Fortaleza Nobre | Resgatando a Fortaleza antiga : Tipos de Fortaleza [notification_tip][/notification_tip]
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Blog sobre essa linda cidade, com suas praias maravilhosas, seu povo acolhedor e seus bairros históricos.


terça-feira, 3 de julho de 2012

Tipos de Fortaleza



No final do século XIX e primeiras décadas do século XX ficaram famosos em Fortaleza “tipos populares” que riam e faziam rir de qualquer coisa jocosa que acontecesse nas ruas – daí tal comportamento, profundamente censurado pelas elites e classes médias, ter ganhado a alcunha de “Ceará Moleque”, expressão inclusive existente já à época.
Os tipos populares eram na maioria das vezes pessoas pobres, desocupadas ou sem trabalho fixo, depauperadas e maltrapilhas, que perambulavam pelas ruas, apresentando aparência ou comportamentos “excêntricos e cômicos”. Entre eles, destacaram-se:
(…) O “Casaca de Urubu”, que em 1915 causava rebuliço público quando ouvia coro de pessoas entoarem “casaca de urubu… bu… bu” – lutara na Guerra de Canudos quando moço e chegou a ser oficial de justiça, sendo expulso do emprego por ser epiléptico. O “De Rancho”, que munido de uma velha carabina desativada saía pelas calçadas gritando e “metralhando” os pedestres – inclusive o automóvel de um presidente estadual que, assustado com o “atentado”, mandou que o prendessem imediatamente –, teria enlouquecido durante a Primeira Guerra Mundial. (…) O “Pilombeta”, que odiava a palavra “trabalho”, fora agrimensor em Minas Gerais, era exímio jogador de xadrez e sabia tocar piano. O “Tertuliano”, que se vestia de beato e fazia pregações engraçadíssimas pelas praças, era dono de uma pequena venda. Assumira aquele furor místico depois de ficar ferido em violenta luta com policiais que o prenderam por não ter atendido a uma intimação policial[1].
Chaga dos Carneiros

Existia ainda o “Chaga dos Carneiros”, ferrenho monarquista, que andava sempre conduzindo três carneiros pintados, cada qual, em uma sátira à República, apelidados com nomes de alguns presidentes. Exemplo maior, contudo, foi o legendário Bode “Ioiô”. O animal, trazido por um flagelado da seca de 1915 para Fortaleza, acabou comprado pelo dono da firma exportadora Rosbach Brazil Company (situada na Praia do Peixe, hoje Praia de Iracema) e, em vez de virar uma suculenta buchada, foi mantido vivo, passando a perambular como “boêmio” pela cidade com grande simpatia e carinho da população, sem ser molestado. Em 1931, “Ioiô” morreu, de velhice, causando grande consternação pública e merecendo até destaque na imprensa. Seu “corpo” foi embalsamado e oferecido ao Museu Histórico do Ceará, onde ainda hoje pode ser visto.
Bode Ioiô
O local preferido para as manifestações e “excentricidade” do povo era a Praça do Ferreira – logo ali, o “coração da cidade”, por onde passavam bondes, gente com as últimas modas e novidades, os sisudos senhores proprietários e onde se encontravam as lojas mais elegantes, os principais cafés! Qualquer pessoa ou episódio que “quebrasse a rotina” eram pretextos para a divertida molecada soltar vaias, gracejos, palavrões ou bolar os apelidos e escárnios os mais engraçados. Imagine-se o ódio das camadas “destacadas da sociedade” ao terem seus nomes como alvos das chacotas do “canelau”…
Pode-se entender os tipos populares e o “espírito amolecado” do povo – em outras palavras, a irreverência popular –, num momento de disciplina e higienização da cidade, como uma forma de alívio ante a pressão social representada pelas más condições de vida e trabalho daquela massa de pobres, bem como uma expressão de descontentamento perante a normatização urbana que as elites tentavam impor. Ao serem “feios”, sujos, anti-higiênicos, “estranhos, exóticos e diferentes”, os tipos populares e o comportamento jocoso do povo chocavam-se frontalmente e ofendiam os padrões “civilizados” que os grupos médios e dominantes se esforçavam em estabelecer para acompanhar os valores “modernos” da Belle Époque. No fundo, era uma tática de resistência popular.
Airton de Farias
Fonte: [1] PONTE, Sebastião Rogério.Fortaleza Belle Epoque. Fortaleza: Fundação Demócrito Rocha. Multigraf Editora Ltda, 1993, pág. 177.

4 comentários:

  1. Parabéns pelo Blog, Leila. Sua paixão por Fortaleza é contagiante.

    Abraço

    Allan

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  2. Cada dia que passa este blog fica muito mais interessante, é sempre bom saber que a nossa Fortaleza além de ser uma cidade encantadora é também uma cidade com bastantes histórias. Parabéns pelo blog.

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    Respostas
    1. Muito obrigada, Carolina, fico muito feliz e lisonjeada com as suas palavras! Muito gentil de sua parte! :)

      Forte abraço

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