Fortaleza Nobre | Resgatando a Fortaleza antiga : O bonde II [notification_tip][/notification_tip]
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quinta-feira, 17 de junho de 2010

O bonde II

Enfim, como tudo na vida tem seu tempo certo, até para se amar e porque não dizer também para desamar, quando o espírito perde a força de voar e fica desasado, desolado . . . ou desazado no conceito do outro pelo descuido do amor. E, daí, só o tempo se encarrega de dar soluções para cada caso.

Mas, voltemos ao Bonde e sua significação.

Do inglês BOND . . . Sin. bras. Veículo elétrico de transporte urbano, para passageiros ou carga, que se move sobre trilhos e pode ser fechado ou aberto, com estribo corrido e bem particular a este; elétrico. Bra. Gíria. Mau negócio; logro; mulher feia, sem atrativo; bofe, bagulho. Bras. Futebol. - Jogador ruim. - Comprar bonde. Bras. Gíria. - “Cair em conto do vigário”. Fazer mau negócio. - “Tomar o bonde errado”. Bras. Gíria. - Enganar-se quanto ao resultado de negócio ou aventura em cujo bom êxito se confiava muito; malograr-se, frustrar-se; errar de porta. E, por aí vai o anedotizar que para muitos casos tem sua aplicação adequada.

Andar no bonde era acima de tudo uma forma de se distrair até alcançar o lugar desejado num transporte muito agradável em que quase todos se conheciam por serem residentes do mesmo bairro ou adjacências.
Cumprimentavam-se, faziam trocas de gentilezas, “pagando a passagem um do outro” e, em alegre tom, dizia - “fulano a passagem está paga”. . . Já se sabia que o cobrador viria entregar o “cupom” que garantia o pagamento da passagem e era uma cortesia que se fazia ao amigo.

Mas, ainda no bonde Jacarecanga, os liceistas (que tinham fama de insubordinados) que por vezes estavam sem o dinheiro para pagar a passagem e para lograr o condutor do bonde, entre si se combinava; um sentava-se mais atrás e o “sem dinheiro”, geralmente tipo loquaz, o segundo sentava mais à frente. - Quando o que sentava à frente pagava, e com a saída do cobrador dizia: “fulano já paguei”. Naturalmente, todos viam o gracejo e quando o cobrador se aproximava - o segundo dizia: “já foi paga”. Vinha em seguida a cobrança com a indagação: - “Quem pagou?” Até que o cobrador desconfiado chegasse ao local do pagador o bonde tinha percorrido boa parte do percurso, ou o itinerário chegado ao seu ponto final.

Foto de um bonde elétrico cheio de alunos do Liceu passando em frente ao Foto Ribeiro, na Rua Major Facundo na Pça. do Ferreira em 1931. Cartão Postal distribuido pela Casa Crysanthemo.

O cobrador quando desabusado, tocava a sineta e parava o bonde. O liceista espreitando o condutor e galhofando exclamava: - “Vou descer, mas também fique certo, vou ‘enredar’ de sua conduta ao Mister Hull, para lhe botar para fora da empresa”, no que era seguido por fortes galhofadas e, para que reinasse a alegria, um generoso passageiro pagava a passagem . . . Isso é de estudante mesmo. . . outros trocavam de lugar no bonde até chegar ao Liceu, se vangloriando nas famosas bochechas no bonde, sempre pendurados nos estribos segurando nos balaústres, expostos ao perigo, mas se divertiam a valer, contando façanha.

Como toda empresa estrangeira a Ceará Tramway Light & Power C. o LTD. que aqui obteve concessão para explorar as linhas, por aproximados 34 (trinta e quatro) anos não era diferente das demais empresas estrangeiras. Levava muito a sério suas obrigações, respeito aos direitos e deveres. Em tudo se podia observar o fiel cumprimento, a começar pelo horário de trabalho e exercício das suas atividades, pagamento dos salários e encargos aos funcionários.
Quando se aproximava o tempo de finalizar o horário, 11 horas, colocava no frontispício do bonde - local indicativo do nome da linha - lia-se a palavra “recolher”. . . a não ser em dias especiais, fim de ano, carnaval, etc., se prolongava por mais tempo os horários.
Assim, se tinha conhecimento do horário, já não pegava passageiro e nem parava nos pontos que costumeiramente desciam ou subiam passageiros. Sua retirada até a “Estação do Bonde”, ponto de recolhimento, era com rigor obedecida dentro do horário estabelecido.
Se durante o trajeto apresentasse algum defeito era de imediato colocada placa indicativa - “Estação” - e substituído por outro elétrico.
Dessa forma a cidade e os passageiros tomavam conhecimento das ocorrências com os bondes elétricos, porque os redobrados cuidados da empresa, credenciavam-na entre as mais sérias e tradicionais que explorava o ramo de transporte e fornecimento de energia elétrica.

Nos anos 40 - tempo de guerra - houve em Fortaleza a hora do apagão - o blecaute, e todos sabiam o horário, tempo de duração para que pudessem se precaver da ausência de iluminação, e era observado com pontual critério.
Talvez esse comportamento cuidadoso da Light com as coisas, negócios e obrigações, inspiraram a nossa admiração maior, deixando com a liquidação de suas atividades aqui na nossa Capital, lembrança que ainda machuca com a tristeza de ter deixado partir o bonde - condutor de singularidades hilariantes; portador das saudades que embeveceram um passado ainda não tão distante, mas constrange a lembrança por lamentar a perda de tão útil transporte - o bonde, transportador de alegrias. - No Rio de Janeiro - existiu, dentre outras linhas, a do “Bonde da Alegria”, que deu origem à marchinha carnavalesca que dizia: “A mulher do padeiro, trabalhava todo dia, só viajava no bonde da alegria. . . O padeiro coitado, deixou de fazer pão, não atendeu mais a sua freguesia. . .” (sem nenhuma alusão).

Aqui o bonde atendeu com imponência a nossa população, transportando crianças, moços e velhos durante tanto tempo para os diversos bairros da Cidade. Hoje, num retrospecto dos fatos, rebuscando saudades que se misturam com as alegrias vividas, simbolizam verdadeira harmonia de contraste, porque tudo passou com o tempo deixando viva a lembrança a quem Deus concede o prêmio de não perder o juízo para caducar. . . virando criança de novo!!!

Zenilo Almada
Advogado




Crédito: Artigo publicado no Diário do Nordeste - Fortaleza.

Ceará - Domingo, 27 de outubro de 2002

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