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sábado, 9 de julho de 2011

Das antigas - São João Sebastião da cobra



A cor cinza e algumas rachaduras nos túmulos não impediam o esconde-esconde, a soltação de raias e o pula-pula.



Os meninos da Padre Mororó brincavam entre as covas do São João Batista. As meninas, nunquinha. Um quintal enorme de cruzes, velas choramingadas, coroas murchas, corredor de benjamins e gatos que nasciam na mesma proporção dos hóspedes que iam chegando pra ficar.


A cor cinza e algumas rachaduras nos túmulos não impediam o esconde-esconde, a soltação de raias e o pula-pula (gela) de uma sepultura a outra... Aparava-se pião e se bebia na risca pra ver quem ia ser o fona ou pato-paturi na bila... Brincava-se de troca-troca e até de ferrim no olho do peixe de areia.


E nunca houve um caso de reclamação de alguém que voltou para botar pra correrem os moleques. Nem ninguém para cortar de peixeira a bola embarcada que, muitas vezes, espatifou o retrato ou jarrinho de rosa recente. Nenhum bodejou pra acabar com a risadaria sem fim por causa de um pum sinfônico.

Resmungo, mesmo, só de seu Caronte. Um coveiro que recebia moedas das famílias endinheiradas. Vigia do fuxico em cima dos jazigos dos que se foram ricos. O povo das pirâmides de mármore inglês e donos dos anjos submissos de olhar sempre para o chão. Capitalistas que haviam comprado todos lotes que davam para o portão da Rua das Flores. Uma reta até a Sé das famílias.

Nem no São João Batista, os empalitozados se misturavam com os zés-mortalhas amontoados lá atrás... Caixa Beneficente da antiga Guarda Civil, Polícia, Sargentos e Suboficiais da Aeronáutica, Círculo Operário São José, Indigentes da Santa Casa de Misericórdia...

No front, à coté um do outro os Távora, Gentil, Gurgel, Albano, Dummar, Boris, Câmara, Alencar, Borges, Philomeno...

Túmulo de Virgílio Távora

E, de certo, pra aqueles lados os meninos foram obrigados a se medrar. Iam mais por desafio de uns aos outros. Mas nem todos. Ali, entre os que tiveram a Cidade aos pés, existia um túmulo que se comunicava com o mar da Leste Oeste através de um corredor subterrâneo.

Lá se esparramava uma serpente indesenhável que transformava menino, com o cão nos couros, em anjo de lápide. Deduziam arregalados. Por isso existir, naqueles lados, tantos querubins de pedra com cara de choro e susto! Teimaram, invadiram para a parte proibida... Danaram-se onde Caronte desaconselhava a anarquia.

Na frente, onde não se admitia atazanar, havia um túmulo com rachaduras nunca saradas. Cimentavam, mas no dia seguinte um buraco roliço rebentava. Lugar de passar um tronco de benjamim se mexendo. Arrombado por onde a cobra costurada, aborrecida com a juventude, se apresentava. Um túmulo miserável entre as pirâmides inglesas.

Contavam ser de uma narcisa que usou toda a prata que possuía para não desmoçar. Para não perder o viço, esticou e remendou o que deu. Viu-se em mais de uma face em retratos rasgados e sem tolerar ser chamada de avó. Daí a ira com quem novilhava.

Não engolia os meninos. Atravessava o olhar e caiam anjos de pedra. Até seu Caronte recolher e fixá-los no São João Batista.

Crédito - Demitri Túlio
demitri@opovo.com.br

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