Fortaleza Nobre | Resgatando a Fortaleza antiga : Das antigas - Endividado, matou por um Chevrolet [notification_tip][/notification_tip]
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domingo, 17 de julho de 2011

Das antigas - Endividado, matou por um Chevrolet




Frieza. Dias depois de decapitar e enterrar os comerciantes na Barra do Ceará saiu no Chevrolet das vítimas. Por aí. Desfilando. Ruas de Fortaleza. 1950. Sem remorso. O automóvel chamava atenção. Bacana. Fez parada na casa da ex-mulher. Rua Assunção, 516. O queixo foi ao chão. ''Agora concretizei meu ideal''. Babava. Dona Olga de Paula Oliveira estranhou. Franziu a testa. Idalino falara em herança. Mãe morta. Pensou em golpe nos irmãos. Ele rechaçou e foi embora. Depois daquele dia nunca mais se falaram. Mas sempre passava em frente a casa dela. Ele e o Chevrolet. Caminho. Aldeia miúda. 

O queixo foi mais uma vez a pique. Alcovitagem. Telefonema. Uma pessoa mandou que corresse ao rádio. Ficava na sala. Televisores? Nem no Rio de Janeiro. Imagine aqui. Corresse. Um escândalo. Pior que a ressaca da II Guerra. Tava avisando porque era amiga. Preocupava-se. Precisou antes tomar água com açúcar. No Philips, ondas curtas e largas, o locutor bradava. Idalino, tricampeão cearense de futebol matou. Barbaramente. Ex-marido. Ex-jogador. Center half de prestígio. Havia assassinado Aloísio Milet Martins Ribeiro e Geraldo Cavalcante de Brito para roubar um Chevrolet 1950. Do ano. Variou perto do rádioeletrola. Não acreditava no que estava ouvindo. Apesar da separação considerava Idalino um amor de homem. Um doce, apesar de homenzarrão. Incapaz de pisar numa joaninha. 

Mas não deu outra. A história tinha fundamento. O locutor chamou o reclame. E ela ficou ali. Desfalecida na poltrona. Ferros de engomar ''sans''. Sete furos a carvão. Preferido pelas engomadeiras. Leve. Prático. Grande rendimento econômico. Aquecimento rápido e permanente. Não solta cinzas no engomar ou passar. À venda nas boas casas do ramo. BORGES & Cia. Rua Sena Madureira, 743... CORRIJA os seios caídos e flácidos dando-lhe aquele encanto e firmeza da adolescência... 

Só acordou quando uma equipe do jornal bateu palmas no portão. Repórter e fotógrafo. Paletó e gravata. Caderneta na mão. Chapéu de massa. Flash aloprado. Se apresentaram como sendo de O POVO. Nesse tempo a redação ficava na Senador Pompeu. Onde até bem pouco tempo funcionou a Mesbla. Ligação com a General Sampaio. Mãos trêmulas, falou sobre o relacionamento e a personalidade do ex-marido. Só. Não tinha nada a ver com o crime. Separada há um mês não botava sequer o pé na soleira da porta. Raramente. Fofocas. Olhares de Candinha. Cochichados. Casamento desastroso. Tava pensando em arrodear a casa com pés de peões roxo. Banho de arruda. Reza forte. 


Encerrou a entrevista chorando. Convulsivo pranto, segundo a reportagem. Pediu encarecidamente, pelas chagas de Cristo e Francisco, para não ser fotografada. Queria distância da tragédia. Nada de relações. Fizeram o contrário. Dia seguinte, a primeira página a estampava em duas colunas. Foto alta. Vertical. Pior. Na legenda ao invés de dona Olga de Paula Oliveira cravaram o nome da amante de Idalino. Da rival. ''A mulher Alcinda Leal...Vemo-la no momento em que era fotografada, procurando esconder o rosto com as mãos...'' Erro. Tome constrangimento. 

Passou a noite mal dormida. Pesadelos. piloras. Suadeiras. Ânsia de vômitos. Arrepios. Dor-de-barriga e coração a galope. Tava com medo de ter quer ir à presença do delegado. Ser envolvida sem ter a ver com o peixe. E agora? Se gaguejasse, o que iriam pensar? E se não conseguisse dizer uma sílaba sequer? Tinha que arranjar um advogado. 

Cedinho procurou o rádio. Dispensou o café. Evitou se olhar no espelho. O dial corria quase mediunicamente. Zumbido. Zumbido. Pufo! A trama tava descoberta. O vozeirão detalhava. Como na Paixão e Morte de Cristo em tempos de março. Estação por estação. Idalino havia atraído os dois paraibanos à Fortaleza. Aqui pagaria o que faltava de 130 mil cruzeiros para finalizar a compra do carro. Já havia dado um sinal de 6 mil. Além deles, Luizinha, noiva de Aloísio e irmã de Geraldo, veio na bagagem. Pra que a moça? Mulher não combina com negócios. A conversa é entre homens. Ela é arreia na certa. Idalino estava inconformado. Mas não adiantou. Veio. 31 de agosto de 1950. Insistente, tanto fez que conseguiu deixá-la de hóspede na pensão Internacional. De molho, enquanto os três acertavam os ponteiros e aproveitavam para visitar algumas pensões alegres. 

1º de setembro. Última vez que Luizinha viria Aloísio, futuro marido, e Geraldo. Largada pela manhã na hospedaria, recebeu um recado ao meio dia. Os dois não iriam ter com ela no almoço. O porteiro foi o portador. Em nome do irmão. Telefonema. Aguardasse-os para o jantar. Assim o fez. Horas a correr. Nada. Por volta das 17 h 30 min, um repentino telegrama. Subscrito por Geraldo. Procedência de Russas. Êpa!? Resumidamente explicava que estavam no Interior à caça de um gatuno. Haviam sido roubados. Cem mil cruzeiros. Transação de um automóvel. Estranhou. Pensou. Nada. Ficou quieta. 

Dia seguinte sinal algum. No final da tarde Idalino visitou a moça. Disse-se também preocupado. Mas nada de grave. Negócios. Acalmou-a. Passou a cortejá-la. Cumulou-a de gentilezas. Convidou para passeio. Recusa. Foi-se. Dia 7, outro telegrama. Desta vez de Feira de Santana, Bahia. Estavam lá, segunda a correspondência. Quiprocós resolvidos. Desencanasse e regressasse a Campina Grande. Idalino ainda pagou a conta da pensão e se ofereceu para levar a senhorita ao Cocorote. Nova recusa. Premonição. 

Vinte e poucos dias depois caiu a ficha. Nenhum dos dois voltou ou deu notícias. Nunca mais. Acionaram a polícia. Troca de informações. Ceará, Bahia, Paraíba e Pernambuco. Vai-e-vem de polícia e familiares. Dia 14 tava descoberto. Tudo. Idalino confessou. Era o autor dos homicídios e os telegramas foram passados de Fortaleza. Por ele. A moça da pensão Internacional escapara por um triz. Destino. 

O homem do rádio queria contar mais. Mais. Dona Olga desistiu de sofrer. Caiu em si. Não tinha nada a ver com a cachorrada. Ia ficar mais velha. Rugas precoces. Outro reclame. ''Aproveite a experiência de milhões de mulheres que em todo o Brasil só usam o remédio consagrado: REGULADOR XAVIER. Número 1: excesso. Número 2: falta ou escassez. Regulador Xavier, o remédio de confiança da mulher..." Desligou o rádio. Tava explicada metade da agonia. Correu à cozinha. Tomou uma colher de sopa. Tomou outra. Cafajeste. Crápula. Uma desqualificada daquela... Apodreçam. Pegou um jornal velho. De um dia. Página de Cinema. Resolveu ver um filme. DIOGO. Merle Oberon, Cornel Wilde e Paul Muni em ''A noite sonhamos''. Não. MODERNO. Gaill Russell e Thurhan Bey em ''Canção da Índia''. Não. MAJESTIC. Johnny Weissmuller em ''Jim das Selvas''. Com Virgínia Grey
. Era este. Foi. Apesar de ser ainda manhã e estar em início de regra.   

Cine Moderno

Cenas do Filme Jim das selvas:


Fatos Históricos:

  • 01 de setembro de 1950 - À noite, o conhecido jogador de futebol José Ramos de Oliveira (Idalino), que tinha adquirido um automóvel Chevrolet 1950, placas 21-27, aos comerciantes paraibanos Aloísio Millet Martins Ribeiro e Geraldo Cavalcante de Brito se desentende com os mesmos por causa do pagamento e, achando-se desmoralizado, mata-os com uma barra de ferro em um quarto da Pensão Leal, na Rua Conde D`Eu, de Graça Serrano, irmã de sua amante Alcina Leal de Andrade e esconde os corpos em um guarda-roupa levando-os depois para terreno na Barra do Ceará, próximo aos transmissores da Rádio Iracema de Fortaleza e os enterra. Foi envolvido também o funcionário do Departamento de Correios e Telégrafos José Ribamar de Morais que levianamente passou telegramas falsos para as famílias das vítimas, induzido por Idalino, que disse ser uma brincadeira. Somente em 13/10/1950 foi descoberto o crime.

  • 13 de outubro de 1950 - Descoberto o crime cometido pelo ex-jogador de futebol José Ramos de Oliveira (Idalino), no dia 01/09/1950, que preso, confessa tudo.

  •  08 de outubro de 1951 - O Juiz de Direito da 1ª Vara Criminal, Manuel Joaquim de Santana, prolata a sua sentença final, nos autos do processo que a Justiça moveu contra o acusado José Ramos de Oliveira, vulgo (Idalino), e sua amásia Alcinda Leal de Andrade, por autoria e co-autoria de crime de latrocínio contra comerciantes paraibanos em 31/07/1950. Examinando detidamente o processo, as provas apuradas e as razões finais oferecidas pela promotoria, a assistência da acusação, os defensores de Idalino e Alcinda Leal, o juiz condenou o primeiro à pena de trinta anos de reclusão e multa, e Alcinda à pena de seis meses de detenção e multa. Esta, foi posta em liberdade por haver cumprido mais que a pena.




Créditos: Jornal O Povo (Demitri Túlio) e Portal da História do Ceará

6 comentários:

  1. Boa tarde Leila vim dá uma fungadinha na história da nossa terrinha, como sabes já me tornei freguesa deste cantinho, quão rica a nossa história né? as pessoas simplesmente a ignoram optando em somente citar as mazelas. Olha agora somos parceiras coloquei na rolante PARCEIROS DA ILHA um banner linkado do teu blog (como não vi um banner aqui fiz um pegando o teu cabeçalho), agora eu querendo vir aqui é só dá um clique no bannerzinho e aqui estarei, bem como os visitantes da ilha. Beijos iluminados e uma semana de paz!

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  2. Que delicadeza de sua parte, nem sei como agradecer, o banner ficou lindo, um capricho, acabei de ver. Obrigada!!! :)

    Pois é, parceira, já tem tanto canais que só mostram as coisas negativas, que resolvi mostrar o que temos de bom, de cultura, nossa história é muito rica e não pode ser esquecida jamais!

    Beijos e obrigada por seu carinho.

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  3. Consegui achar aqui:

    http://www.opovo.com.br/www/opovo/colunas/dasantigas/153624.html

    parte da história. Quem souber onde encontrar o final favor informar.

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  4. Olá,

    Li uma parte da história do ex- jogador IDALINO aqui:

    http://www.opovo.com.br/www/opovo/colunas/dasantigas/153624.html

    gostaria de saber qual link para ler o restante das suas descobertas.

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  5. Olá!

    Pode aguardar que as postagens serão publicadas.
    Ah, vale ressaltar que todo o crédito é do Demitri Túlio do Jornal O Povo. Ele que é o responsável por todas essas descobertas. rs

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  6. GOSTARIA DE VER SENDO PUBLICADA ALGUMA COISA SOBRE A SORVETERIA DAHUM (l958) do sr. Moacir Gonçalves, dono também da "Cabana" e do "Cearazinho" (anos l970)

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