Fortaleza Nobre | Resgatando a Fortaleza antiga : Das antigas - Dona Concebida e o Fenemê [notification_tip][/notification_tip]
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sexta-feira, 22 de julho de 2011

Das antigas - Dona Concebida e o Fenemê




Essa história que hora vos conto é baseada em fatos reais. Uma ficção nascida de um factual. Um devaneio de uma senhora chamada, aqui, por dona Concebida. Não que esse seja o nome de pai e mãe. Rebatizo-a, com a permissão de Deus, para que a família não se irrite, caso se identifique, com a narração daqui pra frente. Não é potoca, miolo de pote ou conversa pra boi dormir. Não. Também não é nenhum fato escabroso. Pelo menos na minha opinião. É uma história com boa pitada de fermento aqui e acolá. 


Falo assim porque fui testemunha de algumas coisas. Como no dia em que dona Concebida só faltou morrer de remorso quando o pai morreu. Um militar aposentado da Marinha. Suboficial Virgílio, nome de guerra, que morreu aos 89 anos. Dormente de uma banda do corpo que o impedia de falar com fluência e ter tato das coisas. A parte direita de seu 1 metro e oitenta de homem não valia nada desde que ficou viúvo. Desgosto e muito banzo. Ausência da velha companheira e ruindade da filha única. Concebida. Menina que virou moça, adolescente, jovem, coroa e terminou moça velha. Descasada e vitalina. Frustada por ter o ventre árido, não por opção ou falta de desejo. Amarga por não ter arranjado o fulano dela e ter passado boa parte da vida cuidando dos pais ou atrás de uma máquina de costura. 
Ficou aperreada no dia da morte de Seu Virgílio. Saiu correndo pela rua Natal, enlouquecida da vida. Queria, já que judiou do velho enquanto vivo, dar-lhe um enterro de chefe de Estado. Com pompas e outras frescuras. Custaria os olhos da cara e noites dobradas à beira da Singer de pedal e correia. Pensou em contratar um dos dois rabecões do Museu do Automóvel do Ceará. O 1930 ou o 1932. De madeira, trabalhada, penas de pavão e janelinhas enfeitadas com cortinas roxas. Tentou. Encheu o saco mas não conseguiu. Não deixou por menos. 
Lembrou então dos carnavalescos carros do Corpo de Bombeiros. Se achava no direito de também usufruir deles. Eram públicos. Mantidos com impostos também seus. Porque não usá-los? Recordou do enterro de Francisco Alves, Elis Regina, Tancredo Neves e de coisas banais como desfile de Miss, seleção brasileira ou campeão de fórmula 1. Queria porque queria que o cortejo chamasse atenção mais do que o habitual. Imaginem. Um caminhão vermelho, sirene troando no mundo e uma guarda de seis bombeiros. De capacetes e outros penduricalhos. Não teria cristão que não soubesse que ali ia um morto. E que morto. Poderia ser até um ex-governador ou deputado da ativa. Daqueles populistas que a morte termina os transformando em heróis. Mas foi besteira sonhar tanto. Ou melhor, se encher tanto de direito. Terminou quase presa no quartel. Vizinho ao Liceu. 


Corpo de bombeiros - Foto de 1934

Enxotada, voltou pra casa e resolveu fazer greve. Enterro de pobre, não. Não mesmo. Considerava rabo de cabra todas as funerárias de Fortaleza. Nada de Veraneio, Caravan ou outros ''letrecas''. Queria um negócio bacana. Ajeitado. Se não fosse assim, não haveria enterro. Seu Virgílio ficaria ali. Nem que desse bicho. Fedor na rua, quarteirão ou no bairro inteiro. Na bodega de Seu Barateiro a palestra não era outra. O caso de dona Concebida e do pai morto era motivo para baforadas de Arizona sem filtros e ''goipadas'' de cana com limão. Já tinha aumentado mais do que era. Especulava-se, por exemplo, que o pai teria sido sua grande paixão durante a juventude. Daí a falta de homem. Por isso não tinha conseguido arranjar casamento. Que dormia ao lado do morto e fazia coisas com ele. Que isso, que aquilo e que aquilo outro. 





Pois muito bem. Depois de cinco dias de impasse, podridão no mundo, uma alma caridosa apareceu para tentar resolver o problema. Apareceu e ofereceu um caminhão FNM, ou fenemê, para conduzir o defunto. De graça. Não cobraria nada desde que o enterro fosse feito de imediato. Ninguém tava agüentando. Ela se agradou da história do defunto ser conduzido em um carro grande. Mas só aceitou se o cortejo fosse longo e cada morador da rua oferecesse uma coroa de rosas para o infeliz. Com dizeres e tudo mais. Lembranças, beijos e abraços escritos em tiras de cetim. Podia ser vagabundo, roxo ou amarelo de preferência. Sem saída, o bairro aceitou. E lá foram eles. Os dois, Concebida e o pai morto. Num cortejo que acabou virando manchete de todos os jornais, rádios e emissoras de tevê. Não tinha canto de rua que coubesse mais gente. Curiosos. Mais pessoas que a multidão que se apertou na José Bastos para ver de perto João Paulo II, em 1980.

Fonte - O Povo (Demitri Túlio)

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