oficial do estilo neoclássico brasileiro, com um elegante pórtico em Lioz portuguesa, fachada principal com 10 janelas no andar térreo e 13 no superior, interior constituído de grandes salões e uma sala de sessões que ocupa o edifício em toda a sua extensão.


Arquivo Assis Lima

A tipologia e natureza dos adornos são semelhantes no primeiro e no segundo pavimento. A diferença no que diz respeito às esquadrias é a presença de gradil trabalhado fechando as esquadrias superiores, como peitoris de sobrados; já no pavimento térreo as aberturas são fechadas somente com esquadrias mistas de madeira e vidro. O acesso principal é bem marcado pela presença de colunatas dóricas que suportam o avarandado do pavimento superior, avarandado encerrado por balaustrada e a presença de frontão triangular onde se vê o Brasão da República. O revestimento das paredes possui frisos horizontais negativos que convergem para os arcos das aberturas de forma radial; a marcação vertical das fachadas fica por conta de pilares ligeiramente sacados, já a horizontal limita bem os dois pavimentos e é constituída por uma cornija ao centro e outra ao topo na platibanda.


Foto de 1952. Acervo Assis Lima

No prédio também já funcionou a Biblioteca Pública, o Instituto do Ceará, o Liceu do Ceará e o Tribunal Regional Eleitoral, até que em 1990, na gestão do governador Tasso Jereissati, foi restaurado e passou a ser sede do atual Museu do Ceará. Por ocasião da reforma, ganhou nova infraestrutura, que vai desde a nova disposição do projeto museográfico à climatização em 27 e 28 graus, iluminação especial e recuperação e mostra inédita de peças como a restauração da pelagem e do empalhamento do Bode Ioiô. Foi construída uma reserva técnica, um auditório para palestras e cursos com capacidade para 30 pessoas e criado o espaço para exposição temporária.

A instituição museológica passou por outras denominações: em 1933, quando foi fundada, tinha o nome de Museu Histórico do Estado e funcionava junto ao Arquivo Público do Estado; em 1951, acrescido de coleções de antropologia e etnografia indígena, tornou-se o Museu Histórico e Antropológico do Ceará; em 1990, já incorporado à Secretaria de Cultura, passou a denominar-se Museu do Ceará.


Foi reinaugurado em 25 de março de 1998, na comemoração dos 114 anos da abolição da escravatura no Ceará. O majestoso edifício, então adaptado para o funcionamento do Museu, abriga exposições de longa e curta duração. Em 2001, foi criada a Sala Paulo Freire, que sedia palestras, cursos e seminários. No ano seguinte, foi aberto o Memorial Frei Tito, uma homenagem ao religioso que viveu durante o regime militar instaurado no país em 1964. O Museu do Ceará possui, ainda, Reserva Técnica, Sala do Núcleo Educativo, sala da administração e biblioteca. Tem ainda em sua coleção um acervo Plumário que também foi tombado pelo IPHAN. O Museu do Ceará conta com importantes coleções que contam a história do Ceará: Paleontologia, Arqueologia/Antropologia Indígena e Mobiliário. Ao visitar o Museu, nos deparamos com exposições temáticas permanentes, com temas de interesse da história do Ceará, tais como os poderes constituídos, as lutas e revoltas populares, a religiosidade, a produção intelectual e a irreverência do cearense.

O bode Ioiô empalhado

Logo no hall de entrada o visitante percebe uma jangada exposta de tipo “bote” (a menor entre os tipos existentes, feita com rolo de madeira leve como a piúba e Timbaúba) e pode observar uma maquete com o projeto da Fortaleza antiga. No pavimento superior, objetos que não possuem referências ocupam uma das alas e, em 10 outras, distribuídas por temas, cerca de 5.830 peças como fardas usadas por membros da Guarda Nacional (função militarizada criada durante a Regência, subordinada ao Ministério da Justiça), o chapéu que pertenceu ao Padre Cícero, uma tanga em cerâmica marajoara para uso feminino, com data anterior a 1350 e o livro de prata usado na sessão de abolição da escravatura no Ceará, em 25 de março de 1884 compõe as salas de exposição de longa duração. Todas essas peças valiosas contam a trajetória do Ceará.

Década de 60. Acervo Carlos Augusto Rocha Cruz

Dentre as alas destacam-se "Terra da Luz, Sertão e Mar", "Que História é Essa?", "Escravidão e Abolição", "Ceará Moleque", "Símbolos e Emblemas do Poder", "Letras e Artes", "Indígenas Cearenses", "Religiosidade Popular", entre outras.


A maioria das peças do Museu, embora muito antigas, foram adquiridas por ocasião da sua criação, em 1933, até a década de 1980 e oferecem uma oportunidade única de se conhecer a natureza do cearense. Através delas pode-se mergulhar nas lutas, crenças e cultura de um povo que soube provar, ao longo de sua História, que a vontade de vencer nasce dentro da alma e que, apesar dos pesares, importante é manter o humor.


Na ala "Terra da Luz, Sertão e Mar", estão expostas roupas de vaqueiros, com seus acessórios de couro. Na ala imobiliária, fotografias antigas da Praça General Tibúrcio, após remodelada em 1914; e a Praça do Ferreira nos anos 30. Na ala paleontológica, destaca-se a exposição de peixes fossilizados, pré-históricos, existentes há cerca de 10 milhões de anos, encontrados na Chapada do Araripe. Na ala da arqueologia indígena as peças de brincos, apitos, colar, e o remo dos índios do Xingu, dão toque ao local.

Hoje - Ângulo parecido com o da foto da década de 60.

Atualmente o Museu do Ceará, situado na Rua São Paulo, 51 entre a Praça dos Leões e a Rua Floriano Peixoto, é considerado um Monumento Histórico Nacional e resguarda, em pleno Centro de Fortaleza, um espaço para a preservação dos usos e costumes da população.

Arquivo Evaldo Lima

2015 - Igor de Melo - Somos Vós 

2015 - Igor de Melo - Somos Vós 

2015 - Igor de Melo - Somos Vós 

2015 - Igor de Melo - Somos Vós 


2015 - Igor de Melo - Somos Vós
  
Minha postagem sobre o Museu na Coluna do Vós


A visitação do Museu é de terça à sábado, de 9hs às 17 horas. Entrada Grátis.
O Museu fica localizado na Rua São Paulo, 51 - Centro
Fone: (85) 3101.2610 / Fax: (85) 3101.2611
E-mail: musce@secult.ce.gov.br

Fonte: http://www.avdragaodomar.com.br e diversas pesquisas na internet 

domingo, 1 de maio de 2011

O fim da simplicidade... no nome das praças e ruas



Aurora, Alegria, Flores. Nomes simples, com os quais os fortalezenses se localizavam na cidade, no século XIX, deixaram de existir para dar lugar a nomes próprios.


Antiga Rua Formosa, hoje Barão do Rio Branco, no início do século XX - Acervo Museu do Ceará

Datas comemorativas, heróis militares, figuras nobiliárquicas, empresários e políticos. Com o passar dos anos, os bucólicos nomes de ruas e praças de Fortaleza foram sendo mudados para enaltecer elites políticas e econômicas. Mas essa atitude recorrente não foi suficiente para arrancar do povo cearense o gosto por nomes com os quais as pessoas se identificam no dia-a-dia, sobressaindo o popular sobre o oficial. Com isso, a Praça Castro Carreira foi batizada pelo povo como Praça da Estação; a Praça Clóvis Beviláqua ficou popularmente conhecida por Praça da Bandeira, além de vários outros casos mais recentes.


A capital cearense deve seu nome à fortificação construída por holandeses no século XVII (Forte Schoonenborch). Mas foram os portugueses que, em 1654 a batizaram com o nome de Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção. Foi ao redor dela que se estabeleceu o primeiro aglomerado urbano, com planta atribuída ao capitão-mor Manuel Francês, de 1726, ano da instauração da vila da Fortaleza.

Na exposição e no livro “Fortaleza: imagens da cidade”, o historiador Antonio Luiz Macêdo e Silva Filho constrói uma reflexão sobre a atuação dos poderes públicos na afirmação da ordem urbana e na perpetuação de heróis e valores dos grupos dominantes em contraposição à cultura popular. Isso fica visível na nomenclatura dos logradouros da cidade, que, num primeiro momento, era ligada ao seu cotidiano popular.



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No século XXI, cenário bucólico dá lugar à agitação urbana
Foto de Gustavo Pellizzon

Até meados do século XIX prevaleceu a designação dos logradouros pela tradição ou função das edificações que lhes caracterizavam. Dessa forma, a Travessa da Municipalidade passou a ser a Rua Guilherme Rocha. De igual modo, a Rua do Quartel (hoje General Bezerril) partia das imediações do Forte, contíguo ao Quartel da Guarda Nacional; da Misericórdia (atual Dr. João Moreira) fazia referência à Santa Casa; São Bernardo (hoje Pedro Pereira) pela igreja homônima; e do Cajueiro (atual Pedro Borges).

Havia também as travessas da Assembléia (hoje São Paulo), do Gasômetro (Senador Jaguaribe) e do Chafariz (José Avelino). A Rua das Flores (Castro e Silva) assim era chamada possivelmente em virtude de cortejos entre a Matriz da Sé e o Cemitério São Casemiro (posteriormente denominado São João Batista).

Também havia nomenclaturas com referências comercias, como a Estrada do Gado (Rua Justiniano de Serpa); e vias que ligavam distritos longínquos, como a Estrada do Arronches e o Calçamento de Messejana (respectivamente avenidas João Pessoa e Visconde do Rio Branco).

Antonio Luiz destaca que a nomenclatura popular é tão forte que hoje ainda é possível verificar nomes empregados pela própria população competindo e lançando no desuso as denominações oficiais, como ocorre com a Praça Castro Carreira, batizada pelo povo como Praça da Estação; a Praça Clóvis Beviláqua, popularmente chamada de Praça da Bandeira; a Praça da Polícia (oficialmente dos Voluntários); e a Praça dos Correios (por lei, Waldemar Falcão).

Outra situação de destaque é a da Praça General Tibúrcio, inicialmente denominada Largo ou Pátio do Palácio, quando ficava em frente ao Palácio do Governo Provincial. Em homenagem ao herói da Guerra do Paraguai, muda de nome em 1887, quando recebe sua estátua e seus restos mortais. Durante uma remodelação, realizada entre 1913 e 1914, recebe três grandes estátuas em forma de leões, ficando conhecida, desde então, como Praça dos Leões.

A nomenclatura oficial dos logradouros, conforme Antonio Luiz, sempre esteve à mercê de contingências políticas e culturais, reforçando a história oficial, lançando mão de símbolos “supostamente harmônicos”, como datas comemorativas, políticos, heróis militares ou figuras nobiliárquicas.


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