Fortaleza Nobre | Resgatando a Fortaleza antiga : No auge da Leste–Oeste [notification_tip][/notification_tip]
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terça-feira, 3 de janeiro de 2012

No auge da Leste–Oeste


Construção da Av. Leste-Oeste - Anos 60

Início dos anos 70, o auge da Discoteca. O movimento mundial da chamada Dancing Music assolava o país. A MPB estava no fundo do poço. Tudo que lembrasse cantores ou canções em português soava e era rotulado como brega. As músicas tinham obrigatoriamente que ser em inglês para ter aceitação. Cantores medíocres, letras idem e arranjos bizarros completavam o sucesso. E o som necessariamente tinha que ser alto, muito alto. De preferência ensurdecedor para encobrir as vozes desafinadas e as letras sem nexo. A platéia gritava, pulava freneticamente, sem ritmo e sem cadência sob luzes estroboscópicas, feixes coloridos e piscantes de luzes refletindo nos globos espelhados que giravam no teto das salas escuras. O chão, as paredes, o teto, todo ambiente parecia se mover. A fumaça dos inúmeros cigarros e por vezes artificial (de gelo seco) completava o ambiente asfixiante e delirante das discotecas. As velhas boates, promovidas a pistas de dança e adaptadas de qualquer maneira ao modismo, surgiam renovadas e com nomes exóticos. Templos da diversão e prazer e também de muita droga e sexo, muito sexo.

Foi nessa época e nesse ambiente que surgiram e floresceram os inúmeros bares, boates e inferninhos da nova e recém inaugurada Avenida Leste-Oeste. A cidade crescia vertiginosamente, puxada pelo “milagre econômico” e sob a batuta da Gloriosa Revolução de 64. Bebidas, drogas, prostituição, tudo podia. Contanto que não fosse contra a ordem pública ou oposição ao regime. As novas avenidas começavam a rasgar a velha Fortaleza, inclusive com a construção do seu primeiro viaduto. Viaduto esse que ficou famoso e para não fugir ao espírito moleque do cearense foi logo batizado de “Tatazão”. Uma homenagem ao conhecido e popular homossexual “Zé Tatá”, um velho travesti que residia no submundo do centro da cidade. A região central também começava a mudar.

Pertinho dali, na Praça da Estação e por trás da velha Estação da REFFSA ficava a zona do baixo meretrício, o popular e conhecidíssimo Curral e mais abaixo as Cinzas. Um lugar degradante, formado por vielas imundas com seus inúmeros barzinhos e bordéis e habitado por prostitutas e marginais. Uma vergonha para a cidade. Era necessário extirpar essa ferida do centro da capital. A construção da nova e imponente avenida veio a calhar. Como se diz por aqui: passaram a máquina, literalmente. Não ficou nem as cinzas dos casebres e dos velhos cabarés. Uma larga e asfaltada avenida foi aberta cortando a cidade pela orla no sentido Leste-Oeste, inaugurada oficialmente em 1973 e batizada com o pomposo nome de Avenida Presidente Humberto de Alencar Catello Branco. Pra variar, o nome não pegou e até hoje é conhecida apenas como Av. Leste-Oeste. Começando no centro, na altura do QG da 10ª Região Militar, passando pela Escola de Aprendizes Marinheiros e pelos bairros do Jacarecanga, Morro do Ouro, Pirambú e indo até a Barra do Ceará. Uma magnífica obra de engenharia urbana e uma limpeza visual e social de várias áreas degradadas e miseráveis da capital.

Inauguração da Av. Leste-Oeste em 1973 - Arquivo Nirez

As autoridades esqueceram, porém de um detalhe. O que fazer com os antigos moradores do Curral? Com o fim da zona, como os antigos proprietários de bares e cabarés e as dezenas de prostitutas e seus cafetões iriam sobreviver sem seus negócios? Não deu outra. Logo no início da recém inaugurada avenida começaram a surgir as novas casas de diversão. Pipocaram inúmeros bares toscos com estruturas improvisadas e nomes pitorescos. Eram as tais discotecas, um misto de bar e restaurante e com pistas de dança grotescas. A maioria delas coladas umas nas outras, formando uma longa fila de pontos de encontros e de prostituição. Entre os “pointes” se destacavam pelo movimento e estrutura os bares Beco, Reboco e Ladeira. Tinham de tudo no “cardápio”, além de bebidas e comidas. Usando uma expressão bem cearense: nesses locais tinha “viado pra dá de páu” e “rapariga dava no meio da canela”. E tudo movido ao som ensurdecedor das “discotecas” e muita, muita bebida.

Curiosamente junto com o surgimento de tais bares-discotecas, ou puteiros como queiram, aumentou inexplicavelmente a presença de homossexuais nessa região da avenida. Não sei explicar se pela evolução dos costumes ou se pela miséria e degradação social da época, mas nunca se viu tanta “viadagem” nessa terra de macho como naquele tempo. E ao som dos “hits” da época os gays, “travecos” e assemelhados disputavam, por vezes às tapas, a clientela com as raparigas. As bandas e os cantores do momento eram, entre outros, The Police, ABBA, Village People, Tina Charles, Donna Summer, Diana Ross e, em especial a rainha e madrinha das “bichas", a internacional Gloria Gaynor. Quando ela soltava o vozeirão e entoava o hino do gênero “I Will Survive” as pistas fervilhavam e as “bonecas” iam ao delírio. Pulavam, dançavam e gritavam histericamente com as mãozinhas para e alto acompanhando o hino:

Oh no, not I! I will survive!
Oh, as long as I know how to love
I know I'll stay alive!
I've got all my life to live.
I've got all my love to give.
And I'll survive. I will survive! Oohh...

Anos 70

A noite se estendia ao som das melodias e regada com tudo que pudesse ser bebido, fumado ou cheirado. Aos pouco os casais iam se formando e se dirigindo para os também inúmeros motéis espalhadas nas proximidades. Os bares iam se esvaziando e os clientes que resistiam procuravam se manter em pé ou ainda tentar “pegar” uma rapariga que sobrou. E a música continuava em volume máximo. Lá no horizonte, pras bandas do Porto do Mucuripe, o sol ameaçava romper. Vendo o movimento cair, o gerente do bar apelava para mais um dos “hits” da época com a inigualável Gloria Gaynor. Entrava com o outro hino “Can’t Take My Eyes Off You”. Aumentava ao limite máximo o volume e detonava. Era mais uma chamada e a galera atendia enchendo a pista de dança. Para quem ainda estava solteiro era a hora da última tentativa de arranjar companhia e de pedir mais uma bebida ou a “saideira”.

Ainda na década de 70, com a saturação do estilo discoteca, a região entrou em rápida decadência. Hoje, nada mais disso existe. Dos áureos tempos da Leste-Oeste restam apenas lembranças. Nem mesmos as velhas estruturas ou um único bar remanescente, nada conseguiu sobreviver. Quem passa hoje pelo local não imagina que ali, naquela área quase vazia e desabitada e somente com alguns casebres e prédios decadentes, a cidade se divertia e foi palco de uma época de muita alegria, farras e esbórnia. Reina atualmente no local apenas o mau cheiro e o odor nauseante da Estação de Tratamento de Esgotos da CAGECE. Coisa da minha terra. Coisas do Ceará.

Carlos J. H. Gurgel 
 
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