Fortaleza Nobre | Resgatando a Fortaleza antiga : As melhorias urbanas durante a seca de 1932 [notification_tip][/notification_tip]
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sábado, 14 de outubro de 2017

As melhorias urbanas durante a seca de 1932


A partir da década de 30, Fortaleza acusa um crescimento demográfico elevado que se reflete no aumento de sua área urbana. Contudo a expansão da cidade a partir do aumento da população não gerou a ampliação relativa a infra-estrutura urbana, tais como calçamento, energia elétrica, água encanada, rede de esgotos, transportes coletivos, etc. (SILVA, 1992, p 29).

A Fortaleza dos anos 30 numa raríssima imagem de um pequeno postal. 
Vemos um bonde elétrico na Praça do Ferreira, onde os homens usavam terno de linho branco irlandês com chapéus, por causa do forte sol. A igreja Cristo Rei ao fundo, cajueiros e casarões contemplam o raro cenário. O Palacete Ceará, prédio inaugurado no início do séc. XX é destaque na foto. 
Parece que a foto foi tirada de cima do Excelsior Hotel (inaugurado em dez/1931). Pode ser também de um fotógrafo lambe-lambe, assim chamado que no início do século XX se pendurava em locais de difícil acesso p/ registrar os acontecimentos da cidade.

A seca de 1932 contribuiu para que a cidade de Fortaleza se tornasse mais habitada, porém, as pessoas que passaram a morar na cidade (retirantes) eram enxergadas pelas classes abastadas de maneira paradoxal. Pois se por um lado representava vandalismo, rebeldia, costumes inapropriados, quebra da ordem vigente, por outro significava a mão de obra barata para implantação do projeto de modernidade e consolidação do capitalismo desejado por essa classe dominante. Portanto, a cidade vai ser construída, ou melhor, reconstruída na seca de 1932 a partir dos conflitos sociais entre os setores capitalistas, o governo, e os retirantes, que representavam lucro e marginalização.
Nessa época se intensifica o processo de favelização de Fortaleza, causada em parte pela explosão demográfica que a seca de 1932 proporcionou. Boa parte da população de retirantes que vieram para a capital foi morar em bairros afastados da elite. O governo aproveita a quantidade de população (retirantes) e os recursos atraídos do governo federal devido à seca, e passa a investir nas chamadas “melhorias urbanas”.

Na década de 30, mesmo com o agravante da seca de 1932, Fortaleza insere-se num contexto nacional de urbanização. O governo começa a investir em “melhorias urbanas” na cidade, com o objetivo de torná-la mais moderna, na esteira do contexto nacional de urbanização. A mão de obra flagelada serve de recurso para a construção da “nova cidade”, que data sua gênese no final do século XIX, mas que é intensificada nesse momento.
As ruas do centro começaram a ser remodeladas para atender o novo padrão de urbanização que preza pela melhor circulação de pessoas, mas, principalmente, de mercadorias. Era necessário ampliar a circulação de mercadoria, para gerar uma maior acumulação de capital, especialmente após a crise de 1929.

Tendo sempre na máxima consideração as facilidades do tráfego, a atual administração realizou um serviço de incalculáveis resultados, o qual consistiu em fazer a ligação da Avenida Visconde do Rio Branco com a Rua Sena Madureira, a fim de estabelecer comunicação franca entre a zona da praia e, portanto, a zona portuária, e o bairro Joaquim Távora e, consequentemente o distrito de Mecejana e o interior do estado. 
(Relatório do Interventor Federal Roberto Carneiro de Mendonça 22/09/31 à 05/09/34. Arquivo Público do estado do Ceará. p. 290)

A rua Sena Madureira nos anos 30.

Era importante para o governo melhorar a circulação na cidade. Os bairros que faziam parte do perímetro central deveriam estar ligados com a praia, ou melhor, com a zona portuária. Pois o objetivo principal não era melhorar “o tráfego de pedestres” como podemos observar nesse trecho extraído do relatório, e sim facilitar o acesso ao porto da cidade, que, no desenvolvimento atual de sua economia, recebia maior importância. Essa reforma foi chamada no relatório do Interventor Federal, de “ligação importante”, mostrando a sua relevância visto que, para ela ser efetuada, foi necessário reconstruir.


A pavimentação do trecho compreendido entre as ruas Pedro I e Travessa do Pocinho, até então totalmente imprestável, e afastou o alinhamento dos muros do Parque da Independência e da chácara pertence ao Sr. Alfredo Barbosa Leite, a quem foi indenizado o prejuízo correspondente. [...] mesmo depois de ter mostrado o esforço para que o ligamento fosse feito. O governo ressalta [...] este melhoramento era sobremodo facilitado o escoamento do trafego por aquela importante via publica. 
(Relatório do Interventor Federal Roberto Carneiro de Mendonça 22/09/31 à 05/09/34. Arquivo Público do estado do Ceará. p. 291)

Beco dos Pocinhos em 1927. Crédito: Prefeitura Municipal de Fortaleza. Agradecimento-Ivan Gondim

Beco dos Pocinhos visto da Rua Pedro Borges na direção do nascente, vendo-se ao fundo a Igreja do Pequeno Grande.

Reformas como essas se tornaram frequentes a partir da seca de 1932, graças a um aumento das verbas que chegaram à capital devido à seca e também a um setor do capitalismo ligado ao comercio e à indústria civil, que precisava se desenvolver. Sem falar na população “flagelada” que poderia ser um recurso barato, e que foi aproveitado pelo governo, na medida em que resolveria dois problemas de uma só vez, diminuição dos gastos com mão de obra e controle social dos retirantes. Isso se reverbera no discurso afiado do Estado, no que tange a necessidade dessas melhorias para a população. Podemos notar na sua justificativa sobre o prolongamento da Rua Liberato Barroso:

Em obediência a um plano anteriormente traçado, de fazer prolongar a Rua Liberato Barroso até a praça dos voluntários, em cujas proximidades, é projeto construir-se o Paço Municipal, foram indenizados e demolidos os prédios e terrenos necessário a esse prolongamento, no trecho compreendido entre as ruas Floriano Peixoto e Major Facundo. E este é um melhoramento de avultados efeitos para o futuro da cidade e muito facilitará como já está facilitando, o desenvolvimento do trafego urbano. Torna-se indispensável que a administração municipal complete a abertura da rua projetada, no trecho compreendido entre as ruas Floriano Peixoto e General Bezerril, a fim de que a medida atinja a sua finalidade.
(Relatório do Interventor Federal Roberto Carneiro de Mendonça 22/09/31 à 05/09/34. Arquivo Público do estado do Ceará. p. 289)

Fotos do Relatório Carneiro de Mendonça

O relatório mostra o empenho para convencer que esse prolongamento era de total necessidade, que facilitaria o tráfego, ou seja, o desenvolvimento futuro da cidade, deixando implícito que a cidade e a administração (do prefeito Tibúrcio Cavalcante e Interventor) iriam ter perdas enormes se a obra não fosse construída. Ressaltando como sendo de fundamental importância concluir essa melhoria que para a abertura do trecho ora entregue ao publico, foi necessário desapropriar cinco prédios, no valor total de R.S. 385.000. Os discursos eram criados com a intenção de justificar a construção dessas melhorias. Falava-se do aumento de verbas destinados a essas obras, utilizavam a retórica da antinomia cidade moderna em detrimento da “velha” cidade, para que os setores capitalistas e o governo¹ efetuassem seu projeto urbano de desenvolvimento capitalista, excluindo as camadas pobres da participação dos benefícios. Fortaleza estava se remodelando numa velocidade exacerbada. Várias obras foram construídas com a intencionalidade de deixar a cidade mais moderna. Foi construído nessa época o primeiro mictório público sendo instalado no canto do jardim da Praça General Tibúrcio. “O material sanitário é de primeira qualidade, foi adquirido na Inglaterra e já se encontra no almoxarifado da prefeitura” (Relatório do Interventor Federal).
Verificamos, então, qual era a prioridade do governo. A cidade lotada de retirantes famintos, sem moradia, em busca de melhores condições de vida, e a prefeitura utilizando a verba, oriunda em boa parte devido à calamidade, para construir banheiros públicos.
No primeiro ano do governo de Getúlio Vargas, a seca já fazia parte da agenda de discussão. Resultando, em 1932 e 1933, de auxilio de verbas do governo federal ao combate à seca, normalmente repassados via IFOCS e Ministério de Viação e Obras Públicas. No ano de 1934, ficou estabelecido na Constituição que a União teria que traçar um plano orçamentário relativo às secas. A estiagem passou a ser incorporada como pauta obrigatória do Estado. Os problemas provocados pelas secas deveriam ser contornados pelo viés racional de controle da União. As imigrações passaram a ser analisadas numa dimensão global. A mudança na política do governo em relação à estiagem mostrou, em parte, a relevância da seca de 1932 no cenário nacional.

Mictório público da década de 30. Esse ficava localizado na Travessa Pará. Acervo MIS

Como se tratava de uma das maiores secas já ocorridas no estado do Ceará, os governos estaduais e federais, agiriam junto com as classes abastadas para tentar atenuar os conflitos que ela poderia gerar. Portanto, era necessário enviar mais verbas para que o controle da população fosse efetivado sem conflitos. Isso significava construir obras e colocar os retirantes para ocupar seu tempo, no caso, trabalhar pesado.
Foi construída mais uma praça, conhecida como Fausto Barreto.

Serviço de terrapleno na Praça Fausto Barreto (Praça da Alfândega). Relatório do Interventor Federal Carneiro de Mendonça - 1931 a 1934


Na planta da cidade, levantada ultimamente, ficou projetado uma praça, que tomou o nome de Fausto Barreto e esta localizada a praia de Iracema, no ponto terminal da Avenida Pessoa Anta, recém-aberta e pavimentada. O terreno destinado à referida praça foi adquirido em condições vantajosas para municipalidade. Foi feito o serviço de aterramento dos charcos ali existente, e aproveitado o coqueiral como arborização do logradouro, que tem atualmente aspecto pitoresco e sadio.

Avenida Pessoa Anta (rua da Praia) na década de 30. Arquivo Nirez


Essa era uma das formas que o governo encontrava para utilizar os retirantes, estabelecendo um controle sobre seu tempo “livre”, visto que era necessária muita mão de obra para fazer os serviços de aterramento dos charcos, construção de praças e ruas, e não carecia de muita especialização para esses tipos de serviços, sendo, por conseguinte muito viável para o Estado a alocação dos “flagelados” nessas obras, e que não foram poucas.

É importante salientar que os discursos acerca dessas obras sempre vêm acompanhados de adjetivos como: vantajosas, bonitas, de imensa serventia pública, fundamental para melhorar o tráfego entre outros. Em nenhum momento é ressaltada a importância dos trabalhadores na construção dessas “melhorias”. É como se elas fossem feitas pelas ideias da elite e do governo e não pelo trabalho dos operários que carregavam as pedras, erguiam as praças, modificavam as ruas etc. Havia uma inversão de valores em relação a essas melhorias. Elas eram utilizadas dentre outros objetivos, para fazer propaganda do governo. E as reformas continuavam sem parar.


Continua...

¹As reformas referentes a seca de 1932 se iniciam no governo do prefeito Tibúrcio Cavalcante, mas ganham um impulso maior na administração de Raimundo Girão, no ano de 1933.

Leia também:
A Seca e a Modernidade da Capital
A Seca, o conflito político e a favelização da capital
Seca e Campos de Concentração em Fortaleza


Crédito: Artigo 'A produção do espaço urbano de Fortaleza à partir da Seca de 1932' de Rodrigo Cavalcante de Almeida.
Fontes: SILVA, José B. d. Os incomodados não se retiram: Fortaleza: Multigraf, 1992/ Relatório do Interventor Federal Roberto Carneiro de Mendonça 22/09/31 à 05/09/34. Arquivo Público do estado do Ceará. / http://memoria.bn.br/

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