Fortaleza Nobre | Resgatando a Fortaleza antiga : Das antigas - Notícias de Fortaleza (Anos 50) [notification_tip][/notification_tip]
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sábado, 16 de julho de 2011

Das antigas - Notícias de Fortaleza (Anos 50)




Oficinas da Rede Viação Cearense (RVC), no Urubu, Barra do Ceará. Conde D'Eu, corredor da Catedral e pensões alegres do raparigal. Abrigo Central e Café Globo, no Centro da cidade. Roteiro da primeira versão do um crime. 1950. Fortaleza era uma aldeia. Apavorada com a notícia de alguém que matou dois comerciantes paraibanos para se apossar de um Chevrolet do ano. Valor: 130 mil cruzeiros. Importado. Como todos os outros que rodavam pela cidade. Cobiça, dívida e vaidade se misturavam. Idalino, ex-jogador de futebol, de vários escretes do Brasil e Ceará era o carcará.

Na Rua Major Facundo até alcançar a Rua Floriano Peixoto tinham vários comércios entre eles o 'Café Globo' defronte o 'Café Hawaí'. Logo chegava-se ao Abrigo Central - 
Acervo Marciano Lopes

O POVO, de oito páginas, oitenta centavos, deu nada menos que seis manchetes de capa do jornal. Cinco principais e uma secundária. Mais duas manchetes na página 8. Letras garrafais e dizeres rodrigueanos. ''Barbaramente decapitados'', dia 13 de outubro de 1950. ''Fala a esposa de Idalino'', 14 do 12. ''Juro que não sabia de nada''. ''Fala a amante de Idalino''. ''Pelo amor de Deus, deixe-me em paz''. ''Idalino vai negar o crime''. Teve igual destaque no Correio do Ceará Gazeta. Concorrentes. Era tempo que tinha matéria escrita na primeira página. 

Era Fortaleza, que só virava notícia nacional quando a desgraça ou a politicagem fazia até Tinhoso debulhar um terço. Barbosa Lima Sobrinho, então governador da Paraíba, mandou carta para Faustino de Albuquerque. Pedia ao chefe de estado do Ceará empenho na apuração do desaparecimento de conterrâneos. Os comerciantes Aloísio Milet e Geraldo Cavalcante haviam tomado um chá de sumiço na capital cearense. Acharam. Estavam há quarenta e cinco dias enterrado nas proximidades das oficinas da Rede Ferroviária, na Barra. Local que hoje conhecemos por museu da RFFESA, no Carlito Pamplona. 

A cidade estava apavorada com a tragédia. Mas, comemorava a inauguração do Cine Jangada. Em seu diário, ''Memória de um Jornal'', seu Costa - jornalista José Raimundo Costa - contava que o monopólio da Empresa Ribeiro em Fortaleza chegava ao fim. Tava sendo inaugurado no dia 15 de fevereiro. Com ele chegava a Fortaleza o ''excelente'' cinema francês ''Monsieur Vicent, capelão das galeras''. Amadeu Barros Leal, diretor do empreendimento, prometia inaugurar outras casas do gênero. Todas com nome de utensílios da jangada. Valeu a intenção. 

Fortaleza se admirava com tudo. Deslumbrava-se. Um anúncio dava ares de cidade que estava evoluindo. Progresso. A Coca-Cola, que chegara com a tomada do Pici pelo americano durante a II Guerra, seria finalmente produzida aqui. Até ali era importada. Seu Costa conta. Tá registrado. ''Agora, Coca-Cola é fabricada em Fortaleza. Por Refrigerantes S.A., à rua Monsenhor Tabosa, 1.054''. 

Foto de 1950 - Fábrica da Coca-Cola na Monsenhor Tabosa - Aba Film


A polícia, coitada, essa andava mais a pé do que motorizada. Tempo do Cosme e Damião. Policiamento feito com uma dupla de homens. Presença em algumas esquinas. Talvez por isso não tenha reparado que um Jeep havia saído da Pensão da Graça, no Centro, para o Urubu na Barra do Ceará. Lá despejaria as vítimas de Idalino em uma vala comum. Também pudera. Era setembro e o serviço de rádio patrulha em Fortaleza só começaria a funcionar em 16 de novembro. Desta vez com rádio e tudo. Num só dia foram feitas 37 prisões. Teve preso que adorou a novidade. Diz o folclore que a negada agradecia o passeio. Bebim. 

Os homens da lei também eram alvos de suspeita. Já naquela época. Mudou pouco de lá pra cá. No caso Idalino foram acusados de espancamento, maus tratos e extorsão. O acusado mandou petição ao juiz exigindo interferência para que policiais da Delegacia de Capturas dessem conta de 7 mil cruzeiros e um punhado de jóias. No momento da prisão de Idalino, o pessoal teria feito uma rapa geral. O velho bacorejo. Idalino tava com as burras cheias. Desapareceu tudo. Inconformado com a acusação, o comissário Clóvis Holanda disse que tudo estava na Justiça. Havia sido feito uma auto de apreensão. Nada tinha sido surrupiado. Bem. Houve o julgamento e nunca mais se falou sobre o que foi apreendido. 

Outra reclamação do preso dizia respeito a banho. Recolhido a um dos xadrezes do Casarão do Diabo, atual prédio da Superintendência da Polícia Civil, o homem reclamava que não o deixavam tomar banho. Passou semanas trancafiado e não sentiu o cheiro da água. Logo ele. Metido a Dom Juan. Meio Alberto Roberto. Quando foi transferido de lá para a Cadeia Pública, antiga Emcetur, pediu para dar uma passadinha em casa. Queria trocar as roupas, aparar o bigode e lavar as partes. Ficou só na vontade. Os homens negaram de imediato. Idalino ficou fulo da vida mas não adiantou. Teve que sair à gambá. Ele e a amante. Um multidão os esperava fora da delegacia.
 


Cadeia pública na Rua Dr. João Moreira

As reclamações de Idalino não surtiram efeito algum. Direitos humanos não existiam. Ponto para a polícia que pintava e bordava. Sobrou pra ele novas acusações. Suspeita de envolvimento em outros crimes. A polícia deu um jeitinho de desvendar casos insolúveis nas costas do ex-jogador. No dia 31 de outubro, O POVO manchetou. ''Nada tenho a ver com o caso da rendeira, nem tão pouco roubei os 60 mil cruzeiros de Aloísio''. A velha tática policial. Científica. Pasmem. Até o secretário da Segurança de Recife queria que Idalino respondesse por um homicídio lá. No final das contas, o ex-craque do Ceará respondeu apenas pela morte dos paraibanos. Que polícia, hein! Mudou pouco. 

No dia 8 de outubro de 1951, José Ramos de Oliveira, o Idalino era condenado a 30 anos de reclusão. A amante, Alcinda Leal, cúmplice, pegaria seis anos de cadeia. Dizem que Idalino voltou à cidade. Década de 90. Havia sumido depois que recebeu a liberdade condicional em 1968. Não deve mais nada. Teria sido visto por um de seus companheiros de time. Velho e sem o mesmo ar de galã que arrastava mulheres à porta da Cadeia Pública. Queriam vê-lo de perto. 



Idalino teria refeito alguns roteiros antes de desaparecer novamente. Cinquenta e dois anos mais velho, ganhou o gramial. Outra vez. Por esses tempos, também pode ter morrido. Ou talvez não! Quem garante que não é um vizinho aqui em Fortaleza. Velhinho e simpático. Ou calado e rabugento. Noventa e poucos anos... E dona Alcinda Leal, que fim terá encontrado?



Continua... 

Crédito - Demitri Túlio - Jornal O Povo

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