Fortaleza Nobre | Resgatando a Fortaleza antiga : Nas ondas do rádio - Década de 40 (Parte II) [notification_tip][/notification_tip]
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quinta-feira, 29 de maio de 2014

Nas ondas do rádio - Década de 40 (Parte II)



O rápido avanço da emissora e o alcance do sucesso como empresa que pela especificidade do campo da informação foi referência cultural na cidade durante anos, deve-se especialmente ao investimento publicitário.

Foto histórica da Orquestra da Ceará Rádio CLub, obtida em 1947. 

O entretenimento esteve presente na cerimônia de inauguração das novas instalações da Ceará Rádio Clube, naquele ano de 1941. 


A programação musical foi iniciada pelo maestro italiano, recém contratado pela PRE-9, Hercules VaretoNa sequência, no auditório da emissora, sucederam-se várias apresentações de artistas locais e nacionais, destacando-se o grupo 4 Azes e 1 Coringa (Foto ao lado) e Orlando Silva - O Cantor das multidões, a grande atração do evento. “A cidade parou para receber a grande voz romântica do cancioneiro nacional, cantor que disputava as preferências do público juntamente com Francisco Alves, ‘o rei da voz’, que antes visitara o Ceará, para atuar ao microfone da PRE-9, em 1938” (CAMPOS, 1984, p. 11).

A partir de 1941, os programas da PRE-9 obedeciam ao script; a linguagem utilizada pelos locutores foi se adequando à técnica, as transmissões passaram a ter mais de um microfone e “para quase todos os programas, a direção exigia recursos musicais, orquestrados ou produzidos pelo sonoplasta, no caso o próprio discotecário” (CAMPOS, 1984, p 12). Com a mudança para o Edifício Diogo, disponibilizou para a sua audiência, um auditório de 100 lugares. Com a chegada das ondas curtas a emissora cearense reforçou os cuidados com a qualidade do que era produzido e divulgado pelos microfones da PRE-9. De acordo com Narcélio Limavede, “um locutor principiante nunca teria acesso ao microfone no momento em que a emissora tivesse no ar usando seus dois transmissores de ondas curtas, além do de onda média, este operando em todos os horários” (LIMAVERDE, 1999, p. 91). Ao locutor cabia a responsabilidade de irradiar a “Voz do Ceará” para o mundo, portanto somente profissionais com experiência comprovada e reconhecida pela competência e desempenho podiam conduzir determinados programas. Deste ponto de vista, o rádio se transformou em escola e alguns memorialistas falam até em faculdade. Na rotina da atividade, os funcionários aprendiam na prática com os mais experientes e também com os próprios erros. 


“O rádio foi pra mim a grande lição da minha vida, uma grande faculdade. No rádio eu aprendi muito” (CABRAL, entrevista, 2008). Para ingressar como locutor da Ceará Rádio Clube, os candidatos eram submetidos a difíceis testes de locução. Era um concurso com uma banca examinadora respeitável, participavam: João Dummar, o Secretário de Educação, um engenheiro. Então, era uma banca respeitável nós éramos 8 ou 9 candidatos, e eu era o número 9, e como eu fiz um improviso com uma certa facilidade acabei ganhando o concurso (CABRAL, entrevista, 2008).
Ao passar pelo teste de locução da PRE-9, os speakers iniciantes eram impedidos de atuar nos horários do almoço e a partir das 20 horas, após A Hora do Brasil, tais horários eram tidos como “nobres” no período. A ansiedade era grande entre os novatos. “Tratava-se de uma glória para qualquer locutor da velha Ceará Rádio Clube, estação que recebia cartas dos mais longínquos países, dando conta de que estavam ouvindo suas emissões e pedindo confirmações” (LIMAVERDE, 1999, p. 91). Os cartões postais recebidos do exterior eram os troféus da emissora que investiu de forma profissional para conseguir alcançar o reconhecimento do público local, nacional e os conterrâneos que estavam morando no estrangeiro.

O Jornal Anuncia e Populariza o Rádio

Eram constantes as publicações no O Povo referentes à PRE-9. Em 1942, o jornal publicou uma matéria comemorativa do primeiro ano das ondas curtas no Estado. De acordo com a notícia, a Ceará Rádio Clube já era ouvida com êxito em toda parte da América. “Dia a dia, cresce o prestigio da estação de João Dummar, sendo considerável a sua legião de ouvintes” (O POVO, outubro de 1942).

A fama do empreendedorismo de Dummar ganhou o Brasil. A Ceará Rádio Clube, única emissora cearense no período, era sucesso entre o público de todas as idades. Tais fatos
despertaram o interesse de um dos maiores empresários do ramo da comunicação brasileira:
Assis Chateaubriand, dono dos Diários e Emissoras Associados.
João Dummar, que chegara ao Ceará aos sete anos de idade e dedicara sua vida ao progresso da terra que amava, teve seu processo de naturalização bloqueado na burocracia do Itamaraty e passou a ser instado por Assis Chateaubriand a vender a
Ceará Rádio Clube (DUMMAR FILHO, 2004, p. 71).
A legislação brasileira vigente na época determinava que o controle das empresas de radiodifusão deveria ser exclusivamente de brasileiros natos ou naturalizados. Esse foi um dos argumentos utilizados por Chateaubriand para obrigar Dummar a vender a PRE-9. Além
disso, alguns “boatos maldosos” envolvendo o nome da emissora começaram a circular pela capital cearense.

(...) Circulou um boato em Fortaleza de que o piscar das luzes fluorescentes que 
ornamentavam o estúdio da emissora no último andar do Edifício Diogo emitia sinais para os submarinos alemães. Para alimentar tal maledicência, apontavam ainda o solavox, instrumento eletrônico que acoplado ao piano emitia sons de órgão, insinuando que o mesmo emitia ondas de rádio. E reforçando a distorção dos fatos passaram a acusar o maestro italiano Ercole Varetto, que tinha sido contratado há mais de um ano para a orquestra da PRE-9, como suspeito de envolvimento neste acontecimento. Injustamente, o maestro teve que ser afastado de suas funções por pressões políticas e da opinião pública (DUMMAR FILHO, 2004, p. 71).

Assis Chateaubriand

Esses fatos culminaram com a venda da Ceará Rádio Clube para os Diários e Emissoras Associados, no dia 11 de janeiro de 1944. A compra da PRE-9 iria fortalecer o
império de comunicação de Chatô e compor o primeiro oligopólio dos meios de comunicação
de massa existentes no País. No decorrer das décadas seguintes outros se somariam a este.
Além da emissora, o presidente dos Associados também adquiriu os jornais cearenses:
Unitário e Correio do Ceará. A programação e a estrutura física da rádio passaram por significativas transformações. Como ocorreu no restante do país, o conglomerado de Assis
Chateaubriand começou a utilizar uma linguagem padrão em toda a sua rede de comunicação¹, distribuída no país inteiro, atingindo não só as capitais, mas também as pequenas cidades do Norte e Nordeste.


Os Diários e Emissoras Associados usavam profissionais de uma emissora em outra, exportavam programas de sucesso, além de aproveitarem a estrutura dos jornais do
grupo na redação e na comercialização da programação radiofônica. Assis Chateaubriand abusava do próprio poder para difundir seus ideais políticos. Mas era um típico exemplo de grupo que detinha uma rede de rádio – na verdade, tinha um conglomerado de comunicação (JUNG, 2005, p. 41).


Continua...

Leia AQUI a primeira parte

¹ Segundo Ferraretto, apud Wainbeerg, o império de Assis Chateaubriand englobava 33 jornais, 25 emissoras de rádio, 22 estações de TV, uma editora, 28 revistas, duas agências de notícias, três empresas de serviços, uma de representação, uma agencia de publicidade, duas fazendas, três gráficas e duas gravadoras de discos.  (FERRARETTO, 2001, p. 131)





Crédito: Francisca Íkara Ferreira Rodrigues (Graduada do Curso de Comunicação Social – Jornalismo, pela Universidade de Fortaleza – UNIFOR) e Erotilde Honório Silva (Professora Doutora em Sociologia, pela Universidade Federal do Ceará – UFC. Coordenadora da Pesquisa História e Memória da Radiodifusão Cearense – UNIFOR). A popularização do Rádio no Ceará na década de 1940: Trabalho apresentado no 7º Encontro Nacional de História da Mídia realizado em Fortaleza – Ceará, de 19 a 21 de agosto de 2009.)


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